Saúde Pública

Setembro amarelo: o risco de suicídio com opioides

Tempo de leitura: 3 min.

O uso de opioides cresce de forma rápida no Brasil. Uma pesquisa realizada pela Fiocruz indica que 4,4 milhões de brasileiros já fizeram uso ilegal de algum opiáceo. Esse número corresponde a quase 3% da população e é 3 vezes superior ao uso de crack, experimentado por menos de 1% da população ao longo da vida. Uma outra pesquisa publicada no American Journal of Public Health, com base em dados da Anvisa, mostra que a venda prescrita desse tipo de analgésico cresceu 465% em 6 anos.

O uso “recreativo” de opioides — geralmente através da substância fentanila, um derivado da morfina com potência até 100x maior — já foi palco de suicídio de pessoas famosas; profissionais de saúde, especialmente anestesiologistas, que possuem maior facilidade de acesso ao medicamento; estudantes de medicina e até pela população em geral através do mercado ilegal. 

Leia também: Individualização é a palavra-chave para o uso seguro dos opioides no tratamento da dor

Mecânica do fármaco

O uso de opioides aumenta significativamente o risco de suicídio de 3 maneiras: em primeiro lugar, os opioides deprimem o sistema nervoso central, aumentando o risco de o usuário desenvolver depressão. Em segundo lugar, causam dependência e levam a transtornos por uso de substâncias, um dos fatores de risco mais importantes para o suicídio. Por último, os opioides levam a um estado de desinibição, no qual atos impulsivos, como o suicídio, são mais prováveis. Dessa forma, é imprescindível que médicos que tratam pacientes com transtorno de uso de opioides saibam diagnosticar e tratar a depressão ao mesmo tempo.

O manejo da intoxicação por opioide inclui: suporte clínico adequado com correção da hipotensão e do edema pulmonar (lembrar que o edema não está relacionado à sobrecarga de fluido, portanto diuréticos são contraindicados); avaliação da temperatura corporal; uso de naloxona, como profilaxia ou tratamento para coma, depressão respiratória e convulsões.

Já o tratamento para a síndrome de dependência de opioides envolve 3 abordagens: 

  1. Terapia farmacológica de substituição com metadona ou buprenorfina. A metadona é mais utilizada. Produz efeitos colaterais mínimos, boa biodisponibilidade, alta afinidade pelo receptor opioide e meia-vida longa. Já a buprenorfina é um agonista parcial dos receptores opioides, bem tolerada e segura, porém pode não produzir efeito agonista suficiente para compensar os pacientes com níveis mais altos de dependência física.
  2. Terapia farmacológica de não substituição com clonidina ou naltrexona. A clonidina é eficaz na redução dos sinais e sintomas da abstinência de opioide enquanto a naltrexona é um antagonista opioide, eficaz para adictos com alta motivação para se recuperarem.
  3. Tratamento cognitivo-comportamental para prevenção de recaídas.

Mensagem final

É crescente o número de casos de profissionais de saúde encontrados desfalecidos em suas residências ou durante plantões hospitalares mediante o uso inadvertido de opioides. Coincidentemente, temos também o aumento de casos de burnouts nesses profissionais. O uso recreativo como válvula de escape de uma rotina pesada e estressante, principalmente em tempos de pandemia, é o começo de uma trágica história de alguém que teoricamente tem o domínio sobre a droga, mas que emocionalmente acaba sendo vencido por ela.

Saiba mais: Efeitos cardiovasculares dos opioides e estratégias para reduzi-los

A criação de serviços de saúde especializados em identificar e tratar pacientes com transtornos de uso de substâncias (como os opioides) é interessante na medida em que evita que o distúrbio se torne crônico, com complicações psiquiátricas, como depressão e tendência suicida.

Referências bibliográficas:

  • Baltieri DA, Strain EC, Dias JC, Scivoletto S, Malbergier A, Nicastri S, Jerônimo C, Andrade AG. Diretrizes para o tratamento de pacientes com síndrome de dependência de opioides no Brasil [Brazilian guideline for the treatment of patients with opioids dependence syndrome]. Braz J Psychiatry. 2004 Dec;26(4):259-69. Portuguese. doi: 10.1590/s1516-44462004000400011
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Publicado por
Bruno Vilaça

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