Recomendações para uso de probióticos em patologias gastrointestinais

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Probióticos são definidos pela Organização Mundial da Saúde como microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades apropriadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro. Sabe-se que a microbiota intestinal exerce um papel importante no equilíbrio da saúde humana. Na última década, inúmeros estudos avaliaram o papel da suplementação de probióticos no combate às mais diversas enfermidades. No entanto, é fundamental que os benefícios descritos sejam sempre individualizados pelas cepas, combinação de bactérias, veículos, via de administração e concentrações empregadas, não podendo de forma alguma serem generalizados.

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Diretrizes

Recentemente, a Associação Americana de Gastroenterologia publicou um novo guideline com as principais evidências acerca do papel dos probióticos no manejo de patologias gastrointestinais. Foram avaliados os estudos com probióticos na infecção por Clostridioides difficile, doença inflamatória intestinal, síndrome do intestinal irritável, gastroenterite infecciosa e enterocolite necrotizante.

Infecção por Clostridioides difficile:

  1. Infecção por difficile: recomendado uso de probióticos somente no contexto de ensaio clínico. Conclui que o transplante de microbiota fecal é altamente eficaz no tratamento da infecção recorrente por C. difficile, mas que ainda não poucas as evidências acerca dos benefícios do uso de probiótico.
  2. Prevenção da infecção por difficile em pacientes em uso de antibióticos adultos ou crianças: recomenda o uso de um dos esquemas – Saccharomyces boulardii (RR 0,41; IC95% 0,22-0,79); ou combinação de Lactobacillus acidophilus CL1285 e L. casei LBC80R (RR 0,22; IC95% 0,11-0,42); ou combinação de L. acidophilus, L. delbrueckii subesp. bulgaricus e Bifidobacterium bifidum (RR 0,35; IC95% 0,15-0,85); ou combinação de L. acidophilus, L. delbrueckii subesp. bulgaricus, B. bifidum e Streptococcus salivarius subesp. thermophilus (RR 0,28; IC 95% 0,11-0,67).

Doença inflamatória intestinal:

  1. Doença de Crohn e retocolite ulcerativa: recomendado uso de probióticos somente no contexto de ensaio clínico. Conclui que qualidade da evidência é baixa devido a amostragem pequena, grande heterogeneidade de cepas utilizadas, variação de desenho entre os estudos e diferenças nas populações analisadas.
  2. Em adultos e crianças com bolsite sugere o uso da combinação: paracasei subesp. paracasei DSM 24733, L. plantarum DSM 24730, L. acidophilus DSM 24735, L. delbrueckii subesp. bulgaricus DSM 24734, B. longum subesp. longum DSM 24736, B. breve DSM 24732, B. longum subesp. infantis DSM 24737 e S. salivarius subesp. thermophilus DSM 24731.

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Síndrome do intestino irritável:

  1. Crianças e adultos sintomáticos com síndrome do intestino irritável: recomendado uso de probióticos somente no contexto de ensaio clínico. Conclui que existe grande heterogeneidade no desenho, desfechos e probióticos utilizados nos estudos disponíveis.

Gastroenterite infecciosa:

  1. Gastroenterite infecciosa aguda em crianças: sugere não utilizar probióticos em crianças com gastroenterite infecciosa residentes no Canadá e Estados Unidos da América. A conclusão se baseia em dois estudos realizados nesses países, os quais não demonstram benefício. No entanto, pondera que estudos realizados em outros locais observaram redução no tempo de sintomas em 21,91 horas (IC95% 16,17-27,64 horas), porém com grau de evidência baixo. Os probióticos mais utilizados foram o boulardii e o L. rhamnosus ATCC 53103.

Enterocolite necrotizante

  1. Prevenção de enterocolite necrotizante em recém-nascidos pré-termo (< 37 semanas) ou com baixo-peso (< 2.500g): recomenda a utilização de um dos seguintes esquemas: Lactobacillus spp e Bifidobacterium spp ( rhamnosus ATCC 53103 e B. longum subesp. infantis; L. casei e B. breve; L. rhamnosus, L. acidophilus, L. casei, B. longum subesp. infantis, B. bifidum e B. longum subesp. longum; L. acidophilus e B. longum subesp infantis; L. acidophilus e B. bifidum; L. rhamnosus ATCC 53103 e B. longum Reuter ATCC BAA-999; L. acidophilus, B. bifidum, B. animalis subesp lactis e B. longum subesp longum) ou B. animalis subesp lactis (incluindo DSM 15954) ou L. reuteri (DSM 17938 ou ATCC 55730) ou L. rhamnosus (ATCC 53103 ou ATC A07FA ou LCR 35).

Conclusão

Uma das principais novidades da diretriz é a recomendação de uso de probióticos na prevenção de enterocolite necrotizante de recém-nascidos pré-termo e de baixo peso ao nascer. A heterogeneidade dos estudos, com diferentes metodologias, cepas, doses, veículos e populações, dificultou a análise e interpretação dos dados, não sendo possível excluir que outros benefícios tenham sido subestimados pelo rigor metodológico da nova diretriz. Dessa forma, novas pesquisas são necessárias para esclarecimento dos reais benefícios dos probióticos na saúde humana, permitindo, assim, tomarmos conclusões mais embasadas sobre o assunto. Deve-se lembrar sempre da necessidade de se invidualizar a cepa ou combinação de cepas para o tratamento correto do paciente.

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Referências bibliográficas:

  • Su GL, et al. AGA Clinical Practice Guidelines on the role of probiotics in the management of gastrointestinal disorders. 2020 (Ahead of print).
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