Uso de quinolonas e aneurisma de aorta

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Nos últimos anos, efeitos colaterais importantes relacionados ao uso de quinolonas vem sendo relatados: tendinite e ruptura de tendão, neuropatias, alterações de memória e aneurismas ou dissecção de aorta, entre outros. Por conta disso, em 2018, o FDA lançou recomendações limitando o uso dessa classe de medicação em pacientes de alto risco: pessoas com doença cardiovascular ou aneurismas já diagnosticados, hipertensos, idosos e pessoas com doenças genéticas que causam alteração dos vasos sanguíneos. No mesmo ano, o uso das quinolonas também foi restringido na Europa. Apesar disso, continuam sendo amplamente utilizadas.

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Com o objetivo de avaliar se o uso de quinolonas levaria a aumento da incidência de aneurismas de aorta independente de idade e comorbidades, foi realizado um estudo publicado recentemente no JAMA Surgery.

Método do estudo e população envolvida

Foi feito um estudo de coorte observacional cujos critérios de inclusão eram pacientes com idade entre 18 e 64 anos com seguro saúde específico, que receberam prescrição de fluorquinolonas orais ou outros antibióticos que teriam indicação semelhante (Amoxacilina+clavulanato, Azitromicina, Cefalexina, Clindamicina e Sulfametoxazol-trimetoprim). O período do estudo foi de 2005 a 2017 e o mesmo paciente poderia ser incluído mais de uma vez, caso usasse novamente antibiótico.

Os critérios de exclusão foram: uso de antibióticos ou diagnóstico de aneurisma nos 180 dias prévios à prescrição ou internação nos 30 dias anteriores a prescrição do antibiótico.

O seguimento foi realizado a partir da data da prescrição até 90 dias após ou até a saída do seguro saúde ou prescrição de novo antibiótico. O período de 90 dias foi determinado a partir de estudos anteriores que mostraram que a ocorrência de aneurisma ou dissecção é geralmente entre 60 e 90 dias pós uso de quinolona.

O desfecho primário foi incidência de aneurisma e dissecção de aorta por 10.000 prescrições. Foram analisadas as características demográficas, indicações dos antibióticos e comorbidades dos pacientes. Também foi feita análise individual das fluorquinolonas: Ciprofloxacino, Levofloxacino e Moxifloxacino.

Resultados

Foram feitas 47.596.545 prescrições de antibióticos para 27.827.254 pessoas durante o período analisado. Destas, 19% foram prescrições de fluorquinolonas e 66% completaram o seguimento de 90 dias. A média de idade foi 47 e 43 anos nos grupos quinolona e outros antibióticos respectivamente e as mulheres representaram aproximadamente 60% do total de pacientes nos dois grupos. As indicações mais comuns foram: infecção de vias aéreas superiores, infecção do trato urinário e infecção de pele e partes moles.

Houve 24141 diagnósticos de aneurisma nos 90 dias seguintes ao início do tratamento, sendo 7,5/10.000 prescrições no grupo das fluorquinolonas e 4,6/10.000 no grupo dos outros antibióticos (HR 1,20; IC 95%, 1,17-1,24). Houve maior incidência no grupo das fluorquinolonas nas localizações a seguir: aorta abdominal, ilíaca e outros aneurismas abdominais (31%, 60% e 58% maior incidência respectivamente). Além disso, o grupo que recebeu quinolona teve maior probabilidade de tratamento do aneurisma nos 90 dias de seguimento (HR, 1,88; IC 95%1,44-2,46). Não houve diferença entre os grupos em relação aos aneurismas de aorta torácica ou toraco-abdominais e nem em relação a ocorrência de dissecção de aorta.

Ciprofloxacino e Levofloxacino corresponderam a quase 85% das prescrições e estavam relacionados a 88% dos episódios de aneurisma do grupo das quinolonas. Após ajuste para sexo e comorbidades, os resultados se mantiveram. O mecanismo pelo qual este tipo de medicação levaria a formação de um aneurisma ainda não está bem elucidado, com necessidade de mais estudos para esclarecimento.

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Esse estudo tem diversas limitações, como a possibilidade de aneurismas não diagnosticados, já que não era feito exame de imagem de rotina, viés por conta da realização de exames de imagem para avaliação da infecção com consequente achado do aneurisma (por exemplo nas infecções abdominais), possibilidade de o aneurisma ser antigo porém não diagnosticado, possibilidade de pacientes terem outros fatores de risco conhecidos para esta patologia não considerados neste estudo, como tabagismo.

Mensagem prática

Atualmente temos cada vez mais evidência dos efeitos colaterais causados pelas fluorquinolonas, sendo que alguns desses efeitos podem ter consequências mais graves. Sendo assim, o ideal é evitar essa classe de medicação no tratamento das infecções e preferir classes alternativas, que tenham também eficácia conhecida.

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Referências bibliográficas:

  • Newton EM, et al. Association of Fluoroquinolone Use With Short-term Risk of Development of Aortic Aneurysm. JAMA Surg. Published online January 6, 2021. doi:1001/jamasurg.2020.6165.
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