Gastroenterologia

Uso de inibidor de bomba de prótons não está associado a aumento de mortalidade

Tempo de leitura: 3 min.

Os inibidores de bomba de prótons (IBP) estão entre os dez medicamentos mais utilizados no mundo. Dada sua grande utilização, diversos trabalhos avaliaram os efeitos adversos relacionados ao uso de inibidores de bomba de prótons no longo prazo, como desenvolvimento de doença renal crônica, osteoporose e pneumonia, além de risco aumentado da mortalidade. No entanto, esses estudos apresentam diversas limitações metodológicas, o que limita a interpretação e generalização de suas conclusões. 

Leia também: Pirose refratária aos inibidores de bomba de prótons: qual o melhor tratamento?

O estudo

Recentemente, Qiangsheng He e colaboradores avaliaram a associação de IBP e mortalidade através da análise retrospectiva  de um grande banco de dados do UK biobank

O UK biobank é um banco de dados de 500.000 voluntários do Reino Unido, incluindo questionários de saúde, prontuário médico eletrônico, dados genéticos e biomarcadores. Nesse estudo, os investigadores identificaram 440.840 participantes sem outras condições que influenciassem a expectativa de vida no momento do cadastro (principalmente neoplasias e doenças cardiovasculares). Desses pacientes, 38.065 pacientes (9%) informaram utilizar regularmente IBP no questionário de saúde inicial. Uso regular foi definido por: maioria dos dias nas últimas 4 semanas. Esses pacientes foram comparados com os demais quanto a mortalidade por todas as causas e mortalidade específica, através de modelo multivariado de riscos proporcionais de Cox. As mortes foram computadas a partir de 2 anos do preenchimento do questionário para evitar causalidade reversa. O resultado foi ajustado para raça, fatores socioeconômicos, história dietética, tabagismo, comorbidades e uso crônico de medicamentos. 

Resultados

Foram registradas 13.154 mortes em um tempo de seguimento mediano de 5,9 anos (4,5-8,8 anos). Após ajuste dos fatores de confusão, o uso de inibidores de bomba de prótons não se associaram a aumento de mortalidade por todas as causas (hazard ratio = 1,05, IC 95% 0,97 – 1,13), bem como por causas específicas (neoplasias, cardiovascular, respiratória e gastrointestinal). Além disso, não se observou aumento de mortalidade pelo uso de omeprazol, lansoprazol, esomeprazol ou outros IBPs, quando realizada subestratificação da análise.

Saiba mais: Uso de inibidores da bomba de prótons aumenta risco de infecção por Clostridium difficile?

Comentários  

Trata-se de um estudo realizado em uma grande coorte de pacientes, com dados de alta qualidade, ajuste dos fatores de confusão, comparação com grupo controle e longo período de seguimento. Os autores tentam ainda evitar o viés protopático, um erro sistemático que ocorre quando a medicação de interesse pode ser utilizada para tratar pródomos de um desfecho iminente que será avaliado, e que possivelmente explica o porquê de estudos prévios terem associado inibidores de bomba de prótons (IBP) à mortalidade. Os resultados reproduzem ainda aqueles encontrados por Baik e colaboradores com dados do Medicare dos Estados Unidos, recém-publicados. Por outro lado, as principais limitações desse estudo são o fato do uso de IBP ter sido avaliado somente no momento do preenchimento do questionário de saúde e por autodeclaração, além da exclusão das mortes nos primeiros dois anos de utilização do IBP, um intervalo possivelmente muito longo.  

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • He Q, Xia B, Meng W, Fan D, Kuo ZC, Huang J, Qin X, Zou H, He Y, Zhang C, Fang S, Pan Y, Yang M, Yuan J. No Associations Between Regular Use of Proton Pump Inhibitors and Risk of All-Cause and Cause-Specific Mortality: A Population-Based Cohort of 0.44 Million Participants. Am J Gastroenterol. 2021 Jul 27. doi: 10.14309/ajg.0000000000001377. Ahead of print.
  • Baik SH, Fung KW, McDonald CJ. The Mortality Risk of Proton Pump Inhibitors in 1.9 Million US Seniors: An Extended Cox Survival Analysis. Clin Gastroenterol Hepatol. 2021 Jan 13:S1542-3565(21)00017-3. doi: 10.1016/j.cgh.2021.01.014. Ahead of print.
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Publicado por
Guilherme Grossi Cançado

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