Ressuscitação cardiopulmonar: apenas compressões ou compressões e ventilação? 

Estudo sueco avaliou a hipótese de que ressuscitação cardiopulmonar (RCP) apenas com compressões torácicas é não inferior à RCP padrão

A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) aumenta a sobrevida após parada cardiorrespiratória (PCR) extra-hospitalar. O atendimento inicial é feito de acordo com o suporte básico de vida (SBV), que compreende a realização de compressões torácicas e ventilações de resgate. 

Existem algumas preocupações em relação à realização de ventilações boca a boca por leigos, que acabam se tornando uma barreira ou atrasando o início da RCP. Assim, começou-se a realizar RCP apenas com compressões (hands-only) por leigos não treinados e essa passou ser a recomendação. Esse tipo de atendimento é mais fácil, tanto de ensinar quanto realizar e tem sido associado a melhores resultados da RCP e sobrevida geral. Porém, um ponto negativo pode ser a dessaturação mais rápida e hipóxia cerebral. 

Estudos observacionais sobre o assunto mostraram resultados controversos e uma metanálise de três estudos randomizados parece favorecer a ressuscitação cardiopulmonar (RCP) com compressões apenas. Porém, nenhum estudo randomizado comparou o impacto desse atendimento em sobrevida. Recentemente foram publicados resultados de um estudo piloto sobre o assunto. Abaixo seguem os principais pontos.  

Ressuscitação cardiopulmonar

Imagem de freepik

Métodos do estudo e população envolvida 

O estudo TANGO2 é estudo randomizado 1:1, aberto, multicêntrico, realizado na Suécia, com hipótese de que RCP apenas com compressões torácicas por pessoas leigas treinadas é não inferior à RCP padrão no desfecho de sobrevida em 30 dias. Foi feito então um estudo piloto que avaliou a segurança, factibilidade e desfechos intermediários. 

Na Suécia, a incidência anual de PCR extra-hospitalar é 56/100.000 e o treinamento do SBV é obrigatório nas escolas desde 2011, com o ensino de RCP padrão (30 compressões intercaladas com duas ventilações). Porém, desde 2011, quando o contato telefônico é feito com o serviço de emergência e a vítima encontra-se inconsciente e com respiração anormal, orienta-se início da RCP com compressões apenas (exceto nos casos de suspeita de asfixia ou PCR em crianças). 

A partir daí 2 ambulâncias com enfermeiros treinados em emergência e anestesiologia são encaminhados ao local para assistência de suporte avançado de vida. Em algumas áreas o atendimento é iniciado por bombeiros ou policiais treinados em SBV.  

Para a realização do estudo foram incluídos todos os atendimentos que preenchiam todos os critérios: PCR presenciada, pessoa treinada no local, vítima maior de 18 anos, causa clínica provável (ausência de trauma, afogamento, asfixia, intoxicação ou gestação). O paciente era então randomizado para o grupo intervenção (apenas compressões) ou controle (compressões intercaladas com ventilações). O atendimento era acompanhado por telefone e mantido até a chegada da ambulância.   

Os objetivos do estudo foram avaliar a factibilidade do estudo maior, segurança e desfecho clínico de sobrevida em um dia. 

Resultados 

Durante o período do estudo houve 11.838 ligações, sendo randomizadas 1.250 pacientes (640 no grupo intervenção e 610 do grupo controle). A idade média foi de 73 anos no grupo intervenção e 74 no grupo controle e a proporção de mulheres foi de 35,8% e 34% respectivamente. 

Em relação ao atendimento, a ocorrência de PCR ocorreu em casa em 72,9% e 69,5%, o tempo para chegada do serviço de emergência foi de 12 e 11,6 minutos, o início da RCP ocorreu em 90,4% e 88,7% e o número de pessoas com taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular foi de 27,9% e 29,9% nos grupos intervenção e controle respectivamente.  

Em relação a segurança, o tempo médio desde a ligação até o início da RCP foi 1,5 e 1,7 minutos, o tempo para enviar a ambulância de 1,6 e 1,5 minutos, o tempo da ligação para a primeira checagem das instruções de compressão foi de 3,4 e 3,5 minutos e o tempo médio para a randomização foi 4,5 e 4,6 minutos nos grupos intervenção e controle respectivamente. Houve algumas inclusões de pacientes com asfixia, trauma ou intoxicação (4,8%). 

O número de sobreviventes após um dia foi 29,5% no grupo intervenção e 28,9% no controle. 

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Estudo sobre ressuscitação cardiopulmonar (RCP): comentários e conclusão 

Esse estudo piloto de não inferioridade mostrou que um estudo maior é factível, com randomização possível e segura. Não houve diferença no tempo para enviar as ambulâncias, para orientar a RCP e na proporção de sobreviventes em um dia.  

Algumas limitações são que o número de ligações no período foi menor que o esperado, porém pode ter ocorrido um problema de screening e inclusão, o que pode levar a viés de seleção. Pode ser que tenha sido incluído apenas quem tinha treinamento e sabia como agir na situação.  

No geral, o início para ressuscitação cardiopulmonar (RCP) foi mais longo que o esperado e pode ser que tenha havido tempo perdido na detecção da PCR ou barreiras da própria ligação ou da língua. O início da RCP antes da ligação ocorreu apenas em 10% dos casos, que pode ter sido em decorrência de o socorrista aguardar a confirmação via telefone para começar o atendimento. Além disso, houve quase 20% de crossover entre os grupos. 

Em relação a segurança, os tempos foram aceitáveis e não foi maior em um grupo comparado ao outro. A proporção de pacientes com asfixia, intoxicação ou trauma ocorreu, mas foi baixa e já esperada, já que em algumas situações é difícil definir a causa da PCR. 

O estudo piloto mostrou que esse é um estudo factível e seguro e os pacientes seguem sendo inclusos com objetivo de avaliar se há diferença na sobrevida em 30 dias entre as duas técnicas. Algumas medidas foram tomadas para otimizar o screening e incluir mais pacientes, além de tentar reduzir o crossover.

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Referências bibliográficas: Ícone de seta para baixo
  • Riva G, Boberg E, Ringh M, Jonsson M, Claesson A, Nord A, Rubertsson S, Blomberg H, Nordberg P, Forsberg S, Rosenqvist M, Svensson L, Andréll C, Herlitz J, Hollenberg J. Compression-Only or Standard Cardiopulmonary Resuscitation for Trained Laypersons in Out-of-Hospital Cardiac Arrest: A Nationwide Randomized Trial in Sweden. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2024 Mar;17(3):e010027. DOI: 10.1161/CIRCOUTCOMES.122.010027