Cardiologia

Vitamina D e cálcio: quais as implicações na saúde cardiovascular?

Tempo de leitura: 3 min.

Grande parte da população usa suplementos de vitamina D e cálcio, seja por indicação médica ou não, já que são amplamente disponíveis e baratos. Porém, ainda há controvérsia em relação a segurança e benefícios do ponto de vista cardiovascular.

O Journal of the American College of Cardiology publicou, recentemente, uma revisão com análise de estudos observacionais e de intervenção visando definir se a suplementação dessas substâncias é benéfica, prejudicial ou neutra para a saúde cardiovascular.

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Saúde cardiovascular

Estudos observacionais sugerem aumento de risco cardiovascular com suplementação de cálcio, principalmente com doses maiores que 1.400 mg/dia. Isso seria decorrente de ativação da cascata de coagulação, depósito de cálcio nos vasos, disfunção endotelial e endurecimento das artérias, com consequente aumento de doença coronária, insuficiência cardíaca (IC), acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes tipo 2.

O estudo MESA mostrou relação da suplementação com aumento de calcificação coronária. Esses estudos podem ter diversos confundidores, como o fato de indivíduos que tomam cálcio terem maior risco de fratura e serem indivíduos com fragilidade maior. Porém, não há estudo controlado randomizado que tenha avaliado o impacto da suplementação de cálcio nos desfechos cardiovasculares.

Sendo assim, a recomendação atual é tentar ingerir a quantidade necessária de cálcio dos alimentos e, caso não seja possível, pesar o risco e benefício, tendendo à suplementação nos pacientes com risco para osteoporose e gestantes que não atingem quantidade adequada pela dieta, por exemplo.

Vitamina D

Em relação à vitamina D, existem vários mecanismos propostos para seus possíveis benefícios: atuação no sistema renina angiotensina aldosterona, como sensibilizador à insulina, atuação na regulação imune e efeitos antiateroscleróticos e antifibróticos. Baixas concentrações estariam ligadas a hipertensão, diabetes e dislipidemia.

Estudos observacionais relacionam sua baixa concentração (dosada na forma de 25-hidroxivitamina D – 25(OH)D), a aumento de doença coronária, infarto agudo do miocárdio (IAM), AVC, doença arterial periférica, IC e mortalidade geral. Esses estudos também são passíveis de muitos vieses e confundidores, como o fato de que indivíduos com vitamina D em valores mais altos costumam ter dieta mais saudável e realizar mais atividade física. Além disso, a vitamina D é lipossolúvel e pessoas obesas tendem a ter níveis circulantes menores.

Com base nessas observações, estudos randomizados foram realizados com objetivo de testar se a reposição e normalização dos níveis de 25(OH)D levaria a redução de eventos cardiovasculares. Os principais são os estudos ViDA, VITAL e D2D, citados abaixo:

  • Estudo ViDA: avaliou participantes de 50 a 84 anos que receberam dose inicial de vitamina D de 200.000 UI, seguido de doses mensais de 100.000 UI. Não houve redução de eventos cardiovasculares (IAM, AVC e IC) ou mortalidade;
  • Estudo VITAL: avaliou 25.871 participantes maiores de 50 anos que receberam 2.000 UI/dia ou placebo e não mostrou redução de IAM, AVC ou mortalidade cardiovascular, mesmo em quem tinha 25(OH)D mais baixa;
  • Estudo D2D: comparou a dose de 2.000 UI/dia com placebo em pacientes pré-diabéticos e não encontrou redução significativa da incidência de diabetes.

Veja também: Retrospectiva 2020: O que há de novo sobre vitamina D?

Além disso, metanálise de 21 estudos randomizados não mostrou benefício na redução de eventos ou mortalidade. As doses testadas foram seguras e o risco de toxicidade se torna maior a partir de 10.000 UI/dia, principalmente com complicações decorrentes de hipercalcemia, e mais frequentemente quando combinado com a suplementação de cálcio. Sendo assim, a suplementação de vitamina D não traz benefício cardiovascular na população em geral e não deve ser usada com esse propósito. O benefício para pacientes com deficiência importante (<12 ng/mL) ainda é incerto, pois esta população foi pequena nos estudos citados acima.

Baseado nisso, a recomendação do National Academy of Medicine é obter a vitamina D a partir dos alimentos e da exposição solar (se não houver risco aumentados de câncer de pele) e realizar a suplementação para os que não conseguem ingerir o mínimo recomendado pela dieta, sendo que altas doses estão recomendadas apenas paras as pessoas com deficiência importante (<12 ng/dL) e com dosagens séricas de controle.

Conclusões

Do ponto de vista cardiovascular, não há benefício de suplementação de vitamina D e pode haver malefício decorrente de suplementação de cálcio, sendo necessário pesar os riscos e benefícios da suplementação do último caso haja indicação por outro motivo.

Mais da autora: Interação entre telefones celulares e CDI

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Michos ED, et al. Vitamin D, Calcium Supplements, and Implications for Cardiovascular Health: JACC Focus Seminar: Nutritional Supplements and the Heart. Journal of the American College of Cardiology. Volume 77, Issue 4, 2 February 2021 https://doi.org/10.1016/j.jacc.2020.09.617
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Publicado por
Isabela Abud Manta

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