Residência Médica em Cirurgia Geral no HNMD: prós e contras

Tempo de leitura: 8 minutos.

Após dois anos de intenso estudo, dedicação e muitas renúncias, consegui conquistar a honra de poder escolher entre sete instituições onde faria minha tão sonhada Residência Médica em Cirurgia Geral. O que era privilégio, por muitos momentos tornou-se um grande pesadelo, uma vez que essa escolha definiria meu futuro, cada lugar um destino completamente diferente do outro. Estou certa de que muitos aqui estão vivenciando, nesse momento, o mesmo dilema.

Existem inúmeras opções de residência em cirurgia geral em nosso país. Hospitais universitários, federais, municipais. E os hospitais militares. Eu prestei concursos em toda região sudeste e, após muita pesquisa dentre todos os que obtive aprovação, escolhi o Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD) para ser minha casa. E não apenas pelos dois anos da residência, mas por toda vida.

Passar para o HNMD foi uma surpresa, escolher esse hospital foi uma reviravolta completa nos meus planos de voltar para Minas Gerais. Mas a cada dia me apaixono mais pelo serviço. Saber que permanecerei como staff da minha clínica ao término da residência é motivo de grande felicidade, uma chance de retribuir esses anos de investimento na minha formação. Explicarei essa particularidade mais a frente, aguarde.

O serviço de cirurgia geral do HNMD é bastante reconhecido no Rio de Janeiro, configurando-se, atualmente, como uma das residências mais concorridas do estado. São cinco selecionados a cada ano e a lista de reclassificação não passou da vigésima colocação nos últimos dois anos. Vamos entender enfim como essa residência funciona:

Organização da Residência Médica no HNMD

Logo que é publicada a lista de classificados, o chefe da clínica estimula os residentes do serviço a procurarem os aprovados para falar sobre o programa de residência de Cirurgia Geral. Inicialmente, estabelecemos o contato pelas mídias sociais e os convidamos para conhecer o HNMD, nossa rotina e vivenciar de perto os prós e contras. Nada melhor que a vivência para uma escolha mais acertada, não é mesmo? Esse acolhimento é essencial para que o recém-formado, assustado com os boatos de que a residência de cirurgia geral é marcada por uma cobrança desmedida, saiba que existem hospitais em que o aprendizado é sinônimo de equilíbrio da prática e da teoria construído em ambientes tranquilos.

Leia mais: Residência médica: como decidir pelo melhor lugar?

Na primeira semana, haverá aulas administradas pela escola de saúde, ambientando os novos alunos no novo ambiente, como aprender a mexer no prontuário informatizado.

Nas últimas três semanas do primeiro mês, os residentes acompanharão o serviço, o que chamamos de ‘sombra’. Eles não ficam sozinhos em nenhum setor, sempre acompanhados pelo R2 (residente do segundo ano) responsável por cada R1 (residente do primeiro ano) ou pelo staff. E os plantões? Ficam de sombra também nesse primeiro mês. Depois desse tempinho… mãos à obra!

Os residentes rodam entre quatro atividades principais ao longo da semana:

Visita

Temos muitos leitos, o que é bom para o aprendizado de clínica cirúrgica. Pacientes pós-operatórios com ótima evolução clínica que recebem alta no dia seguinte, pacientes com evolução lenta e complicada internados nas unidades fechadas, em um total de cerca de 20 a 30 pacientes, nas quais a rotatividade é muito grande, já que operamos muito (esse assunto, muito ansiado pelos futuros cirurgiões será abordado mais a frente). Há um round no começo de cada dia de trabalho, às 6h45, no qual o chefe quer saber informações de cada paciente.

Todos devem estar presentes, mesmo os que não estão escalados para a visita, pois aqui são pré-definidas as condutas e dúvidas importantes quanto a evolução esclarecidas pelos staffs mais experientes. Depois desse round, os pacientes devem ser vistos, examinados, evoluídos e prescritos até o momento do re-round realizado com o staff responsável, onde se discute novamente os casos. O período da tarde é reservado para responder os pareceres, resolver as pendências e realizar procedimentos. Palavrinha mágica agora, não é mesmo? Sim. Traqueostomias aos montes, desbridamento de úlceras, punção de acesso profundo, dissecção de veias, drenagem de abscessos.

Ambulatório

Uma das minhas atividades favoritas! Há o ambulatório da cirurgia geral, que compreende o ambulatório de vesícula, hérnias e pequenas cirurgias. Aqui o residente examina, diagnostica, avalia se deve ou não pedir exames complementares, indica ou não a cirurgia, prepara o paciente. Isso, durante o período da manhã, numa média de 30 – 40 pacientes. À tarde, temos os pós-operatórios, útil não apenas para tirar os pontos das feridas, mas para avaliar se houve complicações, orientar o paciente que muitas vezes não sabe como se comportar a partir dessa consulta, além de checar o resultado do estudo histopatológico, que muitas vezes nos surpreende! O procedimento que se realiza muito no ambulatório é cantoplastia ou exérese da unha. Há também o ambulatório das subespecialidades: cirurgia pediátrica, cabeça e pescoço, cirurgia oncológica e bariátrica.

