Medicina de Família

WONCA 2022: Uso da inteligência artificial na APS pode solucionar o problema do acesso?

Tempo de leitura: 6 min.

Vivemos uma peculiaridade nesse século em relação à força de trabalho médica: o avanço tecnológico exponencial faz com que ao mesmo tempo diversas gerações com experiências muito diversas de acesso à informação coexistam. Isso se traduz em maneiras muito diferentes de tratar o acesso à informação, especialmente a informações de saúde. 

Encontramos na prática clínica profissionais que se formaram e atuaram sem nenhum recurso eletrônico ou acesso à internet, que buscavam as informações em livros e em artigos científicos. Também encontramos aqueles que conheceram a internet e o uso de computadores ao longo do seu período de formação médica, boa parte dessa geração hoje atua formando novos profissionais. Essa geração conviveu com livros e outras formas de mídia escrita como sua principal fonte de informação. Finalmente temos uma geração de que entra no mercado de trabalho tendo se construído como indivíduos totalmente dentro de um mundo digital, que consegue consumir informação de modo instantâneo e que consegue acessar dúvidas rapidamente em seus smartphones a todo instante. 

Esses diferentes perfis de profissionais se mesclam aos diferentes perfis de pacientes, o que gera uma percepção e dores muito diferentes em relação a um ponto em comum: a jornada do paciente previamente à consulta médica.

Saiba mais: Inteligência artificial na avaliação das doenças pulmonares

Acesso

O acesso ao serviço de saúde se dá de diferentes formas, não apenas no formato de atendimentos médicos. Várias portas de entrada podem garantir acesso ao cuidado em saúde, mas em todas elas existe um momento crucial que é a tomada de decisão do paciente acerca do momento em se procurar o serviço de saúde. Esse processo de tomada de decisão ocorre através da percepção de que existe uma necessidade em saúde, frequentemente um problema clínico que estamos habituados a denominar de sintomas. Para se decidir sobre isso é necessário conhecer sua própria saúde, entender que aquela experiência tem aspectos que fogem do habitual e assim decidir sobre a visita ao profissional de saúde. 

Em uma era pré-internet o momento de preparação para a tomada de decisão sobre visitar um serviço de saúde ocorria através da troca de informações entre pessoas de confiança, como familiares e amigos, essencialmente. Isso se dava assim por uma escassez de informações livres sobre saúde, esse era um nicho de informações protegidas e acessíveis apenas para um público técnico com formação acadêmica de interesse na área.  

Por outro lado, quanto mais avançamos no tempo, mais livre e acessível é a informação. Tão livre e acessível que hoje defender-se de conteúdos irrelevantes ou informações falsas é uma habilidade necessária para construção de conhecimentos sólidos. Com as informações a um click de distância, o momento de preparação para a tomada de decisão sobre visitar um serviço de saúde ocorre através da verificação de sintomas e problemas de saúde em buscadores eletrônicos, como o Google. 

Essa limitação de acesso ao conhecimento frente ao imenso volume de acesso à informação cria um enorme desbalanço nas relações médico-paciente que nos ajuda a entender um dor muito frequente entre todos nós médicos: a repulsa ao ‘Dr. Google’. Essa sensação e essa dor acontecem por um fenômeno facilmente demonstrável: grande parte das consultas presenciais (entre 30 e 50% delas) são desnecessárias e poderiam ser resolvidas caso o paciente tivesse maior autonomia.  

Em média 70% das buscas realizas no Google são relacionadas à saúde. O grande dilema desse processo de algoritmo de busca é que ele não é pensado em termos de saúde, não considera aspectos de probabilidade e incertezas, descrição de sintomas, experiências de doenças ou outras variáveis, mas de palavras-chave. Esse modo on demand de checagem de sintomas também não leva em conta fatores de risco para tomada de decisão, e assim muitas visitas são desnecessárias e muitas visitas necessárias acabam não ocorrendo, o que faz a seguinte questão a incógnita cara para os sistemas de saúde: ‘eu preciso ir ao médico?’.

Inteligência artificial

Para solucionar esse problema o italiano Matteo Berluchi, CEO da healthtech Health, apresentou uma solução ousada baseada no uso da inteligência artificial para a tomada de decisão de adentrar o sistema de saúde: introduzir uma nova camada de acesso anterior ao contato com o profissional de saúde.  

Durante sua palestra, Berluchi apresentou a solução proposta pelo seu time para esse problema, o AIMedTM: Smart Augmented Intelligence, um sistema que conta às pessoas se elas precisam ou não ver o médico com uma segurança de 97,8%. 

A plataforma utiliza um sistema de linguagem natural para a partir da queixa do usuário em suas próprias palavras ir adicionando camadas de informações para denominar sintomas, sinais de alarme, fatores de risco, questões epidemiológicas em uma árvore de decisões que é pensada de forma bem divergente de uma busca de termos aleatória em um buscador eletrônico. 

A esse processo ele denomina inteligência aumentada, e isso se diferente muito da inteligência artificial criada a partir de machine learning. Enquanto no primeiro caso o processo de tomada de decisão ou de aprendizagem segue rotinas fixas e camadas de regras hierarquizadas pré-determinadas – como a incidência de um agravo duas vezes mais provável em uma faixa etária do que em outra – no segundo caso o que ocorre é que a rotina para tomada de decisões vem de um banco de dados com hipóteses a serem constantemente testadas e validadas, com um crescimento proporcional ao que se alimenta do banco de dados. Isso gera muitos vieses quando se pensa no mapeamento do processo de tomada de decisão do médico (como por exemplo a incidência de um dado agravo não proporcionalmente representado pelo recorte populacional que constitui o banco de dados). Esse processo se assemelha muito mais ao primeiro modelo do que ao segundo.  

O que o CEO demonstrou, em suas próprias palavras é que: “o autocuidado é a peça mais importante da atenção primária como isso o que acontece antes de todas as visitas de um paciente ao médico e em muitos casos é um fator que previne o paciente de realmente realizar uma consulta médica”.  Diferentemente de uma teletriagem, a solução proposta por esse time é baseada na criação de autonomia, não é diagnosticar, mas de fato orientar o que fazer e otimizar o cuidado em saúde levando à unidade de saúde quem de precisa ir à unidade de saúde, o que permite um melhor gerenciamento de tempo do profissional e de outros recursos de saúde. 

Embora em termos de escalabilidade no cenário brasileiro ainda estejamos alguns passos atrás do cenário europeu, especialmente pela dificuldade de acesso à internet em muitas regiões do país, essa não é uma realidade tão distante em centros maiores, como na região sudeste. Porém, enquanto essa realidade ainda não é massiva em nosso país essa conferência nos permite algumas mensagens importantes para levarmos para casa: 

  • O autocuidado pré-acesso ao serviço de saúde é uma das maiores oportunidades de geração de valor na atenção primária à saúde;
  • O autocuidado nasce de um acesso seguro à informação e pode ser reforçado pelo profissional de saúde como uma ferreamente que facilite e não que dificulte seu trabalho;
  • Criar camadas de acesso pré-visita ao serviço de saúde que sejam baseadas em promoção do autocuidado, ainda que não necessariamente com uso de tecnologias pesadas, é um caminho possível para otimização de acesso e gestão de agenda do profissional na atenção primária à saúde.

Acompanhe a cobertura completa do WONCA 2022 com a gente, no Portal, Twitter e Instagram!

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Publicado por
Marcelo Gobbo Jr

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