Cardiologia

Sono saudável diminui risco de arritmias

Tempo de leitura: 3 min.

A fibrilação atrial, arritmia cardíaca mais comum no mundo, leva a um aumento significativo do risco para acidente vascular encefálico e insuficiência cardíaca e dobra o risco para mortalidade. Além disso, é frequentemente assintomática, dificultando seu diagnóstico e subestimando substancialmente o risco. Já as bradiarritmias e arritmias ventriculares estão associadas com morte súbita e síncopes. 

A qualidade do sono é um fator de risco já conhecido para arritmias cardíacas, assim como ingestão de álcool, tabagismo, atividade física extenuante, obesidade e predisposição genética. Porém desta vez, foi realizado um largo estudo prospectivo com 403.187 participantes do UK Biobank analisando a associação de padrões diferentes de sono com o risco de arritmias, mais especificamente, fibrilação atrial/flutter atrial (FA), arritmias ventriculares e bradiarritmias. Além disso, investigou-se também a potencial interação entre um padrão de sono saudável e a susceptibilidade genética para arritmias cardíacas.

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Cinco comportamentos do sono foram avaliados e atribuídos a um escore de qualidade do sono (0-5 onde 5 é o sono de melhor qualidade): período do dia que o paciente se sente mais bem-disposto; sonolência diurna; insônia; roncos e duração do sono. O desfecho foi a incidência de fibrilação atrial/flutter atrial, arritmias ventriculares e bradiarritmias, na ausência e na presença de diferentes graus de predisposição genética. Os resultados foram ajustados para diversas covariáveis como idade, sexo, raça, ingestão de álcool, tabagismo, sedentarismo, pressão arterial sistólica, glicemia, uso de medicamentos para hipertensão ou diabetes.

Resultados e discussão

Entre os 403.187 participantes do estudo, foram registrados 11.724 FAs, 4.349 bradiarritmias e 1.725 arritmias ventriculares durante uma média de 11 anos de acompanhamento. Aproximadamente 21% dos participantes tinham um escore de sono saudável igual a 5. Mulheres e não fumantes são mais propensos a ter um padrão de sono mais saudável. Os participantes com padrões de sono mais saudáveis também pareciam ter menos privações materiais; um IMC mais baixo; ser mais ativo fisicamente; menos sedentário; ter menos probabilidade de ter hipertensão, diabetes tipo 2 ou colesterol alto.

O padrão de sono saudável foi significativamente associado a riscos menores de FA e bradiarritmia, mas não de arritmias ventriculares. Em comparação com indivíduos com um escore de sono saudável de 0-1, aqueles com um escore de sono saudável de 5 tiveram um risco 29% e 35% menor de desenvolver FA e bradiarritmia, respectivamente. A duração adequada do sono (7-8 horas/dia), nenhuma insônia frequente e nenhuma sonolência diurna frequente foram cada um independentemente associados a um menor risco de FA e bradiarritmia.

Embora o ronco tenha sido associado a insuficiência cardíaca e doenças cardiovasculares, não foi encontrado associações significativas com arritmias, o que está de acordo com a maioria dos estudos epidemiológicos anteriores.

A associação nula entre um padrão de sono saudável e o risco de arritmias ventriculares pode ser explicada pelo número relativamente pequeno de casos (0,42%).

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Foi encontrado uma interação moderada entre a pontuação do sono saudável e o grau de predisposição genética sobre o risco de FA. A associação protetora observada de um padrão de sono saudável com a doença é mais evidente entre aqueles com menor risco genético de FA. Este resultado, em linha com estudos anteriores sobre a interação gene-ambiente, sugere que fatores de estilo de vida saudável e menor risco genético podem, em conjunto, diminuir o risco de doença. As manifestações de distúrbios clínicos são geralmente menos afetadas pelo estilo de vida e fatores ambientais quando o risco genético é mais dominante.

Vários mecanismos podem explicar as associações observadas entre o padrão de sono saudável e o risco reduzido de arritmias. Foi demonstrado que a privação de sono pode alterar o equilíbrio entre o sistema nervoso simpático e parassimpático, o que tem sido associado com o desenvolvimento e manutenção das arritmias. Além disso, uma ampla gama de alterações metabólicas, como dislipidemia, inflamação vascular, metabolismo da glicose e estresse oxidativo, também pode explicar a ligação observada entre comportamentos de sono e arritmias cardíacas.

Conclusão

O estudo mostra que a adesão a um padrão de sono saudável está associado a um menor risco de fibrilação atrial/flutter atrial e bradiarritmia, independentemente dos fatores de risco tradicionais e da predisposição genética. Como as arritmias cardíacas são um fator de risco de estágio inicial para doenças cardiovasculares e potencialmente reversíveis, é imprescindível a adesão a um padrão de sono saudável na prevenção primária de doenças cardiovasculares.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Li X, Zhou T, Ma H, et al. Healthy Sleep Patterns and Risk of Incident Arrhythmias. Journal of the American College of Cardiology. 2021 Sep;78(12):1197-1207. doi: 10.1016/j.jacc.2021.07.023
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Publicado por
Bruno Vilaça

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