Telemedicina: melhorando o acesso ao atendimento em diversas especialidades

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Nas últimas duas décadas houve uma grande evolução das telecomunicações utilizadas em atendimentos médicos. Juntamente com essa experiência nova, muitas pesquisas focadas em “telemedicina” foram publicadas; contudo, a maior parte delas contém experiências vinculadas somente a uma área específica do conhecimento médico.

Nesse contexto, em uma revisão da literatura publicada por Barbosa e colaboradores, eles tiveram como objetivo principal analisar o que os dados revelam sobre a utilização da telemedicina abrangendo concomitantemente diferentes especialidades médicas.

Foi constatado que existem componentes dos cuidados de saúde que são claramente passíveis de intervenção através da telemedicina. Ela consegue transpor barreiras para o paciente — solucionando problemas como longas distâncias ou a dificuldade de locomoção— além disso, ela consegue melhorar o fornecimento dos serviços — por exemplo, diminuindo a carência de profissionais disponíveis para atendimento — e também auxilia reduzindo drasticamente o tempo de espera para uma consulta.

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Também foi notado que conforme as ferramentas vinculadas à telemedicina evoluem o cuidado médico eventualmente ganhará mais descentralização, com modelos centrados no cuidado domiciliar e menos embasados em instituições médicas de longa permanência — o que diminui hospitalizações e custos desnecessários.

Por outro lado, grandes limitações encontradas na literatura sobre a telemedicina falam a respeito da impossibilidade de ser realizado um exame físico completo, da dificuldade maior em criar um vínculo com o paciente e da fragmentação do cuidado.

A fim de analisar olhares distintos sobre a vivência dessa ferramenta tecnológica, os autores escolheram então quatro situações: Acidente Vascular Encefálico, Insuficiência Cardíaca, Diabetes e Gestação.

Acidente Vascular Encefálico

Afetam anualmente setecentos e noventa e cinco mil pessoas nos Estados Unidos gerando um custo de mais de quarenta bilhões de dólares. O “telederrame” é utilizado como um sistema do tipo “hub-and-spoke”, em que a história clínica e os exames do paciente são direcionados a um ponto central (que possui um especialista no assunto) para análise e tomada de decisões de pacientes que estão em localizações mais remotas. Esse sistema provou melhorar a acurácia diagnóstica, diminuir o tempo para uma eventual trombólise e reduzir a necessidade de remoções dos pacientes. Após o alto custo para instaurar esse sistema de tratamento guiado por telemedicina, ele revelou ter melhor custo-benefício, tanto para o hospital quanto para os pacientes. Ademais, esse tipo de abordagem também facilitou a reabilitação após a fase aguda do AVE, com os pacientes apresentando escores melhores de capacidade funcional do que com o cuidado usual.

Insuficiência Cardíaca

É também uma situação clínica altamente prevalente em que a telemedicina se mostrou eficaz em reduzir as readmissões hospitalares do paciente após um evento agudo inicial. O manejo do doente com o auxílio de videoconferências facilitou o tratamento adequado e o uso correto dos fármacos. Existe até mesmo a possibilidade de um sensor ser implantado para avaliar constantemente a pressão na artéria pulmonar do paciente. Ele envia os valores pressóricos para o médico especialista e melhora o acompanhamento e desfecho do caso.

Diabetes

Atinge mais de trinta milhões de pessoas nos EUA e custa cerca de duzentos e quarenta e cinco bilhões de reais anualmente. Essa doença consegue englobar inúmeras aplicações da telemedicina — desde videoconferências até gerenciamento dos dados do paciente em nuvem. Em certas circunstâncias, a abordagem através da telemedicina mostrou ser até melhor que o acompanhamento tradicional. Por exemplo, pacientes que receberam visitas virtuais tiveram uma queda maior na hemoglobina glicada quando comparados com pacientes sem acompanhamento à distância.

Gestação

Desde aplicativos de celulares, visitas virtuais de pré-natal e aparelhos de monitorização remota, existem fortes evidências de que a telemedicina consegue promover melhores desfechos para o binômio mãe-bebê. Em casos como diabetes gestacional e tabagismo durante a gravidez, estudos mostraram que consultas virtuais periódicas melhoraram o perfil glicêmico materno e promoveram grande impacto na redução do uso de tabaco.

Direções futuras

O artigo conclui — após a discussão baseado na análise dessas quatro condições clínicas que foram escolhidas intencionalmente — que benefícios semelhantes podem ser aplicados em diversos cenários médicos através do uso consciente da telemedicina. Em contrapartida, as limitações abrangem tanto os profissionais da área da saúde quanto os pacientes e envolvem barreiras legais, sociais e financeiras. Por exemplo, pacientes que moram em áreas rurais podem ter maiores dificuldades com o acesso à tecnologia necessária para realizar as consultas; o doente pode não ter as habilidades necessárias para utilizar as ferramentas dentro da telemedicina; o custo de um sistema de atendimento virtual por um especialista pode ser alto demais para ser implantado; ou até mesmo podem existir inúmeros entraves legais que dificultam o uso em larga escala da telemedicina.

Saiba mais: Os médicos pretendem usar telemedicina pós-pandemia?

Como recomendações finais para que a telemedicina consiga de fato promover uma revolução dentro dos sistemas de saúde, o artigo ressalta a necessidade de facilitar o acesso à internet de qualidade especialmente na zona rural; melhorar a educação dos pacientes sobre a viabilidade desse meio alternativo ao tradicional e seu uso correto; incentivar a ampla incorporação da telemedicina; e ainda manter os estudos sobre o tema para o maior esclarecimento da comunidade através de evidências de qualidade.

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André Aranda

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