Reumatologia

Reativação de hepatite B em pacientes usando corticoide

Tempo de leitura: 3 min.

O uso de corticoide é fundamental no tratamento de diversas doenças reumatológicas autoimunes. Apesar disso, seu uso carrega um risco aumentado de reativação de hepatite B em pacientes com infecção prévia, o que é uma situação potencialmente grave.

Devido à falta de dados coletados de maneira sistemática, é difícil estimar com precisão a chance de reativação da hepatite B resolvida (HbsAg negativo e anti-Hbc positivo) em paciente que fazem uso de corticoide, havendo discordância entre diferentes recomendações. Além disso, a maioria dos estudos e guidelines sobre o assunto focam no uso de medicações biológicas, como rituximabe, anti-TNF e abatacepte.

Zhong et al. desenvolveram um estudo para ajudar a endereçar essa lacuna do conhecimento.

Reativação de hepatite B

Foram incluídos de maneira prospectiva pacientes (≥18 anos) com uveítes de diferentes etiologias e hepatite B resolvida (HbsAg negativo e anti-Hbc positivo), com e sem uso de corticosteroides. Foi calculada a dose cumulativa de corticoide, bem como sua dose diária média, e analisado o desfecho primário composto por reativação da hepatite B, flare da hepatite ou hepatite grave. Como tratamento de base, o uso de ciclosporina (2-5 mg/kg/dia) poderia ser feito como agente poupador de corticoide; terapias tópicas também eram permitidas.

Os critérios de exclusão foram: infecção concomitante ou prévia por hepatite C ou D, em uso de terapia antiviral, TGP acima do valor de referência, níveis elevados de HBV-DNA (≥1×107 UI/mL), evidência de cirrose hepática, doença hepática crônica concomitante e doenças graves/limitantes do tempo de vida.

Assista também: Hepatite B – As abordagens utilizando os guidelines europeu, americano e PCDT

Os pacientes foram avaliados nas semanas 0, 2, 4 e 8, seguido de uma avaliação a cada dois meses. Em todas as visitas, eram coletados TGO, TGP, bilirrubinas e PCR para HBV-DNA. A cada seis meses, também eram avaliadas as sorologias para HBV (HbsAg, anti-Hbc, anti-Hbs, HbeAg e anti-Hbe).

Caso a doença ocular estivesse em bom controle, o corticoide deveria ser desmamado.

Resultados

Foram avaliados 2996 pacientes entre julho de 2019 e março de 2021. Desses, foram incluídos 1.303 HbsAg negativo e anti-Hbc positivo. A idade mediana foi de 47,5 (38-56) anos.

Prednisona oral foi prescrita para 77,8% dos pacientes, com uma mediana de 20 (15-20) mg/dia; ciclosporina foi prescrita para 56,3% dos casos, com uma dose mediana de 100 (100-125) mg/dia. A dose cumulativa mediana de prednisona na coorte foi de 3000 (300-6750) mg, com uma dose média diária ponderada pelo tempo de 15 (10-20) mg/dia. A mediana de seguimento foi de 10 (4-16) meses.

Dos pacientes inicialmente incluídos, 70 necessitaram do uso de outros medicamentos sistêmicos que não a prednisona e a ciclosporina. Os pesquisadores censuraram os dados no momento da troca.

Durante o período de estudo, 51 pacientes apresentaram o desfecho primário. A média de HBV-DNA detectada foi de 1,81×103 UI/mL. Não forma descritos casos de hepatite grave.

Veja mais: Profilaxia de hepatite B em terapias imunossupressoras

Na análise da dose acumulada de corticoide, os autores detectaram que o maior risco ocorreu em pacientes no segundo quartil de dose de prednisona (RR 6,03; IC95%, 2,60-14,01), enquanto que o menor risco ocorreu no quarto quartil (RR 0,06, IC95%, 0,01-0,49). Desse modo, a curva assumiu um aspecto em V invertido, com um pico de chance de ocorrência do desfecho primário com a dose cumulativa de 1506 mg (RR 3,72, IC95% 1,96-7,08).

Já na análise da dose média ponderada pelo tempo, pacientes com maiores doses médias apresentaram uma maior incidência de reativação de HBV ou flare de hepatite, de uma maneira dose dependente (aumento progressivo do risco entre os quartis – Q1: RR 2,15; IC95% 1,56-2,98 e Q4: RR 49,48; IC95% 6,24-392,48). A incidência do desfecho primário foi de 16,67 por 100 pacientes-ano no Q4 (prednisona ≥20 mg/dia). A incidência nos demais quartis foi menor que 10 por 100 pacientes-ano.

Mais do autor: Avaliação do dano acumulado em pacientes com SAF primária: a importância dos fatores de risco cardiovasculares

Comentários

Os autores concluíram que a dose média diária parece ser mais relevante que o pico de dose para reativação do HBV. A dose acumulada não se correlacionou com o risco de reativação.

Desse modo, doses maiores que 20 mg/dia classificam os pacientes com HBV resolvida como de alto risco para reativação da hepatite B ou flare de hepatite. O uso de profilaxia para reativação nesse contexto pode ser desejável.

Referência bibliográfica:

  • Zhong Z, Liao W, Dai L, et al. Average corticosteroid dose and risk for HBV reactivation and hepatitis flare in patients with resolved hepatitis B infection. Ann Rheum Dis 2021;0:1–8. doi: 10.1136/annrheumdis-2021-221650.
Compartilhar
Publicado por
Gustavo Balbi

Posts recentes

PEBMED e Saúde Global: gestão de resultados em clínicas e consultórios

No episódio de hoje, saiba mais sobre as vantagens de implantar um modelo de gestão…

14 minutos atrás

Drogas vasoativas: 10 dicas para uso no paciente grave com hipotensão

Hipotensão é uma das condições mais comuns no paciente grave, além de estar associada a…

1 hora atrás

Interrupção do uso de antidepressivo: como diferenciar recaída ou recorrência de síndrome de retirada?

É essencial diferenciar a síndrome de retirada da recaída ou recorrência já que a sintomatologia…

2 horas atrás

Tratamento de vaginose bacteriana: qual a eficácia do gel de fosfato de clindamicina 2%?

Um estudo teve o objetivo de avaliar a eficácia do gel de clindamicina vaginal comparado…

3 horas atrás

“Covid Zero”: políticas mais rigorosas de controle da pandemia pioram a saúde mental da população?

Estudo comparou o grau de restrição das políticas de enfrentamento à covid com escores de…

4 horas atrás

Suplementação de cálcio e estenose aórtica

Estudo mostrou que a suplementação de cálcio está ligada à queda da qualidade da função…

6 horas atrás