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Sífilis congênita no RN: um agravo ainda muito prevalente nas maternidades cariocas

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Para o pediatra, trabalhar em maternidade de grande movimento no Rio de Janeiro é quase sinônimo de se deparar diariamente com casos de sífilis congênita. Uma doença que tem tratamento, mas que esbarra nas dificuldades de funcionamento do sistema de saúde e continua sendo muito prevalente.

A falha nessa correta abordagem atinge diretamente um recém-nascido que poderia nascer saudável e sem intercorrências no período neonatal. Segundo dados disponibilizados pelo SINAN, em 2015, o Rio de Janeiro registrou uma das maiores incidências de sífilis congênitas do Brasil, apesar das falhas que sabemos que ocorre no sistema de notificação. Logo, os números que já são altos podem ser maiores ainda.

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Quando uma mãe teve sífilis na gestação, o manejo de investigação do recém-nascido deve seguir o manual do Ministério da Saúde, que inclui a realização de alguns exames, e, mesmo nos casos aparentemente abordados no pré-natal de forma correta, não dispensar a coleta de pelo menos um exame do recém-nascido.

No caso de mães adequadamente tratadas, seguindo todas as exigências para o correto tratamento (parceiro tratado concomitantemente, uso de penicilina nas doses e intervalos corretos, término do tratamento pelo menos um mês antes do nascimento e queda significativa dos títulos de VDRL), a coleta do VDRL de sangue periférico do bebê é obrigatória.

Nos casos de exame positivo e nos casos de mães inadequadamente tratadas, amplia-se a investigação com realização de hemograma, radiografia de ossos longos e exame do líquor. Logo, mesmo o paciente assintomático, deve ser submetido à procedimentos dolorosos e à radiação para completa pesquisa da infecção congênita.

Apesar de quase 50% dos casos serem assintomáticos, a sífilis congênita pode se expressar de diversas maneiras, já desde a fase intraútero, provocando abortos, nascimentos prematuros e baixo peso ao nascer.

Mais da autora: ‘Follow-up de prematuros: o que é realmente importante’

O recém-nascido pode apresentar:

  • Desconforto respiratório e pneumonia, necessitando de suporte ventilatório;
  • Nos exames laboratoriais: anemia, leucopenia, leucocitose e plaquetopenia, além de icterícia colestática;
  • Hepatoesplenomegalia;
  • Rinite serosanguinolenta;
  • Osteocondrite e periostite;
  • Pseudoparilisia de Parrot devido ao acometimento ósseo;
  • Linfadenopatia generalizada;
  • Na pele: petéquias, pênfigo palmo-plantar e condiloma plano.

Após os dois anos podem surgir alterações clínicas tardias da sífilis:

  • Tíbia arqueada em “lâmina de sabre”;
  • Osso frontal proeminente (fronte olímpica);
  • Articulações de Clutton;
  • Nariz em sela;
  • Molares “em amora” e dentes incisivos medianos superiores deformados (dentes de Hutchinson) ;
  • Arco palatino elevado, mandíbula curta;
  • Rágades periorais.

A visão pode ser prejudicada pela ceratite intersticial e haver déficit auditivo por surdez neurológica, tudo isso associado à uma dificuldade de aprendizado decorrente do comprometimento neurológico à longo prazo.

Veja também: ‘Perda de peso no recém-nascido: o que dizem as evidências’

Percebe-se que as consequências de uma doença que é erradicada com um dos antibióticos mais antigos que existem, a penicilina, são muitas vezes desastrosas. E em termos de saúde pública, aumentam os custos e o tempo de internação de recém-nascidos que, se não fosse a história de sífilis materna, poderiam ter uma estadia na maternidade sem maiores problemas. Nos casos de confirmação da sífilis congênita, podem ser necessários até dez dias de antibioticoterapia venosa.

O médico, principalmente da saúde básica, tem o papel na orientação dos pacientes sobre a prevalência e a cura dessa DST, que sendo tratada antes da gestação tem manejo muito mais simples e evita importantes problemas futuros na criança.

Autora:

Referências:

  • Diretrizes para o controle da sífilis congênita – Ministério da Saúde – SVS – Programa nacional de DST/Aids 2006
  • Domingues RMSM, Leal MC. Incidência de sífilis congênita e fatores associados à transmissão vertical da sífilis: dados do estudo Nascer no Brasil – Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(6):e00082415, jun, 2016
  • Milanez H, Amaral E. Por que ainda não conseguimos solucionar o problema da sífilis em gestantes e recém-nascidos – Rev Bras Ginecol Obstet. 2008; 30(7):325-7

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