Medicina de Família

Você conhece o Método Clínico Centrado na Pessoa?

Tempo de leitura: 3 min.

O estudante de medicina aprende sobre a fisiopatologia das doenças, seus sinais e sintomas, como diagnosticá-las e como tratá-las, conhecimento este essencial para que ele saiba cuidar de seus pacientes depois de formado. Mas e se o médico não for capaz de se comunicar efetivamente com seu paciente, de modo que possa entender o que, de fato, o está incomodando? Ou se não conseguir explicar adequadamente ao paciente como ele deve realizar seu tratamento? Ou até se não tiver a capacidade de ser convincente o suficiente de modo a garantir sua adesão à conduta proposta? Provavelmente não terá tanto sucesso nesse cuidado, mesmo com um excelente conhecimento sobre as doenças.

Leia também: Conversas sobre prognóstico entre os intensivistas e a família do paciente pediátrico crítico

Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP)

É entendendo a importância da comunicação clínica e da abordagem centrada na pessoa — não só na doença — que surgem novos modelos de consulta com a intenção de ajudar os médicos a conduzirem adequadamente os encontros com os pacientes. Um dos mais conhecidos é o Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP), que se destaca por se adaptar às necessidades específicas dos pacientes e às características dos entendimentos atuais que as pessoas possuem sobre saúde e sobre doença. O Portal Pebmed irá abordar esse método em uma série de textos, discutindo cada um de seus quatro componentes:

  1. Explorando a saúde, a doença e a experiência da doença.
  2. Entendendo a pessoa como um todo — o indivíduo, a família e o contexto.
  3. Elaborando um plano conjunto de manejo dos problemas.
  4. Intensificando a relação entre a pessoa e o médico.

Mas o que torna o MCCP especialmente adequado para as consultas de hoje? Por que ele é importante para que o médico tenha sucesso no cuidado de seus pacientes? O MCCP possui como base uma mudança na mentalidade sobre a relação médico-paciente. Tradicionalmente, o médico é visto como “detentor do conhecimento”, sendo o paciente um mero receptor de informações. O MCCP traz a proposta de mudança nessas “relações de poder”, reconhecendo a consulta como um encontro de especialistas: o médico, especialista em medicina; e o paciente, especialista nele mesmo. Nesse sentido, leva-se em consideração, na abordagem e no planejamento terapêutico, características do contexto de vida, ideias, expectativas, medos e até preferências do paciente, em um encontro equilibrado com o melhor conhecimento técnico-científico disponível. 

A importância da “horizontalização” da relação entre médico e paciente aumenta ainda mais no contexto atual, onde todo tipo de informação encontra-se facilmente acessível a qualquer momento. Na grande maioria das vezes, o paciente já chega à consulta tendo se informado, através de outras pessoas, da internet etc, a respeito do sintoma que apresenta. Mudar sua primeira impressão, quando necessário, nem sempre é tarefa simples. É papel do médico “convencer” o paciente a seguir o plano terapêutico — pois dessa adesão depende o sucesso do tratamento — e isso geralmente não se dá de outra maneira que não através de uma construção pactuada com ele. É preciso valorizar o conhecimento e os entendimentos prévios que o paciente traz à consulta para, a partir deles, construir uma conduta que faça sentido para o paciente, garantindo assim a sua adesão.

Fatores externos

O MCCP também procura valorizar os aspectos biopsicossociais que influenciam na saúde do paciente, não somente os orgânicos e biológicos. A descoberta dos micro-organismos em meados do século XIX revolucionou a medicina, permitindo a prevenção e o tratamento de doenças para as quais anteriormente não se sabia a causa. Do mesmo modo, o reconhecimento do impacto de fatores relacionados à saúde mental, a questões sociais, familiares e emocionais surge mais recentemente como um novo paradigma para ajudar a tratar melhor da saúde dos pacientes. Soma-se ao conhecimento biomédico a abordagem integral da pessoa em seus mais diversos contextos de vida para garantir o melhor cuidado à saúde. O Método Clínico Centrado na Pessoa foi construído para levar todos esses aspectos em consideração.

Saiba mais: Atributos da Atenção Primária: você sabe o que é competência cultural?

Por fim, a relação médico-paciente ganha importância ainda maior através do método, com o reconhecimento da confiança mútua entre profissional e pessoa para o sucesso dos acompanhamentos e tratamentos de saúde. Desde o ambiente seguro de consulta até a essencial postura de escuta e empatia pelo médico, o Método Clínico Centrado na Pessoa sistematiza o fortalecimento dessa relação como um passo necessário para um cuidado em saúde significativo e de bons resultados. Conversaremos sobre os quatro componentes do MCCP, bem como sobre as tarefas e etapas de cada um deles em próximos textos aqui no Portal. Até lá!

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Stewart M, Brown JB, Weston WW, McWhinney IR, McWilliam CL, Freeman TR. Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2017.
  • Duncan BB, Schmidt MI, Giuliani ERJ. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • Freeman TR. Manual de medicina de família e comunidade de McWhinney. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2018.
  • Gusso G, Lopes JMC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2ª edição. Cap. 15: Consulta e abordagem centrada na pessoa. Editora Artmed, 2019.
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Publicado por
Renato Bergallo

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