Anestesiologia

Saturação venosa central de oxigênio x saturação venosa mista de oxigênio

Tempo de leitura: 3 min.

Por definição, a saturação venosa central de oxigênio (SVcO2) diz respeito à amostra de sangue coletada na veia cava superior ou átrio direito, ao passo que a SVO2 é coletada na artéria pulmonar. Portanto, embora possuam termos parecidos, a via de acesso é completamente diferente, exigindo técnicas e dispositivos distintos.

Assim, a SVcO2 pode ser obtida por meio de um cateter convencional para acesso venoso central, enquanto a saturação venosa mista de oxigênio (SVO2) demanda a utilização de um cateter de artéria pulmonar, também conhecido como Cateter de Swan-Ganz.

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Diferenças entre SVcO2 e SVO2

Esse detalhe anatômico confere diferenças entre os valores das saturações venosas descritas. A primeira delas é que, pelo fato da SVcO2 ser coletada do átrio direito ou da veia cava superior, a rigor, ela informa a respeito da oxigenação tecidual da metade superior do corpo. Já a SVO2, reflete a oxigenação tecidual global, que inclui todo o território esplâncnico e membros inferiores.

A segunda consideração diz respeito ao valor considerado normal de ambas. Em indivíduos sadios, o valor da SVO2 é em torno de 75%, enquanto o da SVcO2 é ligeiramente menor. A razão dessa discreta diferença, em indivíduos sadios, reside no fato de que os diferentes territórios do nosso organismo têm distintas atividades metabólicas, resultando em diferentes razões de extração de oxigênio.

A extração renal de oxigênio por exemplo é muito menor que a extração cerebral, fazendo com que a saturação venosa de oxigênio seja maior na veia cava inferior (e, como resultado, na artéria pulmonar) do que na veia cava superior. Entretanto, quando há instabilidade hemodinâmica, ou prejuízo da perfusão tecidual, esse padrão se inverte em virtude da alteração na distribuição do fluxo sanguíneo, que passa a privilegiar a metade superior do corpo, em detrimento do território esplâncnico.  Por essas razões, algumas diretrizes recomendam que a SVcOseja >70% e a SVO2 >65%. 

Assim, em virtude dessas diferenças fisiológicas, a questão da substituição da SVO2 pela SVcO2 é bastante polêmica e discutido na literatura. Alguns autores consideram que a SVO2 pode ser substituída pela SVcO2, porque em condições normais, a diferença é muito pequena (2-3%).

Além disso, quando consideramos a disponibilidade, praticidade e facilidade em se obter um acesso venoso central convencional comparado ao cateter de artéria pulmonar, torna-se ainda mais interessante. Vale lembrar que nos últimos anos foram feitos diversos estudos que desencorajam o uso do cateter de artéria pulmonar, ao concluírem que sua utilização pode inclusive, aumentar morbidade e mortalidade.

Leia também: Principais destaques da nova diretriz de cuidados pós-ressuscitação

Considerações

Embora haja tanta controvérsia, diversos autores demonstraram algum benefício ao se utilizar a SVcO2 para monitorar a perfusão tecidual em diversos cenários, desde que seja feita uma correta interpretação dela de acordo com o contexto clínico. Por essas razões, a SVcO2 tem recebido particular interesse.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Miranda CA, Marchi E, Brandão JCM, Nunes RR, Azevedo VLF. Update em Anestesia. Sociedade Brasileira de Anestesiologia. 2019; Cap1: p15-17. Disponível em: https://www.sbahq.org/conhecimento/redireciona.php?file=temas_livres_2017_rba_cba.pdf&tipo=ebook&id=143
  • Reinhart, K., Kuhn, H.-J., Hartog, C., & Bredle, D. (2004). Continuous central venous and pulmonary artery oxygen saturation monitoring in the critically ill. Intensive Care Medicine, 30(8). doi: 10.1007/s00134-004-2337-y
  • Ivanov RI, Allen J, Sandham JD, Calvin JE. Pulmonary artery catheterization: a narrative and systematic critique of randomized controlled trials and recommendations for the future. New Horiz. 1997 Aug;5(3):268-76. PMID: 9259342
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Publicado por
Bruno Vilaça

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