Pediatria

Whitebook: Dia Mundial de Conscientização do Autismo

Tempo de leitura: 4 min.

Ontem foi o Dia Mundial de Conscientização do Autismo e por isso, em nossa publicação semanal de conteúdos compartilhados do  Whitebook Clinical Decision  uma das conteudistas vai falar sobre o assunto também.

Trabalhar na UTI com crianças com espectro autista sempre é um grande desafio. O ambiente da UTI é estressante para todas as crianças, e quando precisamos internar crianças com esse transtorno, essa situação é potencializada.

Eu me lembro do último paciente que precisei hospitalizar com autismo. Um menino de 5 anos com crise de asma. Precisava se manter no cateter nasal de oxigênio, mas pela hipersensibilidade sensorial, o menino não conseguia tolerar o uso do oxigênio, a monitorização, e nem mesmo o espaçador que usamos para realização do salbutamol.

Aliado a isso, ainda tinha todo o barulho que os monitores faziam, gerando mais estresse para a criança. Até a alimentação era prejudicada: a criança tinha uma seletividade alimentar importante, e aceitava muito pouco toda a alimentação oferecida na UTI.

Apesar de toda a dificuldade, com muita paciência e amor, conseguimos contornar todas as dificuldades e tratar o paciente adequadamente. Vale lembrar da importância da família para os cuidados: a mãe, uma verdadeira guerreira, apoiou e auxiliou durante todo o processo, facilitando a melhor oferta de cuidado para essa criança.

Devemos sempre nos recordar disso ao lidarmos com pacientes com espectro autista e doença grave que necessitem de hospitalização. Tentar ao máximo flexibilizar os cuidados, dentro do possível, para gerar o menor estresse, viabilizar os cuidados e melhorar o prognóstico dessas crianças.

Autora:

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Este conteúdo deve ser utilizado com cautela, e serve como base de consulta. Este conteúdo é parte de uma conduta do Whitebook e é destinado a profissionais de saúde. Pessoas que não estejam neste grupo não devem utilizar este conteúdo.

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Transtorno do Espectro Autista

Anamnese

A apresentação clínica pode ser bem diversa, desde sintomas bem evidentes até características sutis.

A idade de início dos sintomas pode variar. Em geral, o quadro é reconhecido aproximadamente com dois anos de idade, mas em casos graves pode ser suspeitado antes de 12 meses e em casos leves pode haver demora no diagnóstico.

Conforme o nome “espectro” sugere, existem formas variadas de apresentação do quadro. Algumas crianças podem apresentar sintomas desde um ano de idade e outras podem ter desenvolvimento normal até que haja uma estagnação ou regressão dos marcos de desenvolvimento da linguagem. Essa regressão pode ocorrer de forma gradual ou abrupta.

Os sintomas são agrupados, principalmente, em dificuldade na comunicação e interação social, comportamento, interesses e atividades restritas e repetitivas. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, evoluir com limitação e dificuldades no dia a dia e ficar bem revelados a partir do momento que as demandas sociais excederem as capacidades do indivíduo.

Fatores de risco:

    Interação de fatores genéticos com pré e perinatais:
  • Genéticos: suscetibilidade genética de 40-90%, com alto risco de recorrência entre irmãos (2-19%) e em gêmeos (37-90%);
  • Pré-natais:
    • Idade materna ou paterna avançada;
    • Diabetes gestacional;
    • Hipertensão arterial e obesidade durante a gestação;
    • Exposição a pesticidas, uso de valproato e exposição à poluição durante a gestação;
    • Incompatibilidade imunológica mãe-feto;
    • Hemorragia gestacional materna;
    • Primigesta.
  • Perinatais:
    • Baixo peso ao nascer;
    • Complicações no cordão umbilical;
    • Prematuridade;
    • Trauma ao nascimento;
    • Hipoxia ao nascimento;
    • Incompatibilidade ABO ou Rh;
    • Hiperbilirrubinemia;
    • Baixo Apgar no quinto minuto;
    • Má formação congênita.

Dificuldade na Comunicação e na Interação Social

  • Déficit na reciprocidade social: falta de interesse por outras crianças, uso dos outros como ferramentas, falta de reciprocidade no sorriso social, falta de empatia pelo sofrimento alheio, não demonstram interesse em imitar outras pessoas, não têm interesse em mostrar um novo objeto para o cuidador, não demonstram necessidade de compartilhar interesses com outras pessoas, só iniciam interação social para ganhar ajuda;
  • Déficit na comunicação não verbal: dificuldades para interpretar comportamentos não verbais (olhar, expressão facial, gestos, postura corporal); bebês podem não realizar contato visual e, depois, as crianças podem ter dificuldade em manter contato visual, resistir a abraços e não estender os braços na antecipação de ser pego no colo;
  • Dificuldade nas relações sociais: pouco ou nenhum interesse em relações com seus pares, preferência de atividades solitárias; quando demonstram interesse na interação social, apresentam dificuldade na compreensão de qual comportamento é adequado para a situação e para os sentimentos alheios. Dificuldade de fazer amigos. A partir de 4 anos, incapacidade de entender a perspectiva de outra pessoa.

Comportamento, interesses e atividades restritas e repetitivas também são característicos:

  • Comportamentos estereotipados: maneirismos motores ou movimentos corporais complexos; alinhamento de objetos no mesmo número da mesma forma estereotipada; ecolalia; frases idiossincráticas; comportamentos de autoinjúria;
  • Insistência excessiva em manter a rotina e comportamentos: dificuldades com transições e mudanças; necessidade da mesma rotina diariamente; aderência inflexível a rotinas e rituais específicos e não funcionais; comportamentos compulsivos;
  • Interesses restritos: características de interesses restritos e estereotipados que são anormais tanto no foco quanto na intensidade; preocupação insistente com objetos não usuais;
  • Percepção sensorial: hiperresponsividade e respostas paroxísticas a estímulos ambientais. Exemplos: recusa em comer alimentos com determinadas texturas ou comer apenas comidas com determinadas texturas; preocupação em cheirar ou lamber objetos; resistência ao toque ou sensibilidade aumentada para certos toques; aparente indiferença à estímulos dolorosos;
  • Prejuízo da intelectualidade: as habilidades cognitivas quase sempre estão comprometidas; as habilidades verbais costumam ser mais afetadas que as não verbais;
  • Prejuízo da linguagem: ocorre atraso ou completa ausência da linguagem falada, com maior prejuízo na linguagem receptiva do que na linguagem expressiva; sons ou palavras estereotipadas, sem intenção comunicativa; inversões ou mau uso de pronomes; uma parte dos pacientes consegue ler, mas não necessariamente compreendem a leitura;
  • Alterações comportamentais: comportamento agressivo dirigido a si ou a outros (ex: se morder, bater-se, etc); birras graves e às vezes de difícil controle e que podem ou não ter um fator desencadeante (podem ser espontâneas); déficit na atenção; hiperatividade; alterações do humor; ilhas de conhecimento em que se demonstra uma forma de aptidão maior para aquela área (ex: cálculos ou música);
  • Alterações no sono: muitos pacientes apresentam insônia.
Este conteúdo foi desenvolvido por médicos, com objetivo de orientar médicos, estudantes de medicina e profissionais de saúde em seu dia a dia profissional. Ele não deve ser utilizado por pessoas que não estejam nestes grupos citados, bem como suas condutas servem como orientações para tomadas de decisão por escolha médica. Para saber mais, recomendamos a leitura dos termos de uso dos nossos produtos.

 

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Publicado por
Dolores Henriques

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