Uso do Filgotinibe no tratamento da AR sem exposição prévia ao metotrexato

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Diversos medicamentos orais que agem bloqueando a via da Janus quinase (JAK) foram lançados nos últimos anos para tratamento da artrite reumatoide (AR), incluindo o Tofacitinibe, o Baricitinibe e o Upadacitinibe. O Filgotinibe, um inibidor da JAK-1, vem sendo estudado no tratamento da AR moderada a grave em diferentes cenários, com bons resultados de eficácia. Westhovens et al. publicaram recentemente os resultados do estudo de fase 3 denominado FINCH 3, no qual pacientes com AR virgens de tratamento com Metotrexato (ou com pouca exposição a essa droga) foram tratados com Filgotinibe.

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Métodos

Trata-se de um ensaio clínico duplo-cego e randomizado, com duração de 52 semanas. Foram incluídos 227 centros de pesquisa em 31 países de agosto de 2016 a outubro de 2018. Os pacientes foram randomizados para receber Filgotinibe 200 mg + metotrexato (MTX), Filgotinibe 100 mg + MTX, Filgotinibe 200 mg ou MTX, na proporção de 2:1:1:2.

Para serem incluídos, os sujeitos deveriam preencher os critérios classificatórios para AR (ACR/EULAR 2010), possuírem 18 anos de idade ou mais e terem feito uso de menos de 3 doses de MTX 25 mg/semana ao longo da vida (preferencialmente, não deveriam ter feito uso do MTX). No momento do screening, os pacientes deveriam estar em atividade de doença, definida como ≥ 6 articulações dolorosas, ≥ 6 articulações edemaciadas + um dos seguintes: positividade para fator reumatoide e/ou anti-CCP, presença de uma erosão ou mais detectada na radiografia simples ou PCR ≥ 4 mg/L. O uso prévio de MTX acima dos limites estabelecidos, biológicos ou outros inibidores da JAK foi o principal critério de exclusão. O uso prévio ou concomitante de Hidroxicloroquina foi permitido. O corticoide deveria estar em doses estáveis.

O desfecho primário desse estudo foi analisar a proporção de pacientes do grupo Filgotinibe 200 mg + MTX a atingirem resposta ACR20 na semana 24, quando comparados com o uso de MTX isolado. Vários desfechos secundários foram analisados hierarquicamente. Dados de segurança também foram avaliados, incluindo taxas de infecção, fenômenos tromboembólicos e desfechos cardiovasculares maiores.

Resultados

Dos 1.252 pacientes randomizados, 416 fizeram uso de Filgotinibe 200 mg + MTX, 207 de Ffilgotinibe 100 mg + MTX, 210 de Filgotinibe 200 mg isolado e 416 de MTX isolado. A dose média de MTX na semana 24 foi de 18 mg/semana.

Os pacientes que fizeram uso tanto da combinação de Filgotinibe 200 mg + MTX (81%, p < 0,001) quanto da combinação Filgotinibe 100 mg + MTX (80%, p = 0,017) apresentaram maiores taxas de resposta ACR20 do que aqueles que fizeram uso de MTX isolado (71%). Além disso, os esquemas com Filgotinibe também apresentaram melhoras superiores no HAQ-DI, escore utilizado para avaliação de qualidade de vida e funcionalidade, e uma maior probabilidade de se atingir remissão (54% e 43%, respectivamente, vs. 29%, p < 0,001 para as duas comparações).

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A resposta ACR20 para o uso de Filgotinibe 200 mg isolado não foi diferente daquela obtida com o MTX isolado (78 vs. 71, p=0,058), na semana 24.

As taxas de eventos adversos sérios foram de 6% para o grupo Filgotinibe 200 mg + MTX, 6% para Filgotinibe 100 mg + MTX, 8% para Filgotinibe 200 mg isolado e 7% para MTX isolado. Na semana 52, as taxas de infecção foram 36%, 37%, 36% e 38%, respectivamente. Já as de infecções graves foram 1%, 1%, 2% e 2%. A ocorrência de desfechos cardiovasculares maiores foi numericamente semelhante entre os grupos, com poucos eventos (9 no total, todos em pacientes com fatores de risco cardiovasculares tradicionais). Dentre as 4 mortes de ocorreram, apenas uma foi de origem cardiovascular. Nenhum evento de tromboembolismo venoso foi detectado no grupo do Filgotinibe e 2 foram descritos no grupo do MTX isolado. Poucos pacientes foram diagnosticados com neoplasia; a maioria deles estavam no grupo do MTX. Um paciente apresentou perfuração intestinal no grupo Filgotinibe 200 mg + MTX. Por fim, um maior número de pacientes nos grupos com Filgotinibe + MTX apresentaram elevações de transaminases. Para mais detalhes, dirija-se ao artigo original

Comentários

Esse estudo foi o primeiro a demonstrar que o Filgotinibe é uma boa opção para o tratamento da AR com atividade moderada a grave em pacientes virgens de tratamento com MTX.

Algumas limitações merecem destaque, como as baixas doses de MTX utilizadas (média de 18 mg/semana, abaixo do que utilizamos clinicamente — 20 a 25 mg/semana) e via utilizada (não obrigatoriedade do uso de MTX subcutâneo para pacientes com má resposta inicial, visto que essa via garante uma maior biodisponibilidade da medicação), a ausência de grupo placebo (o que pode agregar um viés de expectativa) e o curto tempo de seguimento para detectar vários eventos adversos de interesse (eventos cardiovasculares, tromboembolismo venoso e neoplasias).

Os autores concluíram que Filgotinibe nas doses de 200 ou 100 mg, em associação com o Metotrexato, proporcionaram um melhor controle da AR em pacientes virgens de tratamento com o MTX (ou com exposição limitada a essa medicação).

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Westhovens R, Rigby WFC, van der Heijde D, et al. Filgotinib in combination with methotrexate or as monotherapy versus methotrexate monotherapy in patients with active rheumatoid arthritis and limited or no prior exposure to methotrexate: the phase 3, randomised controlled FINCH 3 trial. Ann Rheum Dis. 2021. doi:1136/annrheumdis-2020-219213.
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