Centro cirúrgico

Nós temos uma grande quantidade de cirurgias, o que é excelente para uma residência de cirurgia geral. Às segundas, temos o centro cirúrgico ambulatorial, destinado para realização de hernioplastias inguinais e umbilicais, realizadas com anestésico local e sedação. No centro cirúrgico grande, tireoidectomias, hérnias e vesículas compreendem a maior parte do nosso volume. O destaque do serviço está nas videolaparoscopias. Aqui, a esmagadora maioria das cirurgias são realizadas por vídeo desde o R1, de forma que o residente sai com uma noção excelente, muito à frente dos outros hospitais que não oferecem isso a seus alunos.

Plantão

São cerca de quatro plantões por mês, de 24 horas. São dois residentes, em geral um R2 e um R1, acompanhado por dois staffs, um formado há mais tempo que o outro. Aqui, apendicectomia são realizadas todos os dias. É nessas 24 horas que está a chance de se realizar uma laparotomia exploradora. Colectomias, enterectomias, colostomias, lise de bridas, herniorrafias, ulcerorrafias, esplenectomias. Além das muitas suturas, paracenteses, toracocenteses, retiradas de fecalomas, drenagem de abscessos, drenos de tórax e as algumas traqueostomias de urgência. Um dos pontos mais legais do plantão, além da possibilidade de realizar grandes cirurgias obviamente, é a oportunidade de aprender com cirurgiões de subespecialidades diferentes, a saber: cirurgiões vasculares, plásticos, oncológicos, pediátricos, toráccicos e proctologistas.

Atividades de cada ano

O que faz o R1?

Na visita? É ele que avalia a maioria dos pacientes, exceto os de unidade fechada. A ele cabe, o desbridamento de úlceras, acessos profundos, drenagem de abscessos e as traqueostomias auxiliando seu r2.

No ambulatório? Responsável pelo ambulatório de cirurgia geral. E as cantoplastias.

No centro cirúrgico? As cirurgias são divididas por competência de cada ano, assim como em todo serviço. Residentes do primeiro ano deveriam chegar ao R2 tendo operado herniorrafia umbilical, hernioplastia inguinal, apendicectomia videolaparoscópicas, ressecção de lipomas, pequenas cirurgias. É claro que cabe ao staff de cada sala do centro cirúrgico julgar o conhecimento teórico e prático de cada um e ele decidirá se o residente tem capacidade ou não de realizar determinada cirurgia.

No plantão? Quando há um r1 e um r2 de plantão, as cirurgias são divididas entre eles em comum acordo e com ciência dos staffs que também avaliam a capacidade de cada um para determinado procedimento. Se por acaso, o escalante não colocou outro residente de plantão com você, é seu dia de sorte, e toda cirurgia que chegar pode ser sua, se você tiver habilidade e estudo para isso.

O que faz o R2?

Na visita? O R2 roda nas subespecialidades ao longo do ano, a saber: cabeça e pescoço, pediátrica e oncológica; de forma que ele deve avaliar os pacientes internados por elas em cada rodízio. É ele também que avalia os pacientes de unidade fechada. Quanto aos procedimentos, o R2 realiza os mais complexos como dissecção de veias e as traqueostomias auxiliado pelo R1.

No ambulatório? Responsável pelos ambulatórios de subespecialidades.

No centro cirúrgico? Residentes do segundo ano deveriam terminar a residência tendo operado hernioplastias incisionais, hernioplastias inguinoescrotais, colecistectomias videolaparoscópicas, e, com sorte, alguns tempos das grandes cirurgias oncológicas como as gastrectomias. Ao longo do ano, o R2 fica mais dias aqui, até ser escalado para o centro cirúrgico a semana inteira, exceto no dia do ambulatório de sua especialidade de acordo com o rodízio.

Quais são os prós?

Muitas cirurgias: não faltam cirurgias! São cerca de três vesículas e três hérnias todos os dias. R1 e R2 irão operar. Acabou suas obrigações, corra para o centro cirúrgico que sempre tem espaço para mais um. Aqui cada cirurgia tem um residente responsável, atribuído pelo próprio chefe. É sua obrigação ter visto o paciente antes da cirurgia para poder discutir o caso com o staff, adequadamente. É o paciente que você vai operar, logo abrace o caso do início ao final, você será cobrado quanto a isso, caso contrário, corre sério risco de não te deixarem operar.

