Saúde Pública

Violência doméstica: uma pandemia dentro da pandemia

Tempo de leitura: 3 min.

Com o aumento do confinamento domiciliar, os especialistas sobre violência doméstica estimaram que os casos se multiplicaram neste momento de pandemia. Em 2018, o CDC já quantificava um número alarmante de que 1 em 4 mulheres sofriam de violência pelo seu parceiro íntimo nos Estados Unidos, sendo essa violência física, sexual ou psicológica.

Pessoas de todas as raças, culturas, gêneros, orientações sexuais, classes socioeconômicas e religiões vivenciam casos de violência doméstica diariamente, mas os estudos mostram número de casos ainda maiores nas comunidades negras e grupos marginalizados. A instabilidade econômica, a moradia insegura, a violência na vizinhança e a falta de creches e apoio social seguros e estáveis aumentam o risco de violência doméstica.

Leia também: O cuidado da enfermagem à mulher vítima de violência

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Atualidade

Diante desse cenário, no último mês, o New England publicou um artigo sobre esse aumento estimado de violência doméstica no contexto da pandemia. O artigo divulgou que o número de chamadas telefônicas para queixa de violência doméstica nos Estados Unidos caiu 50% no contexto de pandemia, sendo interpretado como uma dificuldade da população por buscar ajuda, e não a queda no número de casos.

Oportunidades perdidas

O artigo destacou que a maioria das pessoas que sofrem violência não procura auxílio. Os profissionais de saúde têm a oportunidade de buscar ativamente, identificando esses pacientes, fornecendo aconselhamento e encaminhando aos serviços sociais. Os consultórios e ambulatórios médicos são locais seguros para os pacientes revelarem o abuso, seja diante de achados do exame físico ou a partir do comportamento de um paciente durante exame físico íntimo: mamário, pélvico ou retal; ou diante de um parceiro agressivo, que pode ser um sinal de alerta de possível de violência doméstica.

Além disso, em ambientes como serviços de emergência e salas de parto, muitos locais fazem a triagem para violência doméstica quando os pacientes estão sozinhos. A avaliação em um ambiente clínico ou hospitalar permite a intervenção imediata, incluindo o envolvimento de assistentes sociais, planejamento de segurança e uma revisão dos serviços disponíveis para as vítimas e seus dependentes.

Com o advento da pandemia essa gama de oportunidade foi perdida. Diversas clínicas, consultórios e ambulatórios cancelaram consultas e reprogramaram as visitas não urgentes, e muitas mudaram para plataformas de telemedicina, tornando essa triagem para violência doméstica ainda mais difícil. Não apenas os pacientes podem viver em áreas sem conexão com rede, como também os abusadores podem estar ouvindo as conversas, deixando os pacientes incapazes de revelar o aumento do abuso em casa.

Necessidade de manutenção da triagem para violência doméstica pelo médico

O artigo propõe, então, como uma forma de melhorar a identificação das vítimas, a criação de pontos gratuitos de internet, gerando um maior acesso à internet wi-fi pública. Além disso, o artigo reitera a necessidade de continuar a triagem para violência doméstica, que é muito vezes esquecida nas consultas online, e também diante da identificação da violência, deve-se discutir o planejamento de segurança durante as próprias teleconsultas.

Saiba mais: Covid-19: como identificar mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde?

O médico e o paciente, diante do abuso revelado, podem estabelecer sinais para identificar a presença de um parceiro abusivo. Esses sinais podem incluir um punho levantado em uma chamada de vídeo ou frases definidas durante uma chamada de áudio. Quando for seguro discutir, os médicos podem revisar as práticas de segurança, como excluir o histórico de navegação na Internet ou mensagens de texto; salvar informações da linha direta em outras listagens, como uma lista de mercado ou farmácia; e criar uma nova conta de e-mail confidencial para receber informações sobre recursos ou se comunicar com os médicos.

A pandemia de Covid-19 chamou a atenção para várias crises contínuas de saúde pública, incluindo a violência doméstica. Muito trabalho precisa ser feito para garantir que as pessoas que sofrem abuso possam continuar a obter acesso a apoio, refúgio e atendimento médico no cenário da pandemia de Covid-19.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Evans ML, Lindauer M, Farrell ME. A Pandemic within a Pandemic — Intimate Partner Violence during Covid-19, The New England Journal of Medicine, December 2020. doi: 1056/NEJMp2024046
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Publicado por
Juliana Olivieri

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