Medicina de Família

WONCA 2022: 7 valores centrais sobre o que é exercer medicina de família

Tempo de leitura: 4 min.

O segundo dia da conferência europeia do WONCA 2022 teve em sua sessão plenária principal um marco histórico para a construção da identidade de pessoas médicas de família ao redor de todo mundo. Citando Bárbara Starfield em sua fala inicial o professor da University College London, Martin Marshall, provocou a todos assinalando como as pessoas performam melhor com a atenção primária.  

Para entender isso, Marshall abordou o papel do médico de família em um cuidado baseado na relação, ou no relacionamento, entre médicos e pacientes. Ao resgatar os atributos centrais da atenção primária, o professor britânico utilizou o storytelling como uma ferramenta para entregar uma mensagem: continuidade do cuidado é fundamental parte de atuar em medicina de família e comunidade. 

A continuidade do cuidado em uma forma de atuação que traz um conhecimento acumulado do paciente, tanto para o profissional quanto para o paciente, constrói, nas palavras de Marshal “um aumento de cinco vezes no senso de responsabilidade sobre um paciente em um médico de família apenas após 12 meses de continuidade e de 16 vezes após cinco anos”. 

Essa continuidade de cuidado traz um resultado em termos de gestão em saúde que otimiza os melhores desfechos clínicos com o menor custo, gerando uma balança muito positiva de custo-efetividade. Contudo, os desafios profissionais não são pequenos. Entre eles, temos o tempo. O tempo, que é o aliado das relações, também é o recurso escasso. Assim como na maior parte do Brasil, a média de tempo de consulta de um médico de família britânico é de 15 minutos por consulta, o segundo menor na Europa, atrás apenas da Alemanha. 

As ferramentas para superação desse desafio são muitas. O aspecto central de todo o processo é a construção de confiança. Medicina é essencialmente o estabelecimento de uma relação de confiança. Contudo, conforme Marshall nos alerta, a construção dessa confiança em um curto espaço de tempo é um problema cujas ferramentas para solução não estão nas ciências biológicas, mas sim na psicologia, ciências sociais e humanidades. 

Esse parece ser um paradoxo ou contrassenso com outras ferramentas que parecem provocar uma transformação na forma de praticar medicina de família e comunidade em um contexto transformado pela emergência sanitária global. Assim é o caso das ferramentas tecnológicas, que precisam ser utilizadas a nosso favor para um cuidado melhor em saúde.

“Continuidade de… mudança?”

Com essa conclusão Marshall entregou a palavra para a professora Anna Stavdal, atual presidente da WONCA. Anna brincou com as palavras logo no início de sua apresentação intitulada “Continuidade de… mudança?”.  

Stavdal retomou os 50 anos da formalização da especialidade medicina de família e comunidade. Em sua fala emocionante definiu o profissional que exerce a medicina de família como alguém que entrega um cuidado personalizado, contínuo, abrangente e com orientação comunitária. 

Embora o jeito de se fazer medicina de família e comunidade tenha mudado muito ao longo das décadas, o prazer pela mudança parece acompanhar a especialidade da mesma maneira, porém sem deixar seus valores básicos em segundo plano. Essa abertura de continuidade para mudança pode ser sentida através do fenômeno de digitalização da saúde, nas palavras da própria professora: “continuidade e mudança não são inimigas, a mudança é a constante”. 

Foi com essa deixa que ela anunciou que durante a abertura do congresso na data de ontem o comitê da WONCA finalizou uma revisão sobre os valores centrais da medicina de família, agora pautados em sete pilares.

Os pilares

Essa revisão da árvore da medicina de família, famosa em toda Europa, inclui agora pilares de equidade como centro da especialidade, juntamente com as saúdes planetária, rural e urbana. Novamente citando a professora: “precisamente por nos mantermos em evolução com nossos valores centrais fundamentais, eles resistem”. 

Finalmente Anna trouxe um ponto conhecido de todos os médicos de família brasileiros: assistência à saúde é indissociável de assistência social, ainda que em muitos sistemas esses setores sejam pensados e geridos separadamente. A pandemia trouxe essa verdade incontestável para o centro do debate público. 

Isso faz parte da construção do presente e do futuro da identidade profissional da medicina de família, que é um futuro feminino em todo o mundo, embora ainda se lute com grandes preconceitos e misoginias. Em sua fala a pesquisadora citou os resultados da psicóloga Judith Hall dizendo que “altamente verbal, o comportamento centrado no paciente de mulheres médicas não é reconhecido como um marcador de sua competência clínica como isso é feito em relação aos médicos homens, ao invés disso é visto como esperado do comportamento feminino”. 

Adaptação e socialização. Esse são, portanto, núcleos da especialidade que se traduzem em necessidades de serem tão íntimos desses profissionais que constroem a sua identidade com a necessidade de constante adaptação em relação à mudança, mantendo eficientes os times de cuidado em saúde na atenção primária, nutridos por seu comprometimento com a empatia.

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Publicado por
Marcelo Gobbo Jr
Tags: WONCA 2022

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