Ginecologia e Obstetrícia

Transplante de útero e suas complexidades 

Tempo de leitura: 3 min.

O transplante de útero já é uma realidade estudada há aproximadamente 20 anos, a Suécia é o país pioneiro que investiga a combinação da fertilização in vitro com o transplante de útero (UTx-FIV).

No ano de 2019, foi relatado que 14 crianças em todo o mundo haviam nascido como resultado de UTx-IVF, sendo 9 delas por mulheres que participavam de um projeto de pesquisa no país.

Leia também: Eliminando o câncer de colo de útero em tempos de Covid-19

Até o momento, os especialistas destacam que é preferível que a doadora seja a mãe da receptora, tia materna ou paterna ou irmã mais velha, deixando claro que pode ser possível no futuro usar o útero de uma pessoa não aparentada, dita altruísta, doador.  Mas o que é preciso para pedir um útero a alguém? Que desafios esta pergunta instiga? E que normas pode estabelecer? 

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Tema em pauta no British Medical Journal

No último ano, o British Medical Journal (BMJ) publicou um artigo que discutiu as expectativas das mulheres que anseiam pelo transplante de útero, e os conceitos éticos que extrapolam as dimensões de gêneros, bem como as escolhas de doadores vivos versus falecidos. 

O artigo destaca que antropólogos analisaram as maneiras pelas quais a fertilização in vitro (FIV) pode desafiar os conceitos tradicionais de parentesco, e como o transplante de útero pode permitir novas formas de escolha reprodutiva, e novas formas de solidariedade feminina. Mas ressalta também que as UTx-IVF podem fomentar formas de dominação, controle e subordinação, por exemplo, por meio do tráfico de órgãos humanos e serviços corporais.

O desapego do órgão parece ser o caminho

Os especialistas defendem a ideia de que a transferência de um órgão requer um desapego, algo que na prática é desafiador. Esforços combinados e sistemáticos têm sido feitos para desvincular os órgãos de seus doadores, tentando transformá-los em algo que os torna mais como bens do que presentes. 

Saiba mais: Transplante de útero, até onde vai o desejo de gestar?

A doação de órgãos vivos exige negociações relacionais, pois envolve um procedimento não terapêutico e arriscado realizado em um indivíduo saudável (o doador), que, além disso, muitas vezes tem um relacionamento próximo com o receptor, como pai, filho ou irmão.

O comprometimento psicológico das partes

O artigo entrevistou 10 mulheres com patologias de comprometimento uterino e dispostas à submeter-se a UTx-IVF. Ele mostra que existe o risco de pressão e carga emocional tanto para o doador quanto para o receptor, detalha as circunstâncias especiais da doação de órgãos vivos entre parentes e esclarece as dificuldades associadas a pedir um órgão a alguém próximo a você. 

A maioria das pacientes elegem a mãe como a primeira doadora em potencial. Mas, muitas vezes a mãe da receptora pode sentir-se pressionada a fazê-lo como uma “prova de amor” mesmo que esse não seja seu desejo. 

Pedir a alguém — seja uma mãe, irmã ou outra pessoa — um útero envolve muitas considerações e negociações. Conforme as entrevistadas descreveram sua busca, elas mostraram que questões no relacionamento não apenas podem ocorrer, mas podem preceder o transplante, e podem perdurar quando o transplante não ocorre ou não é bem-sucedido. 

O lado do doador 

A “obviedade” da doação materna não leva em conta os muitos significados e emoções ligados ao útero, expressos, em outras ocasiões como por exemplo, por aqueles que nascem sem um, ou por mulheres histerectomizadas. As experiências nessas mulheres apontam para a importância de não se considerar o útero apenas como um recipiente destinado a carregar uma gravidez, mas para investigar mais a fundo o significado emocional desse órgão em relação a diferentes compreensões culturais afirmação do corpo e do gênero.

Sendo assim, mesmo que toda tecnologia esteja avançando para cada vez mais termos sucesso em relação aos procedimentos cirúrgicos de transplante uterino bem como das técnicas de reprodução assistida, muito ainda é necessário se discutir sobre regras, suporte psicológico e ética neste enredo da UTx-IVF.

Autor(a):

Referencias bibliográficas:

  • Guntram L. May I have your uterus? The contribution of considering complexities preceding live uterus transplantation, Medical Humanities. Published Online First. 24 February 2021. doi: 10.1136/medhum-2020-011864
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Publicado por
Juliana Olivieri

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