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Uso de estatinas em idosos: o que as novas evidências nos dizem?

Tempo de leitura: 3 minutos.

De todos os medicamentos que temos em nosso “arsenal” médico, as estatinas com certeza são exemplos que estão em muitas e muitas prescrições por aí.

Seu uso foi difundido pela alta e crescente prevalência de doenças cardiovasculares (DCV) e seus fatores de risco (diabetes mellitus, dislipidemias e outros). Sem contar as novas evidências sobre seus efeitos anti-inflamatórios e sobre seu uso como forma de prevenção primária para DCV. Existem várias diferentes indicações para o uso de estatinas.

Apesar disso, o uso das estatinas para populações mais idosas (especificamente, acima dos 75 anos de idade) tem sido fonte de muitos dilemas.

Isso acontece porque se seguirmos o raciocínio “quanto maior a idade, maior o risco de DCV”, pareceria algo óbvio que pessoas acima dos 75 anos deveriam usar estatinas até mais que as demais. Porém, a grande maioria dos estudos sobre uso de estatinas, além sua eficácia e efeitos colaterais, não inclui idosos nessa faixa etária.

O motivo principal é que, pela idade avançada e pela baixa expectativa de vida associada a ela, não se considera que eventos cardiovasculares nessa população sejam realmente impactantes em níveis populacionais ou em saúde pública.

Porém, é importante lembrar que ninguém gostaria de ter um AVE. E, logo, estudar os usos de estatinas tem importância na escala pessoal. Sem contar que, prevenindo DCV (que aumentam em incidência após os 75 anos de idade), previnem-se também internações e complicações crônicas como a imobilidade ou a insuficiência cardíaca.

Nesse contexto, uma nova metanálise publicada no The Lancet em fevereiro de 2019 envolveu 28 estudos totalizando 186.854 participantes, dos quais quase 14.500 (8% da população) têm mais que 75 anos.

Alguns desses estudos envolviam uso de estatinas x controles, enquanto outros analisaram estatinas em dose de alta potência x média e baixa potência.

Resultados

Em geral, o uso de estatinas, especialmente de alta potência, reduziu a incidência de eventos cardiovasculares mais graves em até 21% para cada 01 mmol/L (aproximadamente 38,7 mg/dL) reduzido nos níveis de LDL. E isso vale para acidentes vasculares encefálicos, doença coronariana e até a necessidade futura de cirurgia de revascularização miocárdica.

E como o estudo envolveu muitos indivíduos com 75 anos ou mais, isso se aplica também a essa população, demonstrando benefícios para o uso das estatinas. Nos casos de prevenção secundária (ou seja, uso de estatinas em pacientes que já tinham DCV), houve uma redução semelhante na incidência de eventos entre populações mais jovens e as mais idosas.

Já para prevenção primária (pacientes sem DCV prévia), os efeitos protetores das estatinas foram inversamente proporcionais à idade, de forma que pessoas com mais de 75 anos se beneficiariam menos que as mais jovens.

Porém, os próprios autores ressaltam que essa análise é no sentido proporcional. O risco absoluto para DCV aumentam progressivamente com a idade, e, logo, os benefícios da estatina se mostram no sentido absoluto, de forma a serem benéficas também em populações acima de 75 anos.

Mas e os riscos?

Claro que, independente da redução de riscos, a prescrição de estatinas segue o princípio de risco x benefício. Pacientes com claras contraindicações terão riscos maiores que benefícios no uso, assim como aqueles com insuficiência cardíaca (que morrem mais por descompensação e eventos arrítmicos que DCV especificamente).

Porém, grande parte das contraindicações que conhecemos e aplicamos no dia a dia são superestimadas. A maioria delas foi estudada em estudos observacionais, sem grande força em termos de evidências científicas. Vale a pena dar uma revisada nos mitos e verdades quanto aos efeitos colaterais de estatinas.

Leia mais: Estudo sugere que diretrizes superestimam benefícios de estatinas

A clássica “mialgia”, que para muitos médicos ativa o alerta-vermelho para rabdomiólise, é uma queixa muito comum e vaga e associa-se mais a outras condições que ao uso de estatinas em si. Se analisarmos a incidência de efeitos adversos, veremos que a redução de riscos a supera o suficiente para apoiar o uso das estatinas.

Contudo, também é importante ressaltar que a meta-análise em questão usou, na maioria de seus estudos, pessoas com menos comorbidades, menos intolerância às estatinas e mais aderentes ao tratamento. Logo, a incidência de efeitos adversos não foi contemplada em toda sua amplitude.

Conclusão

Claro que na Medicina Baseada em Evidências o importante é achar o prevalente em meio a tantas evidências diferentes. Existem estudos que dizem que, ao contrário, estatinas não seriam benéficas em idosos como prevenção primária. Outros já mostram que estatinas podem estar sendo superestimadas.

A metanálise divulgada no The Lancet usa um número considerável de idosos acima dos 75 anos e demonstra que as estatinas têm efeito benéfico, reduzindo os riscos absolutos de eventos cardiovasculares tanto em prevenção secundária quanto primária.

Mais estudos são necessários para estudar essa população em outros cenários, em especial quanto a possíveis efeitos colaterais. De qualquer forma, estatinas aparentam ser viáveis e seguras para populações mais idosas. Talvez agora possam entrar na sua lista de opções para aquele paciente bem idoso que tanto gera dúvidas, não?

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Referências:

  • HUGHES, Sue. Statin Benefits in the Elderly: New Meta-Analysis. 2019. Via Medscape. Disponível em: <https://www.medscape.com/viewarticle/908563#vp_3>. Acesso em: 12 fev. 19.
  • ARMITAGE, Jane et al. Efficacy and safety of statin therapy in older people: a meta-analysis of individual participant data from 28 randomised controlled trials. The Lancet, [s.l.], v. 393, n. 10170, p.407-415, fev. 2019. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/s0140-6736(18)31942-1.

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