Pediatria

Rotinas de sono na infância melhoram os hábitos para dormir em crianças até os 2 anos? 

Tempo de leitura: 4 min.

Um estudo publicado no jornal Sleep concluiu que rotinas e atividades consistentes com o bebê na hora de dormir com início aos 3 meses de idade promovem melhores hábitos de sono até os 2 anos.

A dificuldade do bebê para dormir é uma queixa constante nos consultórios de pediatria. Sabe-se que o estabelecimento de padrões de sono adequados durante os primeiros 2 anos de vida é essencial para a saúde física e mental das crianças. Inclusive, a Academia Americana de Pediatria inclui a saúde do sono como parte de seus tópicos recomendados para cada consulta de uma criança saudável desde o nascimento.

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Criando hábitos

Para promover a saúde do sono durante a primeira infância, recomenda-se o estabelecimento de rotinas regulares para a hora de dormir, como rituais de banho ou ler um livro para a criança, por exemplo. Estudos sugerem que a presença e a consistência das rotinas da hora de dormir estão associadas à duração do sono nos primeiros 2 anos de vida. No entanto, existe pouca atenção aos potenciais efeitos longitudinais do estabelecimento dessas rotinas no início do desenvolvimento em rotinas posteriores, bem como seus efeitos nas mudanças nos resultados do sono ao longo dos primeiros 2 anos de vida. 

O estabelecimento de rotinas no início da vida é proposto para fornecer à criança uma sensação de segurança e está associado a práticas parentais positivas e investimento emocional no cuidado. É importante lembrar que existem pelo menos dois componentes-chave para que as rotinas da hora de dormir dêem certo: a consistência com a qual a rotina é realizada e as atividades que compõem a rotina

Dessa forma,  Fiese et al. realizaram o estudo Bedtimes, bedtime routines, and children’s sleep across the first 2 years of life, composto por três objetivos:

  • Determinar se o estabelecimento de rotinas de hora de dormir no primeiro ano de vida prevê melhores desfechos de sono (isto é, maior duração do sono, menos despertar noturno, dormir mais cedo, menor latência do sono e menos problemas de sono) durante os primeiros 2 anos de vida;
  • Determinar se as atividades adaptativas específicas para dormir (por exemplo, leitura de livros) estavam associadas aos resultados do sono;
  • Descrever as mudanças nas atividades adaptativas da hora de dormir (abraçar / beijar o cuidador, dizer boa noite à família) ao longo dos primeiros 2 anos de vida.

Metodologia do estudo

Os pesquisadores entrevistaram as mães de 468 crianças da coorte de nascimentos STRONG Kids 2. As entrevistas eram iniciadas quando os bebês tinham 3 meses de idade e foram repetidas aos 12, 18 e 24 meses. As mulheres foram recrutadas em centros de saúde e aulas de parto durante o terceiro trimestre de gravidez de 2013 a 2017. Critérios de exclusão foram: nascimento prematuro (< 37 semanas), condições de nascimento impedindo a amamentação e baixo peso ao nascer (< 2,5 kg). 

As mães responderam questões sobre os hábitos de sono do filho, incluindo horário de dormir e de acordar, tempo que a criança demorou para adormecer e quantas vezes acordou durante a noite. Além disso, relataram as atividades relacionadas à hora de dormir que realizavam com o filho (por exemplo: atividades de higiene [banho e escovar os dentes], vestir o pijama, ler ou ouvir histórias e dar boa noite aos familiares). Outro dado importante foi a avaliação da consistência das práticas na hora de dormir realizadas pelas famílias, como colocar a criança na cama aproximadamente na mesma hora todas as noites e com que frequência elas se envolviam em atividades relacionadas à hora de dormir.

Saiba mais: Luz e ruídos contribuem para privação de sono de crianças hospitalizadas

As mães relataram, em média, que seus filhos tiveram 9,8 horas de sono noturno aos 3 meses e 10,8-10,9 horas de sono noturno aos 12, 18 e 24 meses. Houve uma ligeira mudança na hora de dormir de aproximadamente 21h30 aos 3 meses para perto das 21h00 aos 24 meses. No entanto, o intervalo foi bastante substancial em todos os pontos no tempo, variando de perto das 18h00 até perto da meia-noite. Para a latência do sono, houve um aumento constante de 12 para 24 meses de 13 para 18 minutos, aproximadamente (a latência do sono não foi coletada aos 3 meses). Novamente, houve uma variação substancial de 0 a 75 minutos. Houve poucos problemas de sono relatados aos 3 meses (4,9%) e um ligeiro aumento aos 24 meses (10,6%), isto é, mais que dobraram. As mães relataram que 43,1% das crianças acordaram mais de uma vez durante as 2 semanas prévias aos 3 meses de idade, 35,6% aos 12 meses, 20,5% aos 18 meses e 15,2% aos 24 meses, isto é, o despertar noturno diminuiu gradativamente à medida que as crianças cresciam. Além disso, os pesquisadores descreveram que as meninas eram mais propensas do que os meninos a ter problemas de sono aos 12 meses e tinham mais despertares noturnos aos 24 meses.

Modelos de painel cross-lagged revelaram evidências parciais de associações recíprocas entre consistência de rotina e atividades adaptativas na hora de dormir e melhores desfechos de sono ao longo do tempo. Mais consistência de rotina na hora de dormir previu menos problemas de vigília e sono noturnos, e mais atividades adaptativas na hora de dormir previram maior duração e menos problemas de sono.

Esse estudo destaca a importância das rotinas da hora de dormir, recomendadas como parte dos hábitos de sono saudáveis. No entanto, muito pouco se sabe sobre como as rotinas durante os primeiros 2 anos de vida podem promover desfechos positivos do sono. Este estudo avaliou como as rotinas afetam a duração, despertar noturno, hora de dormir, início e problemas de sono em vários pontos do tempo dos 3 aos 24 meses de idade. A consistência das rotinas foi relacionada a menos despertares noturnos e menos problemas de sono. As atividades adaptativas na hora de dormir, como a leitura de livros, aumentaram com o tempo e foram associadas a melhores resultados. Portanto, essas atividades podem impactar positivamente os padrões de sono nos primeiros 2 anos de vida.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Fiese BH, Cai T, Sutter C, Bost KK. Bedtimes, Bedtime Routines, and Children’s Sleep across the First Two Years of Life [published online ahead of print, 2021 Feb 24]. Sleep. 2021;zsab045. doi: 10.1093/sleep/zsab045 
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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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