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Você sabe como acontece o descolamento de retina?

Como é minha primeira coluna em oftalmologia para o PEBMED, achei prudente falar sobre um assunto que todos já ouviram falar, mas pouquíssimos sabem realmente do que se trata: o descolamento de retina. Não é raro um paciente receber um diagnóstico de descolamento de retina e colocar questões do tipo: “como assim? mas eu não tive nenhum trauma”  ou “mas eu não sou diabético” e às vezes até questionar a relação com a leitura em movimento (o que não tem absolutamente nada a ver). O mais interessante é que essas dúvidas existem inclusive na cabeça do médico não especialista. Verdade seja dita: oftalmologia é um mundo à parte. Retina então….

Bom, então como a subespecialidade que eu escolhi dentro da oftalmologia foi a retina, acredito que essa coluna pode ser bem elucidativa.

A retina é dividida em Epitélio Pigmentar da Retina (EPR) e Retina Neurossensorial (RN). O EPR é uma camada única de células cuboides que fica “embaixo” ou mais externa à RN. Esta, por sua vez, é formada por neurônios e células estruturais que transformam o estímulo luminoso em potencial elétrico para levar as informações, via nervo óptico, ao córtex cerebral proporcionando a visão. Anatomicamente o complexo pode ser grosseiramente comparado a um “papel de parede” no fundo do olho, onde o papel seria a RN e a tinta da parede o EPR. A RN não é colada ao EPR, apenas anatomicamente justaposta, sendo que esta posição só se mantém por processos fisiológicos como a reabsorção contínua de liquido entre essas estruturas pelo próprio EPR. Qualquer fator que aumente a quantidade de líquido entre a RN e o EPR leva à separação destes, mais conhecida como “descolamento de retina”.

Basicamente existem três tipos de mecanismos que levam ao descolamento de retina: regmatogênico, tracional e exsudativo/seroso.

O descolamento regmatogênico é causado por uma lesão ou rotura na retina, como um rasgo, na retina neurossensorial, por onde entra o vítreo (gel, formado 98% por água, que preenche o segmento posterior do olho e tem íntima relação com a retina), desequilibrando a reabsorção líquida e deslocando a RN. Essa rotura pode ser causada por diversos fatores: trauma, fragilidade retiniana periférica (comum nos míopes) ou o próprio descolamento do vítreo (que ocorre normalmente a partir da quinta década de vida) nos pacientes com vítreo muito aderido à retina. Podemos comparar a um esparadrapo se soltando de um papel.  Na maioria das pessoas o vítreo se solta da retina como se fosse um “post-it” se desgrudando do papel, sem causar qualquer dano, enquanto em algumas pessoas ele se solta como um esparadrapo muito aderido se soltaria de um papel, isto é, “rasgando” a retina. O sintoma principal do paciente quando isto ocorre é a fotopsia (ou visão de flashes luminosos) normalmente no campo visual periférico.

Veja também: ‘Já é possível fazer exames de retina usando um smartphone’

Os descolamentos tracionais são causados por alterações no vítreo que levam à tração e consequente deslocamento da RN, como se fosse uma “tenda”, sem necessariamente haver rotura retiniana (que pode ocorrer, causando o que chamamos de descolamento misto). Como se puxássemos uma área no meio do tapete até se soltar do chão, mas sem rasgar. Ocorrem em patologias com alterações vítreas, cuja mais comum é o diabetes.

Os descolamentos exsudativos ou serosos são causados por fatores que aumentam a produção de líquido ou diminuem sua reabsorção entre a RN e o EPR, como inflamações e tumores (aumento da produção) ou disfunções do EPR (diminuição da reabsorção).

O tratamento dos descolamentos regmatogênico e tracional é majoritariamente cirúrgico, enquanto o descolamento seroso ou exsudativo normalmente não necessita de cirurgia. Os quadros são de perda visual súbita, afetando parcialmente ou totalmente o campo visual, e devem ser prontamente encaminhados ao oftalmologista retinólogo para abordagem rápida com o tratamento indicado. É muito importante a triagem com o exame de mapeamento de retina periódico em pacientes com fatores de risco como miopia, história familiar de descolamento de retina, diabetes, trauma e pacientes submetidos a cirurgias intraoculares, bem como o pronto encaminhamento para exame de pacientes com sintomas como fotopsias ou manchas de aparecimento súbito no campo visual.

E então? Deu para esclarecer um pouco mais sobre o tema? Espero que sim. Deixe sua opinião, e caso tenha ficado alguma dúvida me mande um e-mail (j.lomelino@gmail.com).

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