Supervisão e autonomia: o residente tem bastante autonomia para manejo dos pacientes, mas isso de forma alguma significa estar sem supervisão. Muito pelo contrário, o R1 e o R2 nunca estão sozinhos. Seja na rotina, seja no plantão, no ambulatório, centro cirúrgico ou vista, sempre há um staff responsável, ao seu lado, supervisionando suas condutas, esclarecendo suas dúvidas, ensinando a realizar os procedimentos, dispostos a te salvar, a qualquer momento. Diferentes dos serviços onde o R2 ensina o R1, aqui você vai aprender com quem é mais experiente sempre, desde às condutas no ambulatório até às cirurgias.

Grande variedade de pacientes: como é o hospital de referência da marinha do brasil, o HNMD recebe um número grande de pacientes. Entre militares e seus dependentes, não faltam casos para encher os leitos do hospital.
Bom equilíbrio de atividades teóricas e práticas: o chefe da clínica e o chefe dos residentes prezam pelo academicismo. Semanalmente, temos as sessões clínicas apresentadas pelos residentes.

São apresentados casos mais complicados da rotina, com discussão embasada em algum artigo científico enviado com uma semana de antecedência para a leitura de todos, inclusive dos staffs que também estão presentes. Os residentes são estimulados a produzirem trabalhos para envio a congressos, tanto que só receberão licença para comparecerem a esses eventos se enviarem algum caso.

Não falta material: sabe o sucateamento do SUS? Não convivemos com essa realidade. Tomografia, ressonância, colangioressonância, colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, videolaparoscopia, robô, colonoscopia, endoscopia, temos. Claro, que eventualmente há necessidade de reparos, mas o sofrimento de ter o mapa do centro cirúrgico suspenso por falta de anestésicos ou de material para autoclavar as pinças cirúrgicas não faz parte do nosso dia a dia.

Oportunidade de rodar nas subespecialidades: dois meses do ano do R2 são dedicados ao rodízio em outra especialidade, você pode escolher entre as oferecidas pelo HNMD (vascular, proctologia, plástica, urologia, torácica) ou em outros hospitais e até fora do país, desde que esse estágio seja formalizado com documentação enviada à escola de saúde.

Maior facilidade de se tornar militar: o residente do HNMD tem a oportunidade de se tornar oficial de Marinha, realizando ao final do primeiro ou segundo ano, apenas a redação, a prova de títulos e o teste físico, pulando a etapa da prova de conhecimentos gerais. Eu percorri um caminho mais difícil, porque eu prestei as provas de residência e de médico do corpo de saúde, me tornando primeiro militar e depois residente do hospital. Ao final da minha residência, me torno staff da clínica de cirurgia geral por 28 anos, até me aposentar. Este não é um artigo para falar das vantagens de ser militar médico, mas se você sonha ou apenas considera ser militar, ser residente do HNMD facilita muito esse caminho.

Quais são os contras?

Poucas cirurgias abertas: como a grande maioria das cirurgias são videolaproscópicas, você não terá oportunidade de realizar a mesma quantidade de laparotomias que seu amigo que faz residência em um hospital municipal, por exemplo. Na minha humilde e ainda inexperiente opinião, a curva para vídeo é muito maior que a de cirurgias abertas, de forma que eu valorizo muito mais o aprendizado oferecido pelo HNMD. Mas como suprir essa falta? Muitos staffs dão plantões fora, nos hospitais municipais e particulares do estado, você poderá acompanhá-los caso eles assim permitam, tenho certeza que será muito bem-vindo ou bem-vinda.

Pouco trauma: são poucos os traumas nos plantões. Em geral, os hospitais municipais recebem o maior volume, e, acompanhar esses serviços em esquema de plantões pode também suprir essa falta.

Dependência do staff: como o staff está sempre perto de você, cria-se uma grande dependência, de forma que após os dois anos, o residente, agora cirurgião, pode se sentir inseguro. O chefe dos residentes vê esse problema como um grande desafio e está buscando formas para que se construa maior autonomia ao longo desses dois anos.

Isolamento da realidade do SUS: trabalhar numa realidade mais confortável, pode te deixar meio alheio do cotidiano do SUS. A falta de material, as longas filas, as macas no corredor, os ambulatórios quentes, as enfermarias sem leitos. Mas para que passar tanta dificuldade? Crescer em meio a tantos problemas, nos faz seres humanos melhores, nos tira do comodismo que a facilidade de acesso gera. Aprender a fazer uma boa medicina nesses ambientes, é fazer residência na escola da vida.

Minha opinião

Como a Lívia mesmo disse no artigo sobre residência no HUPE, não existe residência perfeita, prós e contras há em todas. A minha experiência no hnmd teve muito mais pontos positivos do que negativos, e estarei pronta para aumentar ainda mais esses pontos positivos nos 29 anos que me aguarda.

Ainda tem alguma dúvida sobre o serviço? Quer saber alguma coisa que eu não abordei? Me escreva para que possamos conversar melhor: caroline_mafra@yahoo.com.br.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor: