Tratando cefaleia aguda: protocolo 2018 da ABN

O departamento científico de Cefaleia da ABN e a SBCe decidiram produzir um protocolo nacional para diagnóstico e manejo das cefaleia.

O Portal PEBMED é destinado para médicos e demais profissionais de saúde. Nossos conteúdos informam panoramas recentes da medicina.

Caso tenha interesse em divulgar esse conteúdo crie um perfil gratuito no AgendarConsulta.

Tempo de leitura: [rt_reading_time] minutos.

Como 13 milhões de brasileiros possuem cefaleia crônica e mais de 94% das pessoas terão, pelo menos, um episódio de cefaleia na vida, esta é a 3ª queixa mais frequente no ambulatório de Clínica Médica e ocupa o 4º lugar nas unidades de urgência. No entanto, em vez de medicações mais adequadas, existe o uso indiscriminado de cortisona e opioides; estes, além de nem sempre funcionarem bem, podem provocar dependência.

Devido a este cenário, o departamento científico de Cefaleia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e a Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) decidiram produzir um protocolo nacional para diagnóstico e manejo das cefaleias, a fim de uniformizar o atendimento de quatro tipos principais de cenário, fornecendo instruções gerais básicas para o atendimento primário. Trazemos aqui um resumo deste protocolo:

CENÁRIO 1: CEFALEIA AGUDA RECORRENTE

Etiologias possíveis, sintomas mais típicos e conduta sugerida:

  • Cefaleia tensional: não pulsátil, intensidade leve a moderada, sem quadro relevante de náuseas/vômitos, podendo haver foto/fonofobia; exame neurológico sem alterações marcantes.

◦ Medicamentos: analgésicos (paracetamol 750-1.000 mg até 6/6 h; dipirona 500 1.000 mg até 6/6 h) e/ou anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs: ibuprofeno 400-800 mg até 6/6 h; diclofenaco 50 mg até 8/8 h; cetoprofeno 50 mg até 6/6 h; naproxeno sódico 500 mg dose inicial e 250 mg até 6/6h);

◦ Associações com cafeína aumentam a eficácia analgésica;

◦ Se não há resposta em 1 ou 2 horas com uma medicação, pode-se usar outra.

  • Enxaqueca: forte intensidade, pulsátil, unilateral, com náuseas/vômitos, podendo haver foto/fonofobia, exacerbada por atividades físicas.

◦ Antiemético parenteral, se vômitos (dimenidrato 30mg IV, diluído em 100ml de soro fisiológico (SF a 0,9%) ou dimenidrato 50mg IM; dipirona 1g (2ml) IV, diluído em água destilada (8ml);

◦ cetoprofeno 100mg IV diluído SF a 0,9% (100ml) ou 100mg IM;

◦ se não melhorar em 1h, sumatriptano 6mg SC (1 seringa com 0,5ml), repetindo a dose, se necessário, em 2 horas.

  • “Estado migranoso”: quadro de enxaqueca há mais de 72 horas.

◦ usar medicações sugeridas acima, associadas a dexametasona 10mg, IV lento (ampola 10mg/2,5ml) e SF a 0,9% 500ml;

◦ se não melhorar, pode ser prescrito clorpromazina 0,1-0,25mg/kg IM (ampola 25 mg/5 ml), que pode ser repetida até 3x, se o paciente mantiver a dor. Atentar para hipotensão arterial e sinais / sintomas extrapiramidais (como rigidez muscular e inquietude); orientar o paciente a não levantar-se bruscamente. Não repetir a dose se ocorrer tais efeitos adversos.

  • Cefaleia em salvas: unilateral, sempre do mesmo lado (geralmente em região orbital, supraorbital e/ou temporal), forte intensidade (excruciante), durando de 15 a 180 minutos e com sinais autonômicos (lacrimejamento e hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, sudorese frontal, miose, rubor facial, ptose e edema palpebral).

◦ oxigênio a 100% sob máscara, com fluxo de 10- 12 l/min durante 20 minutos;

◦ ou sumatriptano 6mg (SC, se disponível). Caso o paciente tenha utilizado algum medicamento vasoconstrictor, o sumatriptano deve ser evitado;

◦ Analgésicos comuns e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados.

