Treat-to-target (T2T) e redução de doses na artrite reumatoide (AR) em tempos de Covid-19

Tempo de leitura: 2 min.

Neste texto de hoje, trago um comentário publicado no formato de editorial no Lancet Rheumatol. No artigo, Yeoh e Ehrenstein (University College London) discutem os desafios de se atingir os alvos terapêuticos (treat-to-target – T2T) em épocas de pandemia. De maneira complementar, também problematizam a questão da redução da intensidade do tratamento nesse contexto.

Já discuti previamente o que é o T2T na artrite reumatoide (AR) e algumas estratégias em textos do portal; assim, sugiro a leitura dessas publicações anteriores, pois elas podem auxiliar na melhor compreensão acerca do tema.

Leia também: Artrite inicial: comparação entre duas estratégias treat-to-target diferentes

Treat-to-target em tempos de Covid-19

Sabemos que o racional por trás do T2T envolve a avaliação do paciente mais frequentemente e os ajustes mais agressivos do tratamento. Isso com o objetivo de atingir alvos pré-estabelecidos (de preferência remissão, se possível) e, consequentemente, melhor controle da doença e melhores desfechos a longo prazo.

O grande ponto ao redor do qual gira a discussão dos autores é a questão do teleatendimento aos pacientes com AR. Segundo eles, no Reino Unido, os pacientes com doença estável estão sendo avaliados por telemedicina, com o objetivo de minimizar o risco de transmissão da Covid-19 para pacientes e profissionais de saúde. As consultas presenciais são realizadas apenas para pacientes em reativação da doença.

Inicialmente, os autores questionam a definição de doença estável, uma vez que pacientes com baixa ou moderada atividade de doença cujos parâmetros de atividade se mantiveram constantes ao longo do tempo podem ser considerados como estáveis. No entanto, eles destacam que, quando comparados com a remissão clínica e laboratorial, esses estados se associam com pior prognóstico (mais dor, rigidez e disfunção).

Além disso, um dos pontos centrais do treat-to-target é a realização criteriosa de avaliações clínicas seriadas, contagem de articulações dolorosas e edemaciadas e aplicação de escores combinados de atividade de doença, o que é extremamente limitado no contexto de teleatendimento na crise da Covid-19. Apesar de ainda não se ter demonstrado através de ensaios clínicos que o acréscimo da ultrassonografia a essa avaliação padrão do T2T resulte em melhores desfechos, o uso da ultrassonografia pode trazer contribuições potenciais naqueles com atividade de doença em um cenário de mundo real, o que logicamente não pode ser realizado através de teleconsultas.

Saiba mais: Desafios da Covid-19: A recorrência ou reinfecção são possíveis?

Redução

Com relação à redução de doses (ou do tratamento) em pacientes com AR, os autores apresentam dois pontos principais. O primeiro é que, em um momento de alto risco de se contrair uma doença infecciosa potencialmente fatal, a redução de doses significaria um menor grau de imunossupressão para o paciente. No entanto, os dados observacionais iniciais com relação à segurança do uso de DMARDs durante a pandemia têm sido tranquilizadores. O segundo ponto é que, de maneira análoga ao que foi apresentado para o T2T, a redução de dose necessita de avaliações frequentes, com exame físico seriados para detectar reativações, que não são infrequentes.

Conclusão

Com base nas considerações acima, os autores propõe que a comunidade científica encontre soluções (o tão falado “novo normal”) para que as estratégias de T2T e desmame seguro de medicamentos possam ser feitos de uma maneira que não exponha os pacientes ao risco do Covid-19; mas, ao mesmo tempo, não prejudique o tratamento dos pacientes com AR.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

Yeoh S-A, Ehrenstein MR. Are treat-to-target and dose tapering strategies for rheumatoid arthritis possible during the Covid-19 pandemic? Lancet Rheumatol 2020; doi:10.1016/S2665-9913(20)30175-2.

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Publicado por
Gustavo Balbi

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