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Quando a apneia do sono não precisa ser tratada

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Na medicina moderna o sobre diagnóstico é uma situação muito comum. Ele pode ser definido quando pessoas sem sintomas são diagnosticadas com doença que não lhe causará sintoma ou morte precoce. A apneia obstrutiva do sono (AOS) é uma doença muito prevalente em nosso meio e, em diversos casos, pode ser apenas observada ou tratada de forma conservadora.

Entre os prejuízos associados aos sobre diagnósticos, podemos incluir as rotulações desnecessárias, atribuindo doenças aos pacientes quando elas não existem, os riscos de testes e terapias desnecessárias e os custos gerados. Os avanços tecnológicos propiciam o aumento da acurácia nos meios diagnósticos, aliada a vieses médicos com conflitos de interesse e aumento da preocupação exagerada da população pela saúde são fatores relevantes e associados à sobre diagnósticos. A AOS é considerada uma doença de alta prevalência no mundo e no Brasil. Dados do estado de São Paulo demonstram que cerca de 33% da população sofre de AOS. Estudos recentes realizados na população europeia demonstram que 61% das mulheres e 84% dos homens foram diagnosticados com algum grau de AOS e cerca de um terço deles foram considerados com apneia leve e a incidência claramente aumenta em idades mais avançadas. Além disso, esse aumento na prevalência da AOS está diretamente relacionado ao aumento da obesidade que ocorre no mundo inteiro.

A apneia obstrutiva do sono é uma doença que, em diversos casos, pode ser apenas observada ou tratada de forma conservadora.

A apneia do sono precisa ser tratada?

O documento da ATS recentemente publicado, reforça a falta de estudos para tratamento da apneia leve, sobretudo com IAH (Índice de Apneia e Hipopneia) abaixo de 15, e o impacto disso na população. Provavelmente os pacientes mais sintomáticos, como aqueles com sonolência diurna ou com pior qualidade de vida, sejam os mais beneficiados do tratamento. Outro questionamento em relação ao IAH é a falta de correlação com as dessaturações apresentadas pelos pacientes durante o sono. Por exemplo, há indivíduos com IAH elevados e que possuem maior dessaturação noturna, o que pode impactar diretamente sua saúde e qualidade de vida. Já é bem estabelecido que a AOS leva à aumento na mortalidade por causas cardiovasculares, acidentes automobilísticos, aumento no absenteísmo e piora da qualidade de vida. Algumas neoplasias têm sido relatadas associadas à presença de apneia do sono (principalmente o câncer de pâncreas e o melanoma). Além disso, pacientes que já possuem doença cardiovascular ou cerebrovascular estabelecida não se beneficiaram do uso de CPAP como forma de prevenção secundária. Em relação à hipertensão arterial, o tratamento da AOS leve parece ter mais benefício na redução da pressão arterial (PA) nos indivíduos que conseguem reduzir a PA naturalmente durante o sono.

Em suma, o tratamento da AOS leve parece ter mais benefício em indivíduos sintomáticos que apresentam sonolência diurna e roncos, sem muita evidência ainda disponível. Em pacientes com doença moderada a grave, os sintomáticos também parecem ser os que apresentam maior resposta ao tratamento com CPAP. No Brasil, a obtenção de CPAP pelo sistema único de saúde ainda é um desafio, com pouco acesso na maior parte do país. Identificar o indivíduo que melhor responde ao tratamento é um desafio, porém pode ser uma estratégia útil em um cenário de poucos recursos.

Mensagens práticas:

  • A prevalência de AOS está aumentando em todo o mundo, sobretudo pela correlação com a obesidade e o envelhecimento da população;
  • Pacientes com IAH mais baixo, principalmente abaixo de 15, devem ser tratados conforme o grau de sintomas que apresentam;
  • Outros tratamentos adjuvantes para a apneia do sono incluem a perda de peso e medidas de higiene do sono

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Chowdhuri S, Quan SF, Almeida F, Ayappa I, Batool-Anwar S, Budhiraja R, Cruse PE, Drager LF, Griss B, Marshall N, Patel SR, Patil S, Knight SL, Rowley JA, Slyman A; ATS Ad Hoc Committee on Mild Obstructive Sleep Apnea. An Official American Thoracic Society Research Statement: Impact of Mild Obstructive Sleep Apnea in Adults. Am J Respir Crit Care Med. 2016 May 1;193(9):e37-54. doi: 10.1164/rccm.201602-0361ST.
  • Lévy P, Kohler M, McNicholas WT, Barbé F, McEvoy RD, Somers VK, Lavie L, Pépin JL. Obstructive sleep apnea syndrome. Nat Rev Dis Primers. 2015 Jun 25;1:15015. doi: 10.1038/nrdp.2015.
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