Telemedicina na Reumatologia Pediátrica: novas formas de prática clínica

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O atual cenário de pandemia da Covid-19 forçou rápidas mudanças de paradigmas quanto ao uso da telemedicina na prática clínica, nesse contexto, tal recurso também tem sido adotado no campo de reumatologia pediátrica em vários centros. Shenoi e colaboradores publicaram um comentário na revista Pediatric Rheumatology, em outubro de 2020, discutindo dicas práticas para os reumatologistas pediatras que estão se adaptando ao uso da telemedicina.

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Considerações administrativas e governamentais

As questões administrativas e governamentais diferem de país para país. É importante obter-se consentimento, uma vez que não há contato pessoal e exame físico. A privacidade e a confidencialidade das informações coletadas devem ser asseguradas, e restritas aos profissionais essenciais ao atendimento remoto — isso pode incluir um representante em pessoa, equipes de suporte virtual, outros especialistas e membros da equipe multidisciplinar. Muitos sistemas de registro eletrônico em saúde dispõem de módulos de telessaúde; além deles, existem vários fornecedores comerciais (ex.: Zoom) que oferecem plataformas de vídeo com conformidade de privacidade standalone (software autossuficientes, que não necessitam de um software auxiliar — como um interpretador — para serem executados). Problemas relacionados à propriedade de dados e segurança variam de acordo com a região do mundo, dependendo se a telemedicina é considerada um serviço de saúde ou de informação. Dessa forma, é importante revisar o contrato de serviços, uma vez que os fornecedores podem ter políticas diferentes. Tanto os sistemas de registro em saúde quanto os fornecedores comerciais permitem registro com fotografias e possibilidade de comunicação assíncrona (que não ocorre em tempo real). A cobrança pode ser realizada de forma semelhante às consultas presenciais (cartão de crédito, transferência bancária, etc). O valor/hora das consultas de telemedicina é maior do que das consultas presenciais, devido às limitações relacionadas à realização do exame físico.

Considerações práticas

Preparação

A preparação é fundamental para o bom andamento da consulta, e inclui analisar questões relacionadas ao provedor, envolver a equipe multidisciplinar (de acordo com a necessidade) e assegurar que a família tenha o equipamento e as informações necessárias para a realização do atendimento.

Seleção de pacientes

Pacientes estáveis podem ser avaliados por consultas on-line periodicamente. O exame articular virtual de pacientes muito jovens (< 3 anos) é bastante desafiador, mas uma consulta só com o cuidador para discutir sintomas ou efeitos colaterais de medicações é possível de ser realizada.

O exame físico virtual

O pGALS é uma ferramenta simples validada para a realização do exame musculoesquelético básico; uma adaptação proposta para sua utilização na telemedicina é o Vídeo-pGALS (V-pGALS). O V-pGALS oferece uma abordagem estruturada, que foca principalmente na amplitude do movimento e na simetria. Os pais ou cuidadores podem ser utilizados para dar informações sobre dados que estejam óbvios no exame físico, como aumento de temperatura ou edema articular, e palpação de pontos de maior dor. Para pacientes com miosite ou queixas musculares, o Childhood Myositis Assessment Score (CMAS) pode ser facilmente realizado através das plataformas virtuais.

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A consulta em si

Uma ligação antes da consulta agendada ajuda a preparar a família a respeito da tecnologia e permite a coleta de informações (peso, estatura, alergias, medicações). No início da consulta, obter consentimento é importante. Documentação das discussões com a família e mecanismos para garantir que as orientações sejam coordenadas e executadas é essencial.

Clínicas multidisciplinares

Algumas plataformas possibilitam que vários prestadores de cuidados utilizem o consultório virtual. Essa ferramenta é útil por permitir que vários profissionais, que estão em diferentes localizações geográficas, consigam interagir em prol do cuidado com o paciente.

Oportunidades de ensino

Durante o teleatendimento é possível receber um estagiário na sala virtual para acompanhar a consulta. Essa é uma oportunidade para o estagiário observar a coleta da história clínica, a realização do exame físico e as habilidades de comunicação do médico assistente.

Conclusão e aspectos futuros

A pandemia do Covid-19 proporcionou uma oportunidade de expandir a telemedicina na reumatologia. Com isso, grandes oportunidades de conexão, educação e treinamento surgem e adquirem grande importância, especialmente para áreas do mundo em que não há acesso ao especialista.

Ainda é necessário avaliar a validade e a qualidade do cuidado via telemedicina na reumatologia, a experiência do médico e da família, e a validade das técnicas de exame físico, como o V-pGALS e o CMAS.

A pandemia trouxe muitos danos econômicos e na saúde, o que impulsionou a busca por soluções pragmáticas para os cuidados em saúde. Essa oportunidade permite a colaboração entre os provedores, os médicos e a família no desenvolvimento de um modelo de acompanhamento que utiliza a tecnologia para complementar os cuidados tradicionais com a saúde, além de ampliar o acesso a um número maior de crianças.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Shenoi S, et al. Telemedicine in pediatric rheumatology: this is the time for the community to embrace a new way of clinical practice. Pediatric Rheumatology. 2020;18(85). doi: 1186/s12969-020-00476-z
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