Semana de Telemedicina: é possível realizar o exame neurológico em consulta online?

Tempo de leitura: 3 minutos.

O exame neurológico atual à beira do leito se originou no final de 1.800 do trabalho de Wilhelm Erb, Joseph Babinski e William Gowers, e foi refinado por Gordon Holmes na primeira metade de 1.900. Nos dias atuais, o exame neurológico precisa de um novo refinamento para se adaptar à tecnologia, não mais à beira leito e sim por meio de uma câmera, na telemedicina.

A telemedicina ou teleneurologia entrou na vida dos neurologistas no final dos anos 90, com a condução de pacientes candidatos à trombólise, porém em outras subespecialidades neurológicas é até então, limitada.

Com a pandemia por Covid-19, a teleneurologia tornou-se essencial para atender e acompanhar os pacientes neurológicos de uma forma geral. Neurologistas que nunca haviam utilizado a telemedicina, começaram a fazer uso deste instrumento em questão de dias, limitando desta forma as visitas presenciais à pacientes com urgência/emergência. Para pacientes estáveis, o presencial tornou-se virtual “da noite para o dia”.

Teleneurologia

A teleneurologia não foi avaliada de forma negativa pelos pacientes, quando comparada com a consulta presencial; alguns estudos demonstraram maior satisfação devido à acessibilidade, diminuição de gastos e tempo de espera em ambulatórios cheios.

Porém, o exame teleneurológico fica limitado, pois não há nenhum profissional médico ou da área de saúde ao lado do paciente. Neste caso, o exame neurológico precisa ser direcionado à queixa do paciente, para não ser exaustivo. Ainda assim, não resta dúvida que o exame virtual não substitui o exame presencial, sendo realizado mais para casos específicos.

De toda forma, é provável que a teleneurologia tenha chegado para ficar, e provavelmente continuará tendo um papel importante após o fim das regras de distanciamento social. Por isso, na Semana de Telemedicina, que está sendo realizada aqui no Portal PEBMED, não podíamos deixar de abordar as principais características desse tipo de exame físico!

Exame neurológico na telemedicina

Algumas observações sobre o exame neurológico na telemedicina merecem destaque:

  1. Certifique-se de olhar diretamente para a câmera, porque isso equivale a fazer contato visual durante uma visita presencial.
  2. Relate ao paciente quando você desviar o olhar para fazer anotações ou visualizar o prontuário eletrônico, caso contrário ele pode pensar que você não está prestando atenção nele.
  3. Pode haver um atraso no áudio, portanto, aguarde alguns segundos após o paciente parar de falar antes de começar a falar.
  4. Os pacientes devem usar seus aparelhos auditivos e óculos.
  5. Seu comando durante uma manobra semiológica precisa ser modificado, sendo o mais claro e simples possível, pois o paciente precisa entender o que é solicitado.
  6. Algumas partes do exame, como a marcha, podem ser prejudicados/limitados devido ao grau de instabilidade do paciente, ao tamanho do quarto, a que distância o paciente pode chegar da câmera, o dispositivo/câmera utilizado pelo paciente e capacidade de ajustar o ângulo da mesma.
  7. Se o paciente estiver sozinho durante a consulta e tiver histórico de quedas com instabilidade significativa, é melhor evitar os testes de equilíbrio estático/dinâmico.
  8. Se o paciente se conectar via laptop, tablet ou smartphone, é mais fácil que tenha um membro da família ou amigo presente, para ajustar o ângulo da câmera durante o exame, pois facilitará a filmagem e garantirá a segurança durante manobras de equilíbrio estático/dinâmico.
  9. Se o aplicativo virtual usado para estabelecer uma conexão de vídeo/áudio permitir que o provedor compartilhe imagens ou documentos eletronicamente, isso poderá fornecer um meio alternativo de conduzir partes do exame neurológico.

É evidente que tem partes do exame que o neurologista terá dificuldades ou não conseguirá realizá-lo, como por exemplo: campo visual (principalmente se a tela do computador for pequena), fundoscopia, Dix Halpike, reflexos profundos, palestesia, entre outros.

As manobras semiológicas passíveis de serem realizadas no exame de teleneurologia devem ser organizadas de tal forma a minimizar o número de vezes que o paciente necessite mudar de posição, assim como de ajuste do ângulo da câmera.

Semana de Telemedicina

Veja outros textos especiais da nossa Semana de Telemedicina:

E não perca nossa PEBMED Live especial sobre telemedicina! Hoje, 20h, no instagram @pebmed_apps, o neurologista Henrique Cal e o médico de família Marcelo Gobbo vão tirar todas as suas dúvidas sobre esse modelo de atendimento!

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Chiritopher J. Boes, Andrea N. Leep Hunderfund et al. A primer on the in home teleneurologic examination. A COVID-19 pandemic imperative. Neurology Clinical Practice. May 21, 2020.
  • Govindarajan R, Anderson ER, Hesselbrock RR, et al. Developing an outline for teleneurology curriculum: AAN Telemedicine Work Group recommendations. Neurology 2017;89:951-959
  • Klein BC, Busis NA. COVID-19 is catalyzing the adoption of teleneurology. Neurology Epub 2020 Apr 1.
    Wechsler LR. Advantages and limitations of teleneurology. JAMA Neurol 2015;72:349-354.
Relacionados