Outras orientações importantes:

– Manter o paciente em repouso, sob penumbra em ambiente silencioso, principalmente nos casos de enxaqueca.
– Se houver melhora clínica, o paciente recebe alta com orientação de acompanhamento ambulatorial com neurologista.
– Evitar opioide para crise: existem alternativas mais eficazes e que não têm o risco de abuso e dependência.
– Orientar sobre a baixa gravidade: não é necessária a realização de exames complementares na maioria das vezes quando o quadro for típico.
– Se não melhorar após 2h, encaminhar para avaliação de neurologista.
– Orientação de medidas educativas: sono regular, evitar bebidas alcoólicas, controle de estresse (técnicas de relaxamento, atividade física leve), lazer.

Acesse mais de 900 modelos de prescrição para uma rotina médica mais prática. Baixe aqui o Whitebook.

CENÁRIO 2: CEFALEIA CRÔNICA NÃO PROGRESSIVA

Diagnósticos etiológicos:

  • Enxaqueca crônica: era um caso de enxaqueca episódica, que se transformou em crônica quase diária (>15 dias por mês), podendo perder algumas características tipicamente migranosas – tornando-se algo semelhante à cefaleia tensional – e sendo menos responsiva aos medicamentos.
  • Cefaleia tensional crônica: mesmas características, mas frequência maior ( > 15 dias/mês).

Conduta: pode ser usado clorpromazina no tratamento agudo (como orientado acima), mas orienta-se a avaliação de um neurologista, até porque pode ser considerado um tratamento profilático. Também se recomenda a diminuição radical no uso de analgesia, já que este pode ser um dos fatores de cronificação.

CENÁRIO 3: CEFALEIA CRÔNICA PROGRESSIVA

Este padrão é o menos comum, mas deve-se estar atento para possíveis causas subjacentes que precisem ser investigada (cefaleia secundária).

Etiologias principais:

  • Distúrbio intracraniano não vascular, como hipertensão liquórica ou tumor: dor diária de intensidade crescente, holocraniana, pior pela manhã e durante esforço físico ou manobra de Valsalva.
  • Outros: hematoma subdural crônico, abscesso cerebral, cefaleia pós-traumática, hipertensão intracraniana idiopática, meningites crônicas (investigar HIV).

Conduta: encaminhar ao neurologista; atentar familiares para possíveis sinais de alerta que podem surgir (convulsões, vômitos, rebaixamento do nível de consciência, visão dupla, estrabismo ou perda de força.)

CENÁRIO 4: CEFALEIA NOVO OU COM MUDANÇA DO PADRÃO DE DOR PRÉVIA

Etiologias possíveis:

  • Presença de febre: atentar para infecções do sistema nervoso central ou mesmo para infeções sistêmicas simples (gerando cefaleia como mero sintoma constitucional do quadro).

Conduta: investigar/tratar causa base e, se houver sinais de alerta (ver acima), solicitar parecer do neurologista.

  • Cefaleia súbita (“a pior da vida”), com instalação abrupta e/ou sinais de alerta: hemorragia subaracnoidea aguda (HSA), hemorragia intraparenquimatosa (HIP), acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi), hidrocefalia aguda, trombose venosa cerebral.

Conduta: encaminhar para hospital terciário, a fim de ser avaliado por especialista (neurocirurgião ou neurologista) e possivelmente realizar exame de neuroimagem.

É médico e também quer ser colunista da PEBMED? Clique aqui e inscreva-se!

 

Referências:

Cadastre-se ou faça login para acessar esse e outros conteúdos na íntegra
Cadastre-se grátis Fazer login
Veja mais beneficios de ser usuário do Portal PEBMED: Veja mais beneficios de ser usuário
do Portal PEBMED:
7 dias grátis com o Whitebook Aplicativo feito para você, médico, desenhado para trazer segurança e objetividade à sua decisão clínica.
Acesso gratuito ao Nursebook Acesse informações fundamentais para o seu dia a dia como anamnese, semiologia.
Acesso gratuito Fórum Espaço destinado à troca de experiências e comentários construtivos a respeito de temas relacionados à Medicina e à Saúde.
Acesso ilimitado Tenha acesso a noticias, estudos, atualizacoes e mais conteúdos escritos e revisados por especialistas
Teste seus conhecimentos Responda nossos quizes e estude de forma simples e divertida
Conteúdos personalizados Receba por email estudos, atualizações, novas condutas e outros conteúdos segmentados por especialidades

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo

Selecione o motivo:
Errado
Incompleto
Desatualizado
Confuso
Outros

Sucesso!

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo.

Você avaliou esse artigo

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Baixe e-books, e outros materiais para aprimorar sua prática médica e gestão Baixe e-books, e outros materiais
para aprimorar sua prática
médica e gestão

Especialidades

Tags