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Técnicas de passagem de caso e como melhorar os desfechos da transferência de pacientes

Você já se viu na situação onde a informação passada na troca de plantão não era exatamente a que correspondia a situação do paciente? Para reduzir esse efeito desenvolveu-se as técnicas de Handoff (o equivalente em português a passagem de caso). Quem fala mais sobre o assunto e dá dicas para melhorar os desfechos relacionados à transferência de pacientes é o Dr. Bruno Lagoeiro, médico e CEO da PEBMED. Veja em nosso vídeo!

Você sabe como receber ou passar um plantão? Já se viu muitas vezes com uma informação que era desconexa daquela que foi passada pelo seu colega? Hoje vamos falar sobre as técnicas de handoff e como aumentar os resultados relacionados à transferência de pacientes.

Você já se pegou alguma vez com uma informação relacionada de um paciente que você recebeu de um plantão, seja no CTI ou na emergência, e que aquela informação não batia tão bem? Ou então algum dado crucial sobre a conduta terapêutica, diagnóstica ou exame laboratorial que já foi pedido e que você tinha a impressão que era uma determinada coisa, mas quando foi ver na prática, era outra? Pois bem, todos os dias milhares de médicos trocam informações relacionadas à passagem de plantão ou transferência de pacientes de setor, não somente médicos, mas também enfermeiros e outros profissionais de saúde.

Acontece é que todos os dias estima-se que cerca de 20% dos casos têm alguma informação clínica importante que foi omitida ou mesmo corrompida. E isso pode causar um grande dano não somente ao tratamento do seu paciente, mas também elevando os gastos de saúde do seu hospital. Para evitar isso, foi desenvolvido técnicas de passagem de casos, de transferência de casos, e essas técnicas se chamam técnicas de handoff, que vem do inglês e significaria entregar em mãos, justamente passar todas as informações necessárias.

A gente acredita que os handoffs mal realizados são responsáveis por 28% dos erros de cirurgia e 20% dos eventos de má prática médica nos setores de internação. Acontece que pesquisadores notaram que os médicos durante a passagem de plantão ou transferência de um caso estão muito preocupados em detalhes como resultados de exames complementares ou plano terapêutico ou os to do’s, e ao menos dão mínima atenção relacionados na integralidade do caso.

Não que essa integralidade do caso seja essencial naquele momento, a grande questão é que a gente deve focar especificamente em como essa história é entregue e compreendida pelo receptor. Ele que acaba deturpando de alguma forma as informações ali presentes, até porque a maioria desses dados específicos de qual é o plano terapêutico, qual é o antibiótico está tomando, qual a dose, qual o exame complementar, se já fez, não fez, já está registrado dentro do prontuário. E esse receptor, ele pode voltar nesse sistema para justamente conferir algum dado ou não.

Então, a mudança comportamental, quando a gente fala de melhorar as técnicas de handoff, está justamente centrada em como o receptor vai receber aquela história, vai interpretar aquela história, e como aquela história vai passar a fazer parte da sua conduta. Acontece é que a recepção dessa história está muito relacionada a modelos cognitivos, onde as pessoas criam modelos mentais sobre cada um dos casos, é como se cada pessoa construísse uma historinha abreviada.

Dicas para a passagem de caso

E aí é nesse momento que em discursos abreviados ou que trazem elementos que não fazem sentido ou mesmo distúrbios, digo, barulho no redor ou pessoas conversando, atrapalhando, mudanças de plano naquele momento podem realmente atrapalhar o receptor em captar os principais dados ali presente para tomar as melhores decisões para o seu paciente.

Ou seja, a recordação é uma reconstrução ativa com base no modelo mental de cada pessoa, e é por isso que existem duas maneiras que a gente pode aplicar na forma de passar o handoff e receber o handoff para poder justamente melhorar a captação dessas informações para o que realmente importa, que é o tratamento do paciente. A primeira delas seria pensando justamente que muitos destes casos são complexos e envolvem pacientes com múltiplos detalhes em relação à sua história clínica.

E é normal que a gente deixe passar muitos desses detalhes principalmente a primeira vez que a gente está vendo este caso. Para melhorar essa questão, é muito fácil trazer outra pessoa que pode ser outro médico ou outro colega profissional de saúde para também receber aquelas informações. Juntos duas pessoas podem ter modelos mentais diferentes, reconstrói a sua história de uma forma com que ela fique clara o bastante e que nenhuma informação passe desapercebida, e questionamentos pertinentes sejam criados em relação àquele caso.

A segunda forma que a gente pode melhorar essa passagem de plantão, esse handoff, seria justamente o receptor transmitir um pouco do que cada parte do modelo mental é importante para ele, qual é o ponto normalmente que ele se perde, que ele deixa passar. E, dessa forma, a pessoa que está passando aquela história, ela consiga se adaptar ou entender que a complexidade de dados não deve ser transmitida numa totalidade.

