Resistência, resiliência e ressignificação frente à pandemia de Covid-19

Tempo de leitura: 5 minutos.

Em meio a várias reflexões sobre o impacto de uma pandemia (totalmente inédita em minha geração) e os resultados emocionais secundários a ela na população geral, me foi recomendada uma leitura bastante interessante, que veio a complementar e ampliar o leque de possibilidades e reações manifestadas no atual momento.

O texto de Jennifer Cleland, nomeado “Resilience or resistance: A personal response to COVID-19”, aborda a escrita autobiográfica com um dos recursos para expor e validar vivências incompreensíveis a nível consciente, ampliando o contato do autor e do leitor com conteúdos significativos, porém não racionalizados durante a vivência em si.

A partir desta proposta, seria possível entrar em contato com nossos próprios mecanismos de defesa, e olhar de frente pensamentos, comportamentos e decisões durante essa fase tão caótica, de modo mais refletido e coerente, ressignificando e redirecionando nossas ações.

Pandemia de Covid-19

Todo esse processo vem de encontro à realidade vivida por cada um de nós desde o início da pandemia de Covid-19, que tirou da zona de conforto a sociedade dos cinco continentes do planeta. Apesar de todos os mecanismos de defesa disponíveis em nossa psiqué, neste momento é totalmente impossível não se sentir atingido ou influenciado por uma situação que coloca em cheque nossa saúde física, mental, economia mundial e sobrevivência.

Abordando de modo mais simples e minucioso as reações psíquicas neste cenário, inicialmente poderíamos citar a negação, mecanismo de defesa básico e primitivo presente em qualquer circunstância que ameace a homeostase mental do ser humano. A própria autora do texto supracitado, menciona seu comportamento inicialmente evitativo, de não buscar e nem se apropriar de informações a respeito da situação mundial. Tal comportamento inconsciente advém de nossa necessidade de manter o distanciamento emocional de uma situação ameaçadora. Sabemos que ela existe, mas nos mantemos distantes afetivamente para que não se torne de fato “real” e presente em nossas vidas.

Infelizmente, a negação, assim como a esquiva não conseguem perdurar por longos períodos, ainda mais quando somos alvejados insistentemente com informações sobre o fato que se tenta ignorar. Tanto a imposição social do assunto como as consequências ocasionadas por ele, confrontam em tempo real os indivíduos, exigindo condutas mais racionais e adaptativas. No caso dos profissionais da saúde, de modo ainda mais pessoal, a negação deixa de se sustentar, a partir do momento que algum evento pessoalmente significativo confronta a realidade. Um bom exemplo, é a chegada dos primeiros pacientes, a morte decorrente da doença, a internação de colegas de trabalho contaminados com o vírus… enfim, não há como se sustentar na negação quando os efeitos da realidade estão por toda parte.

Leia também: Humanização do caos: intervenções da psicologia hospitalar frente ao coronavírus

O caminho psíquico mais comum quando a negação não nos é mais possível, é a revolta. Entramos em contato com a realidade imposta, porém de modo a nos enraivecer frente às perdas secundárias a ela. Perdemos a liberdade, a autonomia, a segurança fictícia que fantasiamos durante toda a vida. Perdemos o equilíbrio financeiro independentemente de nossa condição social, perdemos nossa “certeza” ilusória de controlar nossas próprias vidas, perdemos inclusive a zona de conforto de nossas funções profissionais, atualmente adaptadas à pandemia.

“Ganhamos” mais tempo com nossas famílias, sem ter saúde mental suficiente para disfrutar, e sem a possibilidade de usar nossos recursos usuais de lazer e descanso. Já outros, no momento se sentem totalmente engolidos pela profissão, e ainda mais afastados dos entes queridos, sendo fadados a viverem de tecnologia para se aproximar das pessoas que amam.

A revolta, é a nossa primeira constatação da realidade imposta, e de suas consequências iniciais em nossas vidas. É o período inicial de quebra da homeostase habitual, que nos leva a enxergar predominantemente o aspecto negativo, as perdas, incitando ainda sentimentos de culpa e medo, externalizados de modo irrefletido e pouco adaptativo.

