SBR se posiciona sobre as vacinas de vetores virais contra Covid-19 e síndrome antifosfolípide

Tempo de leitura: 3 min.

Recentemente, episódios de trombose associados à plaquetopenia foram descritos em pacientes que receberam a vacina contra Covid-19 da AstraZeneca, composta por um vetor viral (adenovírus) levando um mRNA que sintetiza proteínas do SARS-CoV-2. Após essa divulgação, alguns países da Europa suspenderam temporariamente a utilização dessa vacina até que a European Medicines Agency (EMA) se posicionasse, orientando sua retomada.

Naturalmente, médicos e pacientes portadores da síndrome antifosfolípide (SAF) se alarmaram com esses relatos, já que esses pacientes possuem um alto risco de ocorrência eventos trombóticos em virtude da própria doença.

Após a análise das evidências atuais, que são ainda escassas, a Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas e a Comissão de Síndrome Antifosfolípide da Sociedade Brasileira de Reumatologia se uniram para se posicionar a respeito do tema.

Leia também: Segurança das vacinas contra Covid-19 em pacientes com doenças inflamatórias crônicas

Racional

A trombocitopenia trombótica imune induzida pela vacina (TTIIV) tem ocorrência rara, com 269 casos de trombose descritos após 34 milhões de doses aplicadas da vacina (sendo que não é possível excluir a participação de tromboses habituais nessa contagem). Ela possui semelhanças com a trombocitopenia induzida por heparina (HIT), provavelmente compartilhando o mesmo mecanismo fisiopatogênico (indução de anticorpos contra o complexo heparina-fator plaquetário 4 [PF4]). Esse mecanismo fisipatogênico difere daquele encontrado na SAF e parece estar mais relacionado à susceptibilidade individual de cada um.

Além da TTIIV ser rara, vale destacar que a ocorrência de eventos trombóticos na Covid-19 é de 16%, globalmente (muito maior que o risco de TTIIV), aumentando conforme se aumenta a gravidade (lembre-se que, em teoria, o principal objetivo a vacina é prevenir mortes e casos graves).

Saiba mais: Associação Médica Brasileira divulga carta aberta pedindo vacinas, isolamento e combate às fake news

Por fim, pacientes com a SAF já diagnosticada habitualmente encontram-se em anticoagulação plena, o que, teoricamente, poderia funcionar como um fator de proteção no contexto de surgimento de tromboses.

Posicionamento

A SBR, representada pelas Comissões de Doenças Endêmicas e Infecciosas e de Síndrome Antifosfolípide, entende que a vacinação é a principal forma de controle da pandemia e deve ser incentivada.

Comentários do autor

É importante os médicos estarem atentos para a construção do conhecimento nesse contexto, uma vez que é uma condição recentemente descrita e que, portanto, novas evidências surgirão com o passar do tempo. Em princípio, não há indícios de que a TTIIV teria incidência aumentada em pacientes com SAF, mas ainda faltam estudos de segurança nessa população específica.

Nos locais em que existe a disponibilidade de vacinas com diferentes mecanismos de ação, cabe ao médico recomendar uma ou outra, com base no que é exposto no documento da SBR. No entanto, sabemos que essa não é a realidade do Brasil como um todo e que o risco de ocorrência de trombose é maior com o Covid-19 do que com a vacina, independente de o paciente ter SAF ou não. Desse modo, o benefício da vacinação parece superar o risco, mesmo em pacientes com SAF, com base no que foi exposto. Destaco, mais uma vez, que faltam evidência de segurança nessa população específica e que, logo, não existem resposta definitivas.

Recomendo a todos que acessem o documento na íntegra, cujo link está disponível nas referências.

Disclaimer: Gustavo Balbi é membro da Comissão da Síndrome Antifosfolípide da Sociedade Brasileira de Reumatologia e participou da elaboração do posicionamento.

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Gustavo Balbi

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