Imagina, por exemplo, você está de plantão o dia todo e aí você está acompanhando um caso super difícil que chegou às 7:00 da manhã, você ficou 12 horas acompanhando aquele paciente durante o seu plantão e aí na hora que você vai passar o caso às 7:00 da noite, você já tem todos os detalhes na sua cabeça, porque você ficou o dia inteiro trabalhando com aquele paciente.

Aquela pessoa que está chegando para você talvez não consiga captar todos esses detalhes, e é por isso muito importante que você sintetize naqueles detalhes que realmente importam para a construção da história na cabeça daquela pessoa. Uma outra forma de a gente também receber cada vez melhor essa transferência de informações é a utilização de mnemônicos que não deixe passar nenhum detalhe da história que deve ser perguntada.

Essa captação de informações por perguntas é uma forma essencial que o receptor tem de construir o seu modelo mental de história que vai fazer com que ele tome as decisões para o seu paciente. Um mnemônico muito famoso é o DeMIST, que diz respeito à detalhes, M de mecanismo, I de injury, e do inglês quer dizer lesões, S de sinais e sintomas, e T de tratamento, de terapêutica.

Pegando todas essas partes da história, você vai com certeza construir um modelo mental muito mais claro e que não necessariamente precise de pequenos detalhes, e que vão fazer com que você não se confunda, por exemplo, numa passagem de plantão. Existem outras três dicas que eu vou passar para você e que também podem te ajudar muito. A primeira delas é que de maneira geral toda a equipe médica deve se incentivar e ensinar uma saída para assumir uma perspectiva de quem está chegando, ou seja, a narrativa com alto consistência pode ajudar com que o médico que está saindo construa dados ordenados para o médico que está chegando, é como se ele praticasse e tornasse como se fosse um diagnóstico mais plausível para o médico que está recebendo, é como se ele treinasse um mini pitch onde ele conta aquela história para o seu colega.

Compreender a função das perguntas é a segunda dica. Por quê? As perguntas são o que vão ajudar o modelo mental se desenvolver cada vez mais. Veja, por exemplo, você passa um caso super complexo de um paciente que poderia ter ido, por exemplo, numa intubação orotraqueal, mas você não falou nada de intubação orotraqueal, porque ele não foi para o seu colega receptor, mas acontece que o seu colega pergunta, por exemplo “Quanto estava a saturação desse paciente?” ou quanto ficou a gasometria após a intubação. Naquele momento, aquela pergunta parece implausível, incomplexa, mas no modelo mental do seu colega receptor, ela faz total sentido.

Então, analisar a pergunta e quebrar para desmistificar os dados da história realmente vão ajudar com que você tenha mais sucesso na hora de passar o caso. E, por fim, crie momentos específicos para ajudar a equipe que está chegando a se preparar para o handoff, ou seja, aquele momento da passagem de plantão, ele deve ser quase que sagrado. Você pode já antecipadamente produzir mapas mentais, como tabelas contando a história de cada caso, e já enviar para os seus colegas. Isso é muito comum em alguns hospitais, chegar por e-mail ou por Whatsapp as informações relacionadas aos casos presentes ali do hospital, e ao mesmo tempo levar os médicos que chegam, os outros colegas profissionais que chegam para um determinado espaço, onde o silêncio seja preservado e que atenção máxima esteja nessa construção do modelo mental.

Então, se você quer a partir de agora garantir que tenha sucesso na passagem do plantão, você deve seguir essas dicas, principalmente se colocando à disposição, não só para entender de forma ativa o caso que você está recebendo quando você é um receptor fazendo perguntas, tentando entender cada vez mais os pontos da história, que são pertinentes à construção do modelo mental daquele paciente e, ao mesmo tempo, se você é o colega que está transmitindo o caso, entendendo como se comportar da maneira mais adequada na transmissão daquele paciente.

Agora você já sabe o quão é importante aquele momento da troca de plantão. Obviamente você pode se atualizar com o seu colega que você não vê há um tempo falando das notícias, do dia a dia, coisas mais simples até pra dar aquela aliviada para ir para o plantão, mas é muito importante transformar um momento de passagem, de handoff, num momento quase que sagrado para a equipe que está recebendo e que está transmitindo a informação do paciente.

Isso vai causar total diferença em como você vai conduzir o caso e vai diminuir o número de dúvidas. E a gente sabe que durante o plantão, a gente sempre fica com dúvidas “Será que passou alguma formação que a gente não entendeu direito?”, “Será que era aquilo que ele queria dizer?”. Isso acontece, é super normal. Até a próxima.

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One comment

  1. Avatar

    Ótimas dicas, é um ótimo exercício a ser praticado inclusive durante o internato!

    Obrigado e gostaria de mais temas que focassem no cotidiano do médico de plantão.

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