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Terapia biológica na doença inflamatória intestinal

Tempo de leitura: 4 minutos.

O termo doença inflamatória intestinal (DII) é, na verdade, um conjunto de doenças que envolve todo o trato digestivo (“da boca ao ânus”), mas acometendo principalmente os intestinos delgado e grosso. As principais manifestações são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU). Caso não apresente características específicas para qualquer uma dessas, consideramos como colite inespecífica. Eventualmente, essa colite inespecífica evolui e adquire as características para ser denominada como DC ou RCU. Muitos pacientes permanecem com o diagnóstico de colite inespecífica, o que não influi no tratamento, na verdade.

Recebi nas últimas semanas pacientes novos, alguns foram diagnosticados com colite inespecífica e se apresentaram com muitas dúvidas e angústias. Alguns deles já vieram com o questionamento sobre “o tratamento das injeções”. Esse tratamento com as injeções nada mais é do que o tratamento com a terapia biológica, que revolucionou principalmente o tratamento da DC.

Antes da terapia biológica, o nosso objetivo era a remissão clínica e endoscópica. Hoje nosso objetivo é a remissão histológica, com cicatrização completa da mucosa. Isso é obtido com a redução da atividade das células T e indução da apoptose das células de defesa.

Antes de começar a terapia biológica, há a necessidade de um severo rastreio de microrganismos latentes: PPD, sorologias para HIV, hepatites, CMV; além de função hepática, marcadores de lesão hepática e canalicular, entre outros. Caso a investigação para microrganismos oportunistas seja positiva, deverá ter o início da terapia avaliado caso a caso. Por exemplo, podemos tratar o paciente para tuberculose, se o PPD for forte reator. Também devemos avaliar comorbidades dos pacientes, tratar outras infecções ativas (como candidíase) e atualizar calendário vacinal (pneumococo, hepatites, HPV, tétano, difteria, influenza, varicela) antes do início da terapia biológica.

Assim, esse tratamento não é para todos os pacientes. Tem indicação precisa para alguns casos, como a DC fistulizante ou DC perianal. Neste último caso, a terapia convencional não tem o efeito desejado. Outros que se beneficiam do tratamento são os pacientes com quadros de colite graves ou refratários ao tratamento convencional. Isso porque, com a imunossupressão fornecida pela medicação, eles ficam mais suscetíveis a infecções oportunistas ou manifestações mais graves de doenças.

Mais da autora: ‘A dor do pós-operatório também depende de nós’

Devemos sempre discutir com o paciente sobre riscos e benefícios da terapia, pois há risco aumentado para desenvolvimento de infecções por patógenos intracelulares, principalmente a tuberculose, reativação de hepatite B crônica, reações alérgicas agudas ou crônicas, alteração semelhante à doença do soro, linfoma não Hodgkin, doenças neurológicas e agravamento de insuficiência cardíaca.

Os principais biológicos na terapia da DII são os anti TNF. O bloqueio do TNF impede a produção de outras citocinas pró-inflamatórias como IL-1 e IL-8. Os liberados para uso no Brasil são o Infliximabe (INF) e o adalimumabe (ADA). O INF é um anticorpo monoclonal do tipo IgG1 quimérico (tem 25% de proteína de camundongo), que impede a quimiotaxia entre os macrófagos e as células T. Também induz a apoptose das células T. É administrada pela via intravenosa, a cada 8 semanas após a remissão. Já o ADA é um anticorpo totalmente humano, que induz a apoptose das células T. É administrado pela via subcutânea, e tem o mesmo intervalo de aplicação que o INF.

Recentemente, foi liberado o uso do vedolizumabe, que é um anticorpo IgG4, humanizado, que não utiliza a via do TNF. Ele se liga ao complexo integrina alfa-4-beta-7, bloqueando a molécula de adesão celular, que impede a migração leucocitária para o intestino. É administrado uma vez ao mês.

Qual deles é melhor? Pergunta ainda sem resposta. Deverá ser avaliado, caso a caso, qual será a melhor forma de administração e discutido com o paciente. Normalmente todas as drogas são realizadas em centros de infusão especializados.

Então, o que fazer com o paciente que chega ao consultório perguntando sobre “as injeções”? Deverão ser discutidos com o paciente os riscos e benefícios da terapia, avaliar caso a caso se o paciente realmente necessita de tal terapêutica, se ele é comprometido com o tratamento (o paciente torna-se imunossuprimido “grave”). Um paciente que falta às consultas, não faz os exames, possivelmente não será um bom candidato à terapia. Normalmente otimizamos a terapia oral e caso mesmo em doses altas ou em complicações graves da doença é que iniciamos a terapia biológica.

Assim, a terapia biológica é excelente para o paciente que tem uma indicação precisa, pois podemos ver a melhora clínica e, principalmente, a melhoria da qualidade de vida do mesmo.

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Autora:

Referências:

  • Doença inflamatoria intestinal – 2 edição. W.S. Cardozo e C.W. Sobrado. Manole
  • Como nao tratar a doença inflamatoria intestinal – 1 edição. Cyrla Zaltman e Marco Antonio Zeroncio. Spring Health do Brasil

3 Comentários

  1. Oi boa noite! Gostaria de me apresentar, meu nome é Rosimar fui diagnosticada com colite pseudomembranosa e retite crônica leve. Porém estou tendo quadros de dores e sangramento frequentes os médicos da minha cidade acham estranho porém nada fazem para descobrir o que realmente é!
    Preciso da sua ajuda por favor.

    • Ana Carolina Pomodoro

      Olá, Rosimar. Sou Ana Carolina, médica e colunista da Pebmed. Entendemos e lamentamos por seu relato, mas nosso portal é um canal de comunicação para atualização médica. É necessário que faça uma consulta presencial com um especialista, como a Dra Yara Mendonça. Por aqui não emitimos opinião pessoal. Agradecemos pela compreensão.

  2. Rita Ribeiro

    Qual o tempo médio de tratamento com terapia biológica? História pregressa de toxoplasmose é uma contra indicação? Ou quais as contra indicações para este tratamento?

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