Mais a frente, em um período mais maduro do processo de assimilação e enfrentamento da realidade, a revolta vai perdendo sua utilidade. O extravasamento de emoções negativas e raiva já não aliviam mais. A consciência dos fatos vai tornando-se mais plena, e abre-se espaço para a vivência emocional do caos. Chega-se o tempo de introspecção, manifestação da tristeza, vivência de humor mais deprimido, e isso é confundido por muitas pessoas com quadros de depressão ou desistência.

A fase depressiva na vivência da Covid-19, não só é esperada, como necessária. Entretanto é essencial compreender que cada um de nós a viverá por um motivo, e com uma visão de problema diferente. Nós profissionais da saúde, provavelmente a sentiremos junto ao nosso contexto de exaustão e impotência, quando nos dermos conta de que ainda com todos os esforços intensificados, salvar a população não está nas nossas mãos. Na própria terapia intensiva, já é possível assistir a este impacto diariamente. No ambiente que mais salvava vidas, com uma taxa geral de mortalidade inferior a 20%, agora convivemos com uma taxa totalmente invertida, onde trabalharemos incansavelmente utilizando recursos tecnológicos e humanos, para quem sabe, salvar 20% dos pacientes críticos que dependem de nossos cuidados.

Ouça também: Saúde mental dos profissionais em tempos de coronavírus [podcast]

Diferentemente disso, os comerciantes, contratados que perderam seus empregos, prestadores de serviço, certamente estarão vivenciando a fase depressiva por motivos distintos, mais ainda assim, secundários à mesma pandemia. O ponto mais importante, é que não há um único humano que não passará por lutos desencadeados pela Covid-19. Estamos todos no mesmo barco, mas com remos diferentes.

A compreensão real de nossos sentimentos e impressões, podem e devem ser refletidas no decorrer destes dias sombrios. Devemos nos permitir pensar sobre nossas frustrações, tristezas, revoltas, e também sobre as expectativas e desejos que preservamos, afinal, em algum momento isso vai passar. Se COVID-19 tem deixado sequelas pulmonares nos doentes mais graves, a sociedade viverá por anos as sequelas econômicas e emocionais impostas por esta infecção viral pandêmica.

De nada adianta tentarmos nos manter imunes e alienados a condição social atual. É um fato tão complexo que conseguiu unir nações em uma mesma realidade. Sim, estamos enfrentando dificuldades e tristezas de uma tragédia coletiva, e dentro de alguns meses estaremos vivenciado nosso luto mundial. Os verdadeiros sobreviventes a este cenário caótico, não serão os sobreviventes da doença, e sim todos os indivíduos que conseguirem se adaptar de modo positivo e ressignificar sua vida a partir deste aprendizado.

Parafraseando o Paradoxo de Stockdale, mais do que nunca precisamos desenvolver a resiliência verdadeira. O otimismo excessivo e o pessimismo patológico são igualmente nocivos a nossa saúde mental neste momento. O excesso de otimismo tira de nós a responsabilidade de mudança e resistência, e cria expectativas irreais que, quanto frustradas, tem potencial arrebatador. O pessimismo patológico nos coloca em uma condição de entrega e desistência, tirando de nós toda a responsabilidade individual de buscar nosso próprio destino. Em contrapartida, o otimismo realista é capaz de nos manter vivos e em batalha.

Enfrentar a realidade dura e refletir sobre ela sem perder a “fé”, nos faz seres mais equilibrados emocionalmente e resilientes. A articulação adequada entre disciplina no presente, fé no futuro e olhar realista frente à crise, salvou o Almirante James Stockdale e seus soldados de 8 anos de prisão e tortura. Estes mesmos requisitos podem auxiliar nossos recursos adaptativos frente à guerra invisível que estamos vivendo, nos fazendo tolerar a tortura diária que tem se imposto em nossas vidas. Enfrentar uma pandemia não depende apenas de adaptação em nosso estilo de vida, e sim adaptação subjetiva em nosso modo mais profundo de enxergar nossa existência no mundo.

Resistência, resiliência e ressignificação…

Autora:

Referências bibliográficas:

Relacionados