Transplantes de microbiota fecal mostram promessa no tratamento de alergias alimentares

Os transplantes de microbiota fecal permitiram que algumas pessoas com alergia grave ao amendoim consumissem sem reação alérgica.

Os transplantes de microbiota fecal (FMT) permitiram que algumas pessoas com alergia grave ao amendoim consumissem até dois amendoins sem qualquer reação alérgica, mostram os primeiros resultados de recentes ensaios clínicos.

Segundo a revista científica Living Allergic, os pesquisadores dizem que as descobertas são promissoras e podem levar a “uma terapia do microbioma” como uma nova opção de tratamento para indivíduos com alergias alimentares. Os ensaios clínicos adicionais estão planejados para o final deste ano.

transplante de microbiota fecal

Terapia do microbioma

No estudo de Fase 1, dez adultos alérgicos ao amendoim consumiram cápsulas contendo fezes congeladas e processadas de doadores não alérgicos. As cápsulas são insípidas e as fezes são cuidadosamente examinadas para estarem livres de patógenos.

No início do estudo, os participantes reagiram a 100 miligramas de amendoim (cerca de meio amendoim) ou menos. Quatro meses depois, três dos dez participantes conseguiram consumir 300 miligramas de amendoim (um amendoim inteiro) antes de apresentar sintomas de uma reação alérgica.

“Nós mostramos que podemos usar transplante fecal em pacientes altamente alérgicos para aumentar sua tolerância à proteína do amendoim”, disse o médico Rima Rachid, investigador principal e codiretor do Programa de Alergia Alimentar do Hospital Infantil de Boston.

Cinco pacientes adicionais receberam antibióticos antes do TMF e tiveram uma resposta ainda melhor. Após quatro meses, três dos cinco consumiram até 600 miligramas de amendoim (dois amendoins) antes de ter uma reação. Ao matar os micróbios intestinais existentes, os antibióticos podem abrir um “nicho” para as bactérias benéficas dos doadores não alérgicos se estabelecerem, explicou Rima Rachid.

O médico esclareceu que os antibióticos diminuem a carga de bactérias no intestino e há uma chance maior de o microbioma não alérgico se implantar e ter efeito. “Com os antibióticos, houve uma resposta melhor em geral”, acrescentou.

Estudos anteriores

Estudos anteriores sugeriram que o microbioma intestinal interage com o sistema imunológico e pode desempenhar um papel no desenvolvimento de alergias alimentares.

Um estudo de Rachid publicado na Nature Medicine, em 2019, encontrou diferenças no conteúdo bacteriano nos intestinos de bebês com e sem alergias alimentares. Quando os pesquisadores transplantaram as fezes dos bebês em camundongos geneticamente modificados para serem alérgicos ao ovo, os que receberam as bactérias fecais dos bebês alérgicos entraram em anafilaxia quando comeram a proteína do ovo. No entanto, camundongos transplantados com bactérias fecais de bebês não alérgicos não foram afetados.

Diagnóstico e tratamento

A colite infecciosa pela bactéria Clostridioides difficile é uma complicação da antibioticoterapia, que pode estar associada à diarreia, cólicas abdominais e, menos frequentemente, febre. O diagnóstico é baseado em um teste de DNA de fezes.

Os antibióticos utilizados para o tratamento desta infecção incluem metronidazol, vancomicina e fidaxomicina. Em 30% dos pacientes tratados, a infecção retorna dentro de alguns dias ou semanas após o término do curso do antibiótico. Nos indivíduos que continuam a ter colite recorrente por C. difficile, o transplante fecal é uma opção.

Um estudo publicado em 2013, no New England Journal of Medicine, mostrou que o transplante fecal é mais eficaz do que a vancomicina oral na prevenção de novas recorrências em indivíduos que já tiveram colite recorrente por C. difficile.

Leia também: Novo guideline para tratamento de infecções por Clostridioides difficile

Etapas do procedimento

1. Escolha do doador

“O doador pode ser parente ou não do paciente. Este deverá passar por uma análise infecciosa rigorosa e um questionário para ter certeza que o doador das fezes para o transplante não tenha nenhuma doença transmissível”, explicou Flavio A Quilici.

2. Coleta, preparação e administração do material

O tempo ideal entre a coleta das fezes e a infusão do material é de seis horas. O peso fecal deve ser no mínimo de 50g e o volume total da suspensão é de 100 a 200 mL, que será infundido a depender da rota escolhida. Há opção de congelamento do material, mas é preferível a utilização de fezes frescas.

3. Administração

O procedimento pode ser realizado por endoscopia digestiva alta com sonda nasogástrica/nasoenteral, enteroscopia anterógrada, colonoscopia, retossigmoidoscopia e enema.

“As fezes do doador, em geral, são introduzidas no receptor por sonda nasogástrica, por colonoscopia ou por cápsulas de fezes”, informou o gastroenterologista.

No Brasil

No momento, há somente uma indicação permitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a realização de um transplante de microbiota fetal no Brasil, que é para o tratamento da colite infecciosa pela bactéria Clostridioides difficile.

“A vantagem dessa única indicação é a cura de mais de 90% dos pacientes com, praticamente, a ausência de efeitos colaterais”, afirmou o professor titular de Gastroenterologia e Cirurgia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC), Flávio A Quilici, ex-presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia e das Sociedades Brasileiras de Endoscopia Digestiva e Coloproctologia, em entrevista ao Portal PEBMED.

O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é o primeiro no país a ter um Centro de Transplante de Microbiota Fecal, vinculado ao Laboratório de Pesquisas/Banco de Tumores e Tecidos do Instituto Alfa de Gastroenterologia (IAG) do HC-UFMG.

O instituto foi um dos primeiros a manter um banco de fezes no Brasil e abriu um processo de análise e seleção de pacientes para a realização do primeiro transplante.

A equipe multiprofissional do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (Hupaa), liderada pelo professor e médico Manoel Álvaro, já realizou seis intervenções no Hospital Federal de Alagoas, como fase inicial de um grande estudo a partir do repositório de material biológico, no caso, as fezes.

“Outras doenças, como a obesidade mórbida, diabetes tipo 2, síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal autismo, depressão, e Parkinson também podem ser tratadas através desta alternativa, porém, ainda não é um consenso. E esse é um dos nossos objetivos: realizar, futuramente, esta opção nessas outras afecções”, disse Manoel Álvaro, em entrevista ao portal da Universidade Federal de Alagoas.

O tratamento promete ser um divisor de águas para os pacientes que poderão deixar de tomar medicações caras, com efeitos adversos e resultados que não são totalmente eficazes.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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