Tocilizumabe tem eficácia como tratamento da Covid-19?

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As evidências que mostram que uma resposta inflamatória exacerbada estaria envolvida na patogênese da doença grave por Covid-19 levaram ao estudo do uso de medicações que teriam ações anti-inflamatórias como possíveis agentes terapêuticos contra a doença.

Enquanto o uso de corticoides permanece controverso, apesar de as recomendações oficiais ainda não indicarem seu uso somente pela infecção por SARS-CoV-2, o uso de tocilizumabe passou a chamar atenção da comunidade científica.

O que é o composto?

Tocilizumabe é um anticorpo monoclonal recombinante humanizado com capacidade para se ligar ao receptor de IL-6 com alta afinidade. Atualmente, seu uso principal é como agente biológico no tratamento de artrite reumatoide refratária às drogas modificadoras de doença sintéticas. O princípio de sua ação na infecção por SARS-CoV-2 seria não permitir a ligação da IL-6 produzida ao seu receptor e, com isso, impedir a deflagração da cascata de citocinas pró-inflamatórias associadas aos quadros graves de Covid-19.

Tocilizumabe na Covid-19

Uma publicação mostra os resultados do uso de tocilizumabe em pacientes com Covid-19 grave, fazendo uma análise prospectiva de diversos parâmetros. Foram 21 pacientes com idades entre 25 e 88 anos (média de 56,8), sendo 18 (85,7%) homens. A avaliação inicial era que 17 pacientes (81%) apresentavam quadro grave — definido como a presença de FR ≥ 30 irpm, sO2 ≤ 93% em ar ambiente ou P/F ≤ 300 — e 4 (19%), quadro crítico — definido como insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica, choque ou necessidade de admissão em UTI com falência orgânica.

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A maioria dos pacientes (85,7%) recebeu uma única dose da droga. Enquanto 3 pacientes (14,3%) receberam uma dose adicional devido à febre nas primeiras 12h de tratamento. Além do anticorpo, todos os pacientes receberam combinação de lopinavir/ritonavir, interferon-alfa e ribavirina, além de corticoide.

Todos os pacientes apresentaram febre como um dos sintomas iniciais. A média de tempo entre o início de febre e o desenvolvimento de dispneia foi de 5,6 dias. Dos 21 pacientes, 20 necessitaram de terapia suplementar de oxigênio: terapia com oxigênio de alto fluxo em 9 (45%), cânula nasal em 7 (35%), máscara de oxigênio e VNI em 1 paciente cada (5% cada) e ventilação invasiva em 2 (10%). Todos os 21 pacientes apresentavam alterações tomográficas que pioraram em tamanho, extensão e gravidade nos primeiros sete dias de internação hospitalar e antes de receber tocilizumabe.

Resultados

Os autores destacam que todos os pacientes se tornaram afebris no primeiro dia após o tratamento com tocilizumabe, sem retorno de febre posteriormente. Também houve melhora clínica de sintomas nos dias subsequentes. Quinze dos 20 pacientes em oxigenoterapia (75%) reduziram o fluxo nos 5 dias após o tratamento. Os 2 pacientes que estavam em ventilação mecânica foram retirados de prótese com sucesso, sendo um no quinto e outro no décimo primeiro dia após o tratamento.

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Normalização de parâmetros laboratoriais, como valores séricos de PCR e leucograma, também foi observada. Imagens comparativas mostraram reabsorção das lesões em 19 pacientes (90,5%). Em comparação aos valores iniciais, os níveis de IL-6 não apresentaram redução significativa a curto prazo após a administração de tocilizumabe. Todos os pacientes receberam alta, em média 2 semanas após o tratamento. Eventos adversos graves e infecções concomitantes não foram relatadas.

Considerações finais

Embora os resultados sejam animadores, deve-se lembrar que se trata de uma amostragem pequena e sem grupo controle. Os próprios autores reconhecem que vieses importantes podem estar presentes.

Um fato que se destaca é que os pacientes receberam corticoide e uma combinação de agentes com potencial ação contra SARS-CoV-2 de forma concomitante ao uso de tocilizumabe. A relação temporal entre a administração da droga e as evidências de melhora clínica e laboratorial citadas no estudo favorecem a associação de seu uso e os desfechos avaliados. Entretanto, sem a presença de um grupo controle, não se pode determinar se os resultados benéficos foram decorrentes do anticorpo monoclonal.

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