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S.A.L.A.D.: Uma técnica que pode salvar você (e o seu paciente)

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Com o reconhecimento da Medicina de Emergência no Brasil, temos visto surgir diversos grupos e profissionais preocupados com a propagação de boas práticas médicas na abordagem da via aérea do paciente na emergência. Com isso, vemos, cada vez mais frequentemente, o reconhecimento de conceitos como o da divisão da via aérea  “anatomicamente difícil” (que seria a definição ‘clássica’, mais conhecida) e a via aérea “fisiologicamente difícil” (que seria assim classificada por instabilidade hemodinâmica ou dificuldade de pré-oxigenar adequadamente o paciente, por exemplo).

Porém, existe um “tipo de via aérea” que é difícil mesmo sendo fácil. Parece confuso, então vou dar um exemplo: Paciente longilíneo, pescoço comprido, bom Mallampati e todos os outros indicadores de uma possível via aérea difícil negativos. Porém, o paciente em questão (não importa o motivo no momento) apresenta episódios de êmese quase ininterruptos. Além de aumentarmos o risco de broncoaspiração se não realizarmos a intubação desse paciente com a cabeceira elevada (e ainda assim, com menos de 90° há uma chance grande disso acontecer), a orofaringe e cavidade oral estão repletas de vômito, e até mesmo um paciente que apresente um Cormack-Lehane grau 1 teria uma via aérea difícil de ser visualizada.

Suction Assisted Laryngoscopy Airway Decontamination (S.A.L.A.D.)

Foi pensando nisso que o médico James C DuCanto desenvolveu e batizou a técnica conhecida como S.A.L.A.D. (Suction Assisted Laryngoscopy Airway Decontamination). A Laringoscopia com Descontaminação de Via Aérea Assistida por Aspiração (em tradução livre) consiste em uma técnica para facilitar o acesso à via aérea em casos onde os pacientes apresentam uma quantidade considerável de líquido nas vias aéreas (sangramento volumoso ativo ou episódios de vômito antes e, até mesmo, durante a laringoscopia) diminuindo as chances de broncoaspiração e facilitando a visualização da via aérea.

Para aplicar a técnica deve-se utilizar as duas mãos, a esquerda realizando a laringoscopia e a direita para posicionar o aspirador (que deve ser potente e, ponto fundamental, estar acoplado a uma sonda rígida de aspiração – a mais conhecida sendo a Yankauer. Existem outros modelos no mercado atualmente, inclusive uma que leva o nome do próprio desenvolvedor da técnica). Deve-se percorrer toda a cavidade oral e orofaringe com o aspirador, utilizando-o também na entrada da via aérea e na região posterior, mantendo-o posicionado à esquerda da lâmina do laringoscópio com sua ponta direcionada para o esôfago (mantendo sucção contínua) enquanto realiza-se a introdução do tubo traqueal.

Preferencialmente (e não só nessa situação) a técnica deve ser realizada com videolaringoscopia. Um dos focos do treinamento consiste em evitar que o líquido afete a câmera, impedindo uma visualização adequada.

Foto: Acervo James DuCanto (Reprodução autorizada pelo mesmo)

Como membro ativo e importante do movimento FOAMED (Free Open Access Meducation –Educação Médica com Acesso Livre e Gratuito, em tradução livre), DuCanto desenvolveu ainda manequins de treinamento para a técnica, bem como receitas para simulação de vômitos para serem usados nos treinamentos. A preocupação em tornar essas simulações o mais realísticas possível é tanta que durante alguns cursos (como aconteceu no SMACC [Social Media and Critical Care], em Sidney, por exemplo) a estação prática de S.A.L.A.D. é desenvolvida em um ambiente semelhante a um pub, onde a iluminação, o barulho e o cheiro de vômito tornam o ambiente ainda mais “interessante” (envolvente ou repulsivo, dependendo do ponto de vista). 

Existem diversas publicações na internet ensinando como produzir o seu próprio manequim para treinamento, bem como para produção de sangue e vômito simulados. Acesse, assista, faça o seu e pratique. E não esqueça do seu avental, óculos e máscara para a prática. Vai fazer muita diferença.

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