Trombectomia mecânica tem eficácia em casos agudos de AVC isquêmico?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Uma pesquisa realizada em 12 unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) confirmou a eficácia do tratamento de trombectomia mecânica em casos agudos de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico.

Os resultados apontaram que os pacientes submetidos ao tratamento tiveram maiores chances de ficar sem sequelas e de continuarem independentes em suas atividades diárias após um episódio de AVC. Além disso, houve uma menor mortalidade e incapacidade nos casos de trombectomia mecânica.

AVC isquêmico

Fruto de uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Rede Brasil AVC, o estudo indica a adoção do tratamento na saúde pública do Brasil, o que depende da aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).

Segundo a neurologista Sheila Martins, fundadora da Rede Brasil AVC e vice-presidente da Organização Mundial do AVC, o estudo foi fundamental para comprovar que esse tratamento, indicado para os casos mais graves (que corresponde de 30 a 40% dos pacientes que têm AVC), pode ser utilizado com sucesso em todos os hospitais públicos nos países em desenvolvimento.

A especialista explicou que em países em desenvolvimento, estudos anteriores mostraram que esse tratamento tinha benefícios, mas esses países representam apenas 20% da população mundial. E o restante, 80% que vivem em baixo e médio desenvolvimento, os pesquisadores ainda não sabiam se esse tratamento era possível de ser bem realizado.

Leia também: AVC isquêmico: escore PREMISE é confiável na previsão do risco de morte?

“Essa segunda parte do estudo veio mostrar isso, que mesmo com todas as dificuldades e adversidades do sistema público de saúde brasileiro, um tratamento super especializado, que envolve uma grande logística de organização, de ter especialistas 24 horas por dia, sete dias por semana, com anestesistas disponíveis, com exames de imagens, pode dar certo e mostrar resultados muito positivos”, destaca Sheila Martins em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

Como é realizado o tratamento

Na trombectomia, um cateter é usado no AVC isquêmico para desobstruir um vaso sanguíneo no cérebro de forma mecânica, removendo o coágulo com o uso de um stent ou por sucção.

Atualmente, o tratamento mais utilizado é a trombólise, em que os coágulos desse tipo são dissolvidos por meio de medicação.

Segundo a Rede Brasil AVC, o uso do cateter já ocorre em 68 hospitais privados do país, sendo uma realidade na rede pública de outros países, como o Canadá e o Chile.

Como foi realizado o estudo e indicações

O estudo, realizado no SUS entre 2017 e 2019, com 609 pacientes, apontou que os pacientes submetidos ao tratamento tiveram mais chances de ficar sem sequelas e de continuar independente em suas atividades diárias após um episódio de AVC. Além disso, houve menor mortalidade e incapacidade nos casos de trombectomia mecânica.

“Esse tratamento reduz a necessidade de reinternação, de reabilitação e a ausência do paciente no trabalho”, ressalta a especialista.

Veja mais: Qual é a incidência de AVC isquêmico em usuários de novos anticoagulantes?

A trombectomia também pode atender a casos em que já não há mais tempo para recorrer à trombólise. O tratamento medicamentoso para dissolver os coágulos é eficaz até quatro horas e meia após o início dos sintomas, enquanto o cateter pode ser utilizado até oito horas depois, chegando a 24 horas em casos específicos.

Implementação do tratamento no SUS

Uma das dificuldades da adoção da trombectomia mecânica para o tratamento dos casos de AVC isquêmicos agudos é o custo mais elevado do procedimento.

De acordo com Sheila Martins, uma trombólise custa cerca de R$ 4 mil na saúde privada, enquanto uma trombectomia chega a R$ 14 mil. No SUS, as trombólises custam cerca de R$ 1 mil, e a pesquisadora acredita que o gasto com os cateterismos cerebrais também seria menor que o pago na saúde privada caso fosse implementado no SUS.

“Quando o sistema de saúde incorpora um tratamento, o Ministério da Saúde negocia para baixar esse valor”, explica a neurologista, que prevê ainda gastos menores com os pacientes de AVC com um tratamento mais eficaz.

A Rede Brasil AVC defende, no entanto, que nem todos os hospitais podem oferecer o tratamento, uma vez que ele requer uma equipe com especialização específica. A proposta inicial é implementá-lo em 20 hospitais do SUS.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Autora:

Referência bibliográfica:

Relacionados