Reumatologia

Tofacitinibe pode ser usado na espondilite anquilosante?

Tempo de leitura: 3 min.

O tofacitinibe (TOFA) é uma medicação que inibe, predominantemente, a Janus quinase (JAK)-1 e 3. Essa via é importante na sinalização intracelular de diversas citocinas da imunidade inata e adaptativa.

Essa medicação já demonstrou sua eficácia no tratamento da artrite reumatoide, artrite psoriásica, retocolite ulcerativa e artrite idiopática juvenil poliarticular. Estudos de fase 2 demonstraram eficácia e segurança do TOFA no tratamento de pacientes com EA nas doses 5 e 10 mg bid. Deodhar et al. publicaram recentemente os resultados do primeiro estudo de fase 3 do uso de TOFA no tratamento da espondilite anquilosante (EA).

Leia também: Tofacitinibe em pacientes hospitalizados com pneumonia por Covid-19

Métodos

Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controlado, de fase 3, que envolveu 75 centros de 14 países. Foram incluídos pacientes com 18 anos de idade ou mais, com diagnóstico de EA (critérios modificados de Nova Iorque) em atividade (BASDAI ≥4 + dor axial ≥4), apesar do uso de ≥2 AINEs. O estudo foi desenhado para incluir 80% de pacientes virgens de tratamento com biológicos e 20% com uso prévio de biológicos (interrompidos ≥4 semanas ou ≥5 meias-vidas antes da randomização).

Os critérios de exclusão foram uso prévio ou atual de inibidores da JAK e uso atual de biológicos. Foi permitido que pacientes que estavam em uso de AINEs, metotrexato, sulfassalazina e corticoide (prednisona ≤10 mg/dia) mantivessem essas medicações, desde que em doses estáveis.

O estudo foi desenvolvido em 2 fases: a fase duplo-cega, que ocorreu entre as semanas 0 e 16 (TOFA 5 mg bid vs. placebo); e a fase open-label, que ocorreu entre as semanas 16 e 48 (todos receberam TOFA 5 mg bid).

O desfecho primário escolhido foi a resposta ASAS20 na semana 16. O desfecho secundário principal foi a resposta ASAS40 na semana 16. Uma grande quantidade de parâmetros foi analisada como desfechos secundários, incluindo eventos adversos.

Resultados

Foram incluídos 269 pacientes (133 no grupo TOFA e 136 no grupo placebo). A maioria dos pacientes eram brancos (~80%), do sexo masculino (~80-85%), HLA-B27 positivos (86-88%) e com PCR elevado (~70%). A duração média de sintomas era de aproximadamente 14 anos, com BASDAI médio >6.

Saiba mais: Consulta pública para atualização do tratamento de espondilite anquilosante no SUS

Na semana 16, pacientes em uso de TOFA apresentaram resposta ASAS20 mais frequentemente que pacientes no grupo placebo (56,4% vs. 29,4%, p<0.0001). O mesmo ocorreu na resposta ASAS40 (40,6% vs. 12,5%, p<0,0001).

Na segunda fase do estudo, os pacientes que fizeram o crossover do placebo para o TOFA 5 mg bid aumentaram a frequência de respostas ASAS20 e ASAS40, se aproximando do grupo que fez uso do TOFA desde o início do estudo.

O número de eventos adversos foi baixo, com 2,3% de alterações hepáticas, 2,3% de herpes-zóster não grave e 0,8% de infecções graves no grupo tofacitinibe (TOFA). No grupo crossover, 1,5% dos pacientes apresentaram herpes-zóster não grave. Não foram evidenciados nenhuma morte, evento cardiovascular, evento tromboembólico ou infecção oportunistas.

Comentários

Atualmente, temos disponíveis apenas dois grupos de medicamentos aprovados para o tratamento das manifestações axiais da EA refratária ao uso de AINEs. Dentre eles, temos os anti-TNF e os anti-IL17A.

Os autores demonstraram que o TOFA é eficaz e seguro no tratamento da EA. Dessa forma, a aprovação do TOFA no tratamento EA significaria um aumento nas opções terapêuticas para essa doença, que poderia beneficiar especialmente pacientes refratários a essas duas classes.

Como último comentário, devemos lembrar que alguns resultados preocupantes com relação à segurança do uso de tofacitinibe (TOFA) em pacientes com AR >50 anos foram publicados recentemente (vide: Resultados preocupantes em relação à segurança do tofacitinibe são publicados). Dessa forma, caso opte pelo uso dessa medicação (se aprovada), o médico deve rastrear ativamente essas questões no seu paciente.

Referências bibliográficas:

  • Deodhar A, Sliwinska- Stanczyk P, Xu H, et al. Tofacitinib for the treatment of ankylosing spondylitis: a phase III,  randomised,  double- blind,  placebo- controlled study. Ann Rheum Dis. 2021;80:1004-1013. doi10.1136/annrheumdis-2020-219601
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Publicado por
Gustavo Balbi

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