Quinolonas para infecção latente por tuberculose (ILTB-DR)

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A tuberculose (TB) é a primeira causa de morte por doença infecciosa em adultos e a principal causa de morte em pessoas infectadas pelo vírus HIV mundialmente. O crescimento na prevalência de casos com resistência ao tratamento padrão é uma das grandes preocupações das autoridades médicas, uma vez que essas infecções estão associadas a piores desfechos.

Entre contatos domiciliares de pessoas infectadas com tuberculose resistente (TB-DR), cerca de 47,2% também estão infectados com Mycobacterium tuberculosis. Sabe-se que, dentre os indivíduos infectados por M. tuberculosis, 10-20% desenvolvem a doença. Em crianças com < 5 anos de idade que são contatos domiciliares de casos de TB-MDR, essa porcentagem fica entre 6 a 24%.

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Quinolonas na infecção latente por tuberculose (ILTB)

Além de diagnóstico e tratamento precoces dos casos de TB ativa, o rastreio e quimioprofilaxia de pessoas com infecção latente por TB (ILTB) é uma das principais estratégias para controle e eliminação da doença. O uso de quinolonas, inclusive em crianças, tem tido respaldo por dados observacionais, embora não haja ensaios clínicos comparando a eficácia entre diferentes esquemas. Um estudo prospectivo recentemente publicado procurou avaliar a segurança e a viabilidade de tratamento baseado em quinolonas para infecção latente por tuberculose (ILTB).

Métodos

O estudo foi implementado como uma extensão de um programa de tratamento TB-DR em um hospital de Karachi, no Paquistão. Foram incluídos contatos domiciliares de pacientes com TB-DR, os quais foram rastreados verbalmente em suas casas por um profissional de saúde local. Indivíduos entre 0 e 17 anos, adultos identificados como sintomáticos, com DM, HIV ou desnutrição (IMC < 18,5kg/m²) foram convidados a comparecerem à unidade de saúde para exclusão de TB ativa e realização de Rx de tórax, PPD (em crianças entre 5 e 17 anos) e Xpert MTB/RIF nos que produziam escarro.

Os critérios de inclusão foram: idade < 5 anos, PPD reator, diabetes, HIV ou desnutrição nos com idade entre 5 – 17 anos, ou diabetes, HIV ou desnutrição nos com ≥ 18 anos. Aos contatos domiciliares em que TB ativa foi excluída e que apresentavam pelo menos um dos critérios de inclusão foi oferecida a participação no estudo, com administração de um dos seguintes regimes de tratamento, com duração de 6 meses: levofloxacino + etambutol, levofloxacino + etionamida, moxifloxacino + etambutol ou moxifloxacino + etionamida. O esquema de levofloxacino + etambutol era o regime de escolha, com prescrição de moxifloxacino quando o caso índice tinha isolado de M. tuberculosis resistente a levofloxacino, e de etionamida quando não havia etambutol disponível na posologia recomendada.

Os participantes foram acompanhados com visitas ao centro de tratamento a cada 2 meses e com visitas domiciliares por um profissional de saúde para a avaliação de adesão e eventos adversos. Após o término do tratamento, os participantes continuaram sendo acompanhados por visitas domiciliares ou por telefone a cada 2 meses por mais 6 meses, completando 1 ano de seguimento. Os contatos incluídos e que não receberam quinolonas também foram acompanhados a cada 2 meses por 1 ano para identificação do desenvolvimento de tuberculose ativa.

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Resultados

O estudo incluiu 100 casos índices, com identificação de 800 contatos. Destes, 215 eram elegíveis segundo os critérios de inclusão do estudo, a maioria por desnutrição (61,9%). Dos 215 participantes elegíveis, 172 (80%) iniciaram o tratamento: 102 (59,3%) receberam levofloxacino + etambutol, 54 (31,4%) receberam levofloxacino + etionamida, 11 (6,4%) receberam moxifloxacino + etambutol e 5 (2,9%), moxifloxacino + etionamida. A proporção de participantes que completaram o tratamento foi de 70,3% (67,4 – 75,4% entre as faixas etárias de < 5 anos, 5 – 17 anos e > 17 anos). A probabilidade de completar o tratamento foi de 56,3%. As perdas de seguimento foram baixas: 99% dos participantes completaram 6 meses e 92% completaram 1 ano de seguimento. Nenhum caso de TB ativa nos contatos domiciliares foi identificado.

Em relação aos eventos adversos, 36 participantes (20,9%) reportaram pelo menos 1 e 19 (11,1%) reportaram mais de 1 evento adverso. A proporção de indivíduos que reportaram eventos adversos foi maior nos que usaram etionamida do que nos usaram etambutol. Entretanto, a proporção de participantes que interrompeu o tratamento por esse motivo foi semelhante entre esses dois grupos.

Mensagens práticas sobre infecção latente por tuberculose

O tratamento de ILTB em contatos domiciliares de indivíduos com TB-DR com regimes baseados em quinolonas foi seguro e considerado viável, inclusive em crianças, pelos resultados desse estudo.

Uma limitação importante do estudo é a restrição do uso de PPD para indivíduos entre 5 e 17 anos, com rastreio em adultos baseado somente em sintomas, o que pode alterar a quantidade de contatos com TB ativa e com ILTB detectados.

Etambutol foi mais bem tolerado do que etionamida. Contudo, não houve diferença na proporção de indivíduos que interrompeu o tratamento por eventos adversos entre os que usaram etambutol e os que usaram etionamida.

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Referências bibliográficas:

  • Malik AA, et al. Tuberculosis Preventive Therapy for Individuals Exposed to Drug-resistant Tuberculosis: Feasibility and Safety of a Community-based Delivery of Fluoroquinilone-containing Preventive Regimen. Clinical Infectious Diseases. 2020;70(9):1958–65. doi: 10.1093/cid/ciz502
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