Pediatria

Uso de antibióticos na gestação: existe associação com o peso de nascimento da prole?

Tempo de leitura: 3 min.

A epidemia de obesidade infantil tem sido apontada como um dos maiores problemas de saúde pública enfrentados pelas sociedades ocidentais. Vários fatores apresentam impacto no desenvolvimento desse quadro, incluindo fatores genéticos e ambientais. 

Estudos têm apresentado o peso de nascimento como um fator potencialmente relacionado ao desenvolvimento da obesidade infantil. Crianças com peso de nascimento aumentado são consideradas de alto risco para o posterior desenvolvimento de obesidade. 

O uso de antibióticos no período pré e pós-natal tem sido apontado em alguns estudos como um contribuinte do peso de nascimento em neonatos, e assim, pode ser um fator contribuinte para o desenvolvimento de obesidade a longo prazo nessas crianças. Dentre os mecanismos sugeridos para o aumento do peso de nascimento relacionado ao uso de antibióticos, incluem-se mudanças na microbiota materna e alterações no metabolismo energético do feto. O uso de antibióticos no período pós-natal tem sido relacionado ao sobrepeso e obesidade, principalmente em meninos. Com relação ao uso de antibióticos no período gestacional e peso de nascimento, existem poucos estudos, mas que apontam uma associação, tanto para baixo quanto para alto peso de nascimento.

Novo estudo

Um artigo publicado no periódico Pediatric Obesity, em junho de 2021, traz um novo estudo sobre o tema. O interessante desse trabalho foi a utilização de dados de uma coorte populacional para avaliação da associação entre uso de antibióticos na gestação e aumento do peso ao nascer, trazendo assim maior poder estatístico para avaliar a questão. Além disso, o estudo também trouxe dados para investigação da relação entre o período de exposição ao antibiótico, prematuridade e sexo da prole, com relação à associação com o peso de nascimento. 

Foram analisados dados de 63300 mulheres gestantes participantes do Danish National Birth Cohort (DNBC). As mulheres foram consideradas expostas ao uso de antibióticos e responderão positivamente ao uso desses fármacos durante suas gestações. Outros dados analisados incluíram o peso de nascimento das crianças, idade gestacional, idade materna, sexo da criança, paridade, status socioeconômico, uso de tabaco durante a gestação, índice de massa corporal (IMC) materno, ganho de peso durante a gestação, hipertensão materna no primeiro trimestre e diabetes mellitus materno ou gestacional. Modelos de regressão linear foram utilizados para avaliação de associação entre exposição materna a antibióticos durante a gestação e o peso de nascimento da prole, com e sem ajuste para possíveis confundidores potenciais. Além disso, também foram realizadas análises estratificadas por prematuridade e sexo da criança. 

Resultados

Um total de 11052 mulheres citaram o uso de antibióticos durante a gestação. A média de peso de nascimento foi de 3611 g, com 2,11% da prole apresentando baixo peso ao nascer (< 2500 g) e 23,73% com alto peso ao nascer (> 4000 g).

As análises de regressão linear não demonstraram associação entre o uso de antibióticos no período gestacional e o peso de nascimento, inclusive quando realizadas a análise estratificada por sexo ou prematuridade. Na análise estratificada por sexo e prematuridade, houve uma associação entre a exposição aos antibióticos e maior peso de nascimento em meninos prematuros. A exposição aos antibióticos no segundo ou terceiro trimestre da gestação esteve associada, de forma limitada, ao baixo peso de nascimento. 

O estudo apresenta resultados discrepantes com outros apresentados na literatura especializada. Os autores sugerem que essas diferenças possam ocorrer devido à amostra maior e de coorte populacional utilizada neste estudo, que pode demonstrar maior potencial de descartar resultados devido a fatores de confundibilidade. Apesar disso, como o estudo foi realizado baseado no relatório das mulheres, pode não representar adequadamente a realidade. 

Leia também: Obesidade infantil: vamos falar sobre e como evitá-la?

Mais estudos são necessários para esclarecimento da questão. Profissionais de saúde que lidem com cuidados materno-infantis devem se atentar ao potencial nocivo de antibióticos nessa população, devendo sempre pesar os benefícios e riscos relacionados a essa conduta. Nos casos em que o tratamento com antibióticos for inevitável, o acompanhamento e avaliação de fatores de risco da prole pode ser necessário. 

Autora:

Referências bibliográficas:

  • TOMAR, Nupoor et al. Prenatal antibiotic exposure and birth weight. Pediatric Obesity, p. e12831, 2021. doi: 10.1111/ijpo.12831
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Publicado por
Dolores Henriques

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