Sufocados pela profissão: quem somos nós após a pandemia?

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No Brasil, especificamente desde Março/2020, nos pegamos surpreendentemente em uma pandemia. Como em todo processo de enfrentamento de questões adversas, caminhamos de modos singulares porém semelhantes em algumas fases, que trouxeram-nos emoções específicas e consequentemente reações comportamentais secundárias.

Retomemos o mês de Abril, em que se a sociedade se dividia entre autônomos desesperados com o fechamento dos comércios, negando a gravidade do vírus e manifestando toda sua raiva a uma representação política ineficiente (negação + revolta). Do outro lado, mas fadados ao mesmo cenário, alguns assalariados, adaptando-se felizes a uma fase passageira de home office, em que seria possível estar mais perto dos filhos, trabalhar de pijama, acordar mais tarde e tomar uma cervejinha na segurança do lar. Doce ilusão.

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Na mesma época, via ao meu redor, profissionais da saúde se reorganizando em si mesmos e ainda sem entender o tamanho real da avalanche gerada pela pandemia. Enfermeiros virando chefes independentes do lar, enquanto todo o restante da família perdia o ganha-pão; fisioterapeutas desafiados a aprender milagres da ventilação mecânica a pacientes com síndrome respiratória aguda grave; médicos intensivistas divididos entre seguir os avanços científicos da última década e a realidade do que era possível fazer com algo que não conheciam. Todos os demais, dentro de um hospital, extrapolando horas de trabalho para substituir práticas estudadas e desenvolvidas por anos, por atividades necessárias e pouco compreendidas.

Impacto

Penso que nunca na história assisti ao mundo recrutando tantos profissionais da psicologia, quanto nos últimos 11 meses. Desde atividades intensivas nos grandes centros “covidários” até manuais de intervenção social para a população geral. Foi necessário tirar conhecimento da cartola para cuidar dos doentes de Covid-19, das famílias dos doentes, dos adoecidos emocionalmente, dos adoecidos socialmente, dos adoecidos laboralmente, dos adoecidos politicamente, dos profissionais que cuidavam dos doentes e que também estavam doentes, e do adoecimento global de uma sociedade individualista e sem senso coletivo.

Em todos os casos descritos aqui, acreditávamos veementemente que tal situação se resolveria em meses, em uma boa hipótese, antes do segundo semestre. Mas entrou Maio, Junho, Julho, os picos transitando entre os estados brasileiros, profissionais de saúde experientes e inexperientes tendo que reinventar práticas, bancar decisões institucionais em meio a um jogo científico que se tornava cada vez mais político, e assistindo as consequências de cada um dos seus acertos e erros. Dentre os vários acertos, posso dizer que os erros foram muitos, e nos consumiam emocionalmente. Não me refiro a erros dolosos, mas a erros por desconhecimento, por falta de recursos, por falta de experiência, e que todos em conjunto insistíamos (e seguimos insistindo) em jamais utilizar essa palavra, tamanho o peso que tem sobre nossos ombros.

Inicialmente chamados de heróis, logo em seguida julgados por estarmos empregados enquanto muitos perdiam seus empregos durante a pandemia. Mais a frente, os chatos que se acham no direito que sugerir ações protetivas e pedir consciência. Com que direito? Sigo em minha casa, com meu grupo de 20 ou 30 amigos compartilhando as lives musicais que trazem entretenimento nesse tédio. ‘Tédio’! Palavra de 5 letras que nós, profissionais da saúde infelizmente não vivenciamos em 2020. Em contraposição ao restante da sociedade, o que presenciamos foi estresse, desespero, dor e consequências emocionais ainda não mensuradas.

Assistimos repetidas vezes, notícias de morte dadas de modo remoto, sem toque, sem abraço, sem acalento, e o pior, sem despedidas. Acompanhamos tentativas desesperadas e por vezes extrapoladas de profissionais, que colocavam-se em risco para salvar vidas. O que inicialmente foi designado como grupo de risco, ficou esquecido quando começamos a ser confrontados com mortes precoces e devastadoras, que o restante da sociedade negava. Nós, em Agosto e Setembro, vivemos o fundo do poço da fase depressiva do luto, e eles, ainda na negação e na revolta.

Saiba mais: Setembro Amarelo: depressão entre profissionais de saúde é maior entre os médicos

Aproximavam-se as festas, admitimos que felizmente os números aos poucos foram caindo, nossas esperanças aumentando, mesmo sabendo da certeza de uma segunda onda esperada para os meses seguintes. Mas optamos por manter a fé e escavar pedras para reencontrar parte de nossa alegria, afinal, somos brasileiros, pertencentes a uma cultura otimista e apaixonada. Fizemos nossas celebrações tímidas de Natal e Ano Novo, certamente de um modo alternativo ao que desejávamos. Mas nem tudo foi festa. Parte disso foi tristeza e lágrimas. Foi nesse período que tanto nos remete à união e a família, que nos demos conta de tudo que perdemos no processo.

A racionalidade ocupou papel central em nossas vidas nos últimos 11 meses, e isso foi o recurso de enfrentamento necessário para nossa sobrevivência. Não entramos em contato com nossas perdas reais e simbólicas. Tentamos sublimar os parentes que perdemos, os amigos e conhecidos que a pandemia levou: seja por Covid ou por outras situações que o Covid impediu o seguimento adequado. Cuidamos tantos da sociedade, e descuidamos tanto de nós e dos nossos. Deixamos de lado nossas famílias para ser o conforto dos nossos pacientes, isolados e temerosos. Formamos novas famílias e habitamos novos lugares, e agora, em uma volta parcial a nossa vida real, talvez tenhamos dificuldades em descobrir quem somos.

O caminho à frente

A única coisa certa, é que não somos os mesmos. O que nos cabe talvez, seja descobrir o que restou de nossa essência por baixo dos escombros da pandemia. O que resta de nós quando estamos nus diante de nós mesmos. O que habita em nosso íntimo quanto tiramos nossa farda de profissionais da saúde, e temos que voltar para casa. Agora, precisamos nos reencontrar. Não porque nos livramos da pandemia, mas porque ninguém se sustenta por muito tempo ocupando um único papel social, sem se perder de si mesmo. Está a hora de nos refazermos, de ressignificarmos tudo que precisamos em algum momento racionalizar e sublimar. Precisamos encontrar forças para olhar de frente o que restou de nós, e o que precisa ser reconstruído. Precisamos juntar nossas peças quebradas e decidir o que fazer com elas.

É você quem decide sobre como e quando dar esse passo. Se sozinho, se acompanhado, se assistido por um profissional. O mais importante, talvez seja separar a dor do aprendizado, e utilizá-lo em prol de si mesmo, tanto nas novas decisões profissionais quanto sociais e pessoais. Aprendemos muito sobre reorganização de prioridades, e agora é hora de começar a colocar tudo isso em prática. E a pergunta que não quer calar é: Hoje, já em 2021, sem o título profissional que esconde sua essência atrás da máscara, quem é você?

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Publicado por
Mariana Batista Leite Leles
Tags: pandemia

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