SXSW 2024: A futurologia da tecnologia e como a medicina poderá ser impactada

Algumas palestras do evento trazem insights sobre o futuro da tecnologia e seus impactos; destacamos àqueles voltados à medicina

Uma das principais oportunidades de comparecer ao South by Southwest® (SXSW), sem dúvida nenhuma, é ter a oportunidade de ouvir a vanguarda da indústria da tecnologia falar sobre sua leitura do futuro. Mais do que isso, é nos convidar para o exercício e nos propiciar o ambiente ideal para imaginar o futuro, o que seria difícil no nosso dia a dia.

Três das palestras mais concorridas e apreciadas sobre tecnologias e tendências do presente para o futuro foram “Mind-Machine Merge: Seven Future Trends in a Post-Al World of Work” de Sandy Carter (CEO da Unstoppable); “Amy Webb Launches 2024 Emerging Tech Trend Report” de Amy Webb (CEO do Future Today Institute); e “10 breaktrough technologies of 2024” de Elizabeth Bramson-Boudreau (CEO da revista MIT Tech Review). No presente artigo, vou destacar as principais tendências tecnológicas apresentadas pelas brilhantes palestrantes, trarei todas as tecnologias citadas que fundamentalmente atendem à medicina, mas, mais do que isso, trago também uma visão pessoal de como as tecnologias de aplicação generalizada podem impactar a saúde.

mão de mulher com smartwatch medindo a frequência cardíaca, representando a tecnologia e medicina

Futuro da tecnologia

Para entender o futuro, precisamos olha para o presente, e, segundo Amy Webb, três tendências de tecnologia geral estão confluindo para o que ela chama de “superciclo tecnológico”, uma espiral de desenvolvimento tecnológico que se retroalimenta tornando esse crescimento exponencial. Sandy Carter também reconhece esse momento de crescimento exponencial, e o caracteriza pela confluência de tecnologias, expondo por exemplo, o quanto a inteligência artificial pode se beneficiar da tecnologia dos blockchain para agregar transparência, segurança e garantir propriedade intelectual no que é gerado pelo modelos de linguagem generativa. Amy Webb vai um pouco além e determina as três tecnologias gerais (com aplicações multiáreas) que compõem este momento, “o superciclo tecnológico”.

  1. Inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) é a base do superciclo tecnológico, que está possibilitando o desenvolvimento das demais tecnologias numa velocidade nunca antes vista.

Segundo a futurologista Amy Webb, também corroborada pelo relatório do MIT Technology Review, estamos vivendo o momento da “IA para tudo”, que por um lado tem facilitado nossas vidas, mas, pelo outro, tem trazido novos desafios para a sociedade e problemas ainda sem solução.

A tendência das grandes empresas de IA continuará sendo crescimento e ganho de escala em detrimento da segurança e confiabilidade, o que deve agravar os problemas já detectados hoje, como os vieses dessas ferramentas e os erros e alucinações. A pergunta que fica é quem vai sair ferido antes de tomarmos alguma atitude.

O MIT Technology Review também denuncia as consequências do avanço da IA para a desinformação, o que deve nos preocupar muito na área da saúde, basta olharmos para os recentes movimentos antivacina e as calamidades causadas pela desinformação durante a pandemia de covid-19. O relatório também destaca como negativo o custo extremo que a IA traz, tanto ambiental (devido ao alto custo de energia para o processamento da IA), quanto humano (denunciando o uso de trabalhadores com baixos salários em países subdesenvolvidos para o treinamento da IA). Tão grave quanto, é a tendência do uso indiscriminado da IA, pois muitos dos modelos se tornaram abertos e seu uso está cada vez mais distante da validação científica e da publicação em papers acadêmicos.

  1. “Connectables” – Ecossistema de devices conectados

Se você acha que o smartphone e o smartwatch bastam, o superciclo tecnológico está trazendo novos devices ao mercado. Da mesma maneira que no passado vivemos o “mobile-first“, movimento em que o desenvolvimento de aplicações e de serviços Web priorizava a plataforma de dispositivos móveis, agora estamos no movimento do “AI-first“, em que os novos devices tecnológicos, bem como aplicações e serviços, serão pensados primeiro para o uso da IA. Teremos portanto uma corrida pelo domínio de mercado de dispositivos geridos por IA.

Conforme o report do MIT Technology Review, apresentado por Elizabeth Bramson-Boudreau, o novo grande mercado de devices nessa nova era é o computador de face, em que Apple Vision Pro é o representante mais notável. Num futuro breve, diversos serão os dados que estes aparelhos serão capazes de capturar, dentre eles, a leitura das reações pupilares, fundamentais para o aprendizado de modelos de linguagem generativa ainda mais avançados.

Os modelos de IA multimodais, capazes de interpretar dados de múltiplos formatos (vídeos, sons, imagens, texto), também foram destacados por Sandy Carter como uma nova tendência, culminando com o que Amy Webb chama de Large Action Models, modelos capazes de ler nossas intenções a partir dos múltiplos dados coletados pelos devices e prever nossa próxima ação antes mesmo de a realizarmos.

