Página Principal > Colunistas > Surto de conjuntivite: o que saber? (Parte II)
mulher olhando para cima

Surto de conjuntivite: o que saber? (Parte II)

Tempo de leitura: 4 minutos.

Complementando o texto do mês passado, hoje será abordada a conjuntivite bacteriana aguda e hiperaguda e a conjuntivite alérgica.

A conjuntivite bacteriana aguda é, em geral, autolimitada, causada pelo contato direto do olho com secreções infectadas. As bactérias mais comuns isoladas são S. pneumoniae, S. aureus, H. influenzae e Moraxella catarrhalis. Uma minoria dos casos, usualmente grave, é causada pelo organismo sexualmente transmissível: Neisseria gonorrhoeae (agente da gonorréia). Conjuntivite meningocócica (Neisseria meningitidis) é rara e, geralmente, acomete crianças.

As conjuntivites bacterianas geralmente possuem apresentação unilateral e instalação rápida, cursando com olho vermelho, irritação e secreção mucopurulenta persistente ao longo do dia (amarelada, esbranquiçada ou esverdeada). Geralmente, o olho contralateral é afetado em 1-2 dias. Sinais de inflamação da conjuntiva (hiperemia conjuntival) e secreção são achados universais. A presença de pseudomembranas (mais relacionadas à N. gonorrhoeae e S. beta-hemolíticos) e secreção mucopurulenta contínua são bastante sugestivas de causa bacteriana. Ao despertar, as pálpebras estão frequentemente aderidas, e pode ser difícil abri-las.

Investigações laboratoriais não são realizadas rotineiramente, porém podem ser indicadas nos casos graves (swabs conjuntivais, cultura em meio enriquecido com ágar-chocolate ou Thayer-Martin e PCR). Cerca de 60% dos casos solucionam-se entre 5 a 7 dias, mesmo sem tratamento, contudo, antibióticos tópicos, quatro vezes ao dia por até uma semana, são frequentemente administrados para acelerar a recuperação e prevenir reinfecção e transmissão.

Já esteroides tópicos podem reduzir a cicatrização na conjuntivite membranosa e pseudomembranosa. A irrigação do olho para remover secreção excessiva pode ser útil em casos hiperpurulentos. Uso de lentes de contato deve ser suspenso, por pelo menos 48 horas após a resolução completa dos sintomas. Deve-se sempre reduzir o risco de transmissão com a lavagem das mãos e o não compartilhamento de toalhas.


Fig. 1: Conjuntivite bacteriana bilateral com secreção mucopurulenta
(Imagem gentilmente cedida pela Dra. Andreia Brum)

 Na conjuntivite meningocócica e gonocócica, o antibiótico tópico deve ser usado a cada 1-2 horas associado à antibioticoterapia sistêmica como, por exemplo, benzilpenicilina no caso da primeira e cefalosporina de terceira geração no caso da última.

A Conjuntivite hiperaguda é um tipo de conjuntivite causada pelas bactérias Neisseria gonorrhoeae ou Neisseria meningitidis, sendo mais comum em neonatos, adolescentes com vida sexual ativa, e adultos jovens. Caracteriza-se por abundante secreção purulenta que se refaz rapidamente, acompanhada de edema da conjuntiva, pálpebra e hiperemia subconjuntival.

Diferentemente da maioria das conjuntivites agudas, frequentemente se observa adenopatia pré-auricular. Também ocorre formação de membranas conjuntivais e, com a evolução do quadro, pode ocorrer infecção corneana progressiva, ulceração e perfuração. A Neisseria pode penetrar o epitélio corneano intacto em menos de 24 horas. Em adultos, a uretrite geralmente está presente e a transmissão ocorre da genitália para as mãos e delas para os olhos.

A conjuntivite alérgica se caracteriza por um quadro de inflamação ocular causada por uma reação conjuntival ao alérgeno ambiental. Para que ocorra, há um fator de predisposição genética para reações de hipersensibilidade frente á exposição a antígenos ambientais específicos. Diversos são os gatilhos para essa reação, porém o mais comum é o pólen. Outras causas importantes também são: pêlos de animais, maquiagem, fumaça, lente de contato, cloro. As manifestações clínicas incluem várias formas de conjuntivite alérgica e dependerão do tempo de evolução, período sazonal, frequência do quadro e antígeno responsável.

O tipo mais comum da conjuntivite alérgica é a aguda, caracterizada por uma reação,  principalmente ao pólen, e observada em crianças pequenas logo após brincadeiras ao ar livre em períodos como primavera e verão.  Apresenta-se com acometimento bilateral, prurido, quemose, secreção clara e hiperemia conjuntival.

Outros tipos de conjuntivite alérgica são a sazonal e a perene. Em ambas as condições a evolução é subaguda, e o que difere uma da outra é o período de exacerbação e o alérgeno gatilho. Na sazonal, há piora principalmente durante a primavera e verão, usualmente pelo pólen. Na perene há sintomas ao longo de todo ano, piorando no outono através da exposição domiciliar à ácaros e alérgenos fúngicos.  Ambas apresentam-se com episódios transitórios subagudos, podendo se manifestar com hiperemia conjuntival, prurido, lacrimejamento, espirros, papilas conjuntivais, quemose e edema palpebral.

Também muito importante é a conjuntivite denominada papilar gigante associada ao uso de lentes de contato. Quando há a formação de depósitos proteináceos e debris celulares sobre a superfície das lentes de contato, o risco desta conjuntivite aumenta. As principais manifestações clínicas são sensação de corpo estranho, hiperemia conjuntival, prurido, intolerância ao uso da lente de contato, visão borrada, secreção mucoide e papilas de tamanho médio (>0,3mm) em conjuntiva tarsal superior.

Em todos os casos, a chave do tratamento  é a eliminação do agente desencadeante. Recomenda-se o uso de compressas frias várias vezes ao dia. Dependendo da gravidade das manifestações clínicas, colírio tópicos podem ser prescritos. Se o quadro for leve, apenas lágrimas artificiais 4-8x/dia são suficientes. Em casos moderados, pode-se adicionar o uso de anti-histamínicos ou estabilizadores de mastócitos 2x/dia para aliviar o prurido,  como a olopatadina, epinastina, nedocromil, associados. Já em casos graves associa-se aos medicados citados, esteroides tópicos leves, como o loteprednol ou fluormetolona, 4x/dia por 1-2 semanas. O uso rotineiro de esteroides e antibióticos tópicos devem ser desaconselhados para casos de conjuntivite alérgica.

Autor:

É médico e também quer ser colunista da PEBMED? Clique aqui e inscreva-se!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.