Os “connectables“, portanto, são parte importante do superciclo tecnológico ao alimentar o ciclo de aprendizado da IA a partir da coleta de cada vez mais dados. Isso trará grandes avanços na medicina, pois a coleta de dados do paciente será muito além da coleta periódica realizada em consultórios e unidades de saúde. Dados de múltiplos wearables serão usados para alimentar modelos preditivos de adoecimento, monitorar pacientes em tratamento domiciliar, e mudar completamente a maneira com que diretrizes de tratamento são formuladas, muito mais baseado em evidência e em dados de monitoramento contínuo.

Cabe aqui, ao médico e profissional de saúde, entender que cada vez mais será exigido dele familiaridade com dados e com o uso dos mesmos na tomada de decisão. Decisões relativamente simples e corriqueiras como o ajuste do anti-hipertensivo serão baseadas em uma quantidade muito maior de dados do que hoje, agregando confiabilidade e melhorando desfechos.

Outra tecnologia, habilitada pelo grande volume de dados e avanço da IA, é a potencial criação de gêmeos digitais (“digital twins”). Gêmeos digitais são copias digitais de coisas reais, como, por exemplo, a cópia de uma cidade para o estudo do tráfego, antes que as mudanças sejam propostas na cidade real, conforme exemplo de Sandy Carter. Mas por que não uma cópia digital de um paciente antes de uma cirurgia? Facilitando não só o estudo cirúrgico do procedimento a ser realizado, como também a realização simulada do mesmo antes do procedimento no mundo real, antevendo possíveis intercorrências e melhorando o desfecho clínico. O mesmo pode se tornar verdade se criarmos cópias digitais de um caso clínico, em que a IA pode prever os múltiplos desfechos do caso e nos guiar na melhor abordagem clínica.

  1. Bioengenharia

A terceira tecnologia do superciclo tecnológico é talvez a que esteja menos visível ao público geral, mas que tem propiciado profundos avanços, principalmente na medicina: a bioengenharia.

Na visão de Amy Webb e dos futurólogos do Future Today Institute, a computação e a inteligência artificial terão seu crescimento limitado pela tecnologia dos semicondutores de silício, e, em algum momento na próxima década, vão depender de alguma nova tecnologia mais eficiente de processamento. A possível solução? Tornar os computadores cada vez mais parecidos com o cérebro humano. Como? A resposta está na criação de organoides cerebrais, cérebros artificiais desenvolvidos a partir de cultura de células tronco, sendo capazes de alto poder de processamento de informação, comparável ao ser humano. Embora pareça um filme de ficção científica, já foram criados estruturas como essa em laboratório, e não vai demorar tanto tempo para vermos os primeiros sendo utilizados para processamento de dados e computação.

Além disso, em medicina, a bioengenharia também está evoluindo no design de novas proteínas e novos tratamentos, a chamada biologia generativa. Modelos de IA fazem o design da melhor molécula com base num histórico de moléculas e seus dados de desempenho clínico.

A edição genética terapêutica também está virando realidade, com o tratamento da anemia falciforme a partir da edição genética, possibilitando a ativação do gene produtor da hemoglobina A em pacientes falciformes, tratamento este que foi destacado pelo MIT Technology Review como uma das dez tecnologias de 2024.

Outras tecnologias

Além da tríade que compõe o superciclo tecnológico (apresentada acima), diversas tecnologias aplicadas na saúde receberam destaque das futurologistas no evento. Elizabeth Bramson-Boudreau, do MIT Technology Review, deu destaque para duas tecnologias de saúde na lista do top 10 de 2024: o avanço das drogas de perda de peso, em que 2% da população americana já estão em uso e há um potencial aumento de mercado em 10-15x; e o primeiro tratamento com edição genética, conforme relatado acima.

A CEO também citou outras tecnologias que não entraram no top 10 mas que foram bem reconhecidas como avanços: a nova droga para tratamento do Alzheimer (Leqembi), que apesar dos graves efeitos adversos já representa um avanço no tratamento da doença; e a estratégia de venda do Narcan (antídoto de opioide) no varejo, sem necessidade de prescrição e por um preço acessível, que, apesar de não representar um avanço tecnológico, foi um desafio logístico e legislativo imenso e uma estratégia fundamental para prevenir mortes por intoxicação por opioide, um cenário bastante preocupante na saúde americana.

Como relatado, saúde foi destaque como nunca visto no SXSW e as futurólogas e grandes instituições por trás das mesmas corroboram que a indústria da saúde será foco de uma disrupção fundamental e um tanto tardia nesta década. Cabe a nós, médicos, nos mantermos antenados com o avanço e parte ativa dessa discussão.

Continue acompanhando o SXSW com a gente!

Nos próximos artigos, trarei mais novidades do evento, como o painel de discussão dos desafios da inteligência artificial aplicada à clínica e da palestra do Dr. Vin Gupta, que trouxe uma importante visão de como as tecnologias bem aplicadas no sistema de saúde podem construir um sistema mais igualitário, mais acessível e menos custoso.

Veja também: SXSW 2024: O SXSW como evento inspiracional

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