Enfermagem

A ansiedade: como enfrentá-la no ambiente de trabalho?

Tempo de leitura: 5 min.

Antes de tudo, se faz necessário compreender que a ansiedade é uma reação normal do corpo, frente a situações de risco ou tomadas de decisões compreendidas como complexas. Quando a ansiedade começa trazer transtornos para a pessoa, pode haver o início de um quadro patológico, o que se caracteriza os transtornos de ansiedade. Esses são diversos e se constituem por um grupamento de comportamento frente à crise ou aos sintomas de ansiedade.

No mundo do trabalho é comum em entrevistas, apresentações, ou em momentos importantes que o nível de ansiedade das pessoas aumente. No entanto, são outras situações que preocupam em relação à ansiedade. As relações interpessoais, política da empresa, vulnerabilidades do ofício, más condições de trabalho e outros problemas como assédio moral e pressão por produção ou rendimento. Cabe lembrar que muitas vezes os transtornos de ansiedade não estão ligados ao trabalho, mas se reflete nele. 

Saiba mais: Conheça a nomofobia ou no-mobile: a ansiedade por afastamento do celular

Ansiedade e o mundo corporativo 

 Com a era da produtividade as relações de trabalho não conseguem atingir um caráter meramente existencial, ou seja, pessoas muitas vezes sequer conseguem seguir suas vocações, mas buscam empregos que as gerem melhores possibilidades de trabalho e renda. Esse fenômeno provoca alta insatisfação na produção do ofício, estresse e até infelicidade. Outro ponto, se dá na própria lógica das empresas. Algumas se findam no funcionário como mera engrenagem da produção. Dessa forma, esses não possuem possibilidade de atingir necessidades secundárias como segurança no trabalho, reconhecimento e autorrealização.

Lembro que necessidades básicas podem se materializar nas necessidades alimentares, de moradia e em relação ao sono ou descanso.  Essas questões aqui tratadas interferem diretamente nas questões que levam a redução da condição de saúde e levam até a pessoa a não atingir um estado de felicidade diante do trabalho.

Indubitavelmente, pessoas que não se sentem felizes ou que não vislumbram melhores possibilidades de vida, são pessoas mais vulneráveis ao adoecimento psíquico. O quadro mais comum, produto do sofrimento, é a ansiedade. Como disse anteriormente, a ansiedade é um movimento do corpo se preparando para uma possível ameaça. Por isso, se nós no ambiente de trabalho, compreendermos que o local não é apropriado podemos ter o início de sintomas de ansiedade, caminhando para um possível transtorno.

Quando digo “não apropriado” quero dizer por algumas questões complexas do sujeito e externas a ele, como por exemplo, quando o trabalhador não se sente bem no trabalho por questões pessoais, ou por se alocar em local distante de sua vocação ou capacitação. Essas últimas são problemas também das empresas que muitas vezes não pensam que essas condições provocam turnover e o absenteísmo. O que há de grave nesta questão é que o afastamento do trabalho, vem sendo ligado a vulnerabilidade na condição de saúde. “Estudos brasileiros elencam os transtornos de ansiedade como uma das principais causas de afastamentos laborais dentre os transtornos mentais e comportamentais¹.”

Os afastamentos por transtornos de ansiedade em benefício do auxílio-doença previdenciário, foi um dos benefícios mais concedidos pelo governo aos trabalhadores. E assim, ao observar tais afastamentos foi concluído que transtornos mistos de ansiedade e depressão, ansiedade generalizada e pânico foram os mais prevalentes¹. Outro estudo aponta que existe relação entre as condições de trabalho e a ocorrência dos transtornos de ansiedade². É importante compreender que algo pode ser feito para frear o avanço da ansiedade e redução da qualidade de vida de profissionais. E dessa forma para outros estudiosos “a percepção de suporte social de pares e da chefia ao lado da autonomia no trabalho, atenuam o impacto negativo do estresse sobre o bem-estar” ³. Por isso, torna-se importante compreender os sinais e sintomas da ansiedade no mundo do trabalho para que haja identificação do problema e criar medidas de intervenção que podem ser realizadas por empresas e por profissionais.

Principais causas de ansiedade no trabalho

Relacionado, carreira e a satisfação profissional se relacionam o tempo todo nas questões que geram ansiedade. No geral, a lógica da produtividade e as cargas de trabalho em excesso, além de questões anteriormente discutidas levam o profissional à exaustão. Cabe lembrar que profissionais da saúde estão entre os mais afetados, uma vez que lidam com a vida e morte, além de toda peculiaridade que estamos vivendo na pandemia. Outras questões se fazem relacionadas a busca da perfeição e a concorrência presente no mercado de trabalho. Essas questões geram gatilhos importantes que geram ansiedade e em sua complicação transtornos relacionados. No atual momento, a crise econômica provocada pela pandemia é outra preocupação que pode atingir profissionais de todas as áreas.  Chamo atenção que a falta de atenção das empresas para o problema pode gerar muitos problemas à saúde do trabalhador. Entre as principais questões relacionadas podemos destacar:

  • Excesso de responsabilidades para os profissionais;
  • Metas muito difíceis ou impossíveis de serem alcançadas;
  • Relacionamento agressivo ou abusivo entre os profissionais ou chefias;
  • Prazos de entrega de serviço ou produto em tempo não adequado;
  • Excesso ou sobrecarga de trabalho 

Caso a pessoa esteja passando por essas situações ela pode desenvolver sintomas de ansiedade, vamos conhecer alguns dos possíveis sinais relacionados aos transtornos de ansiedade:

  • Angústia;
  • Falta de ar;
  • Agitação psicomotora;
  • Taquicardia;
  • Náuseas e vômitos;
  • Diarreia;
  • Problemas relacionados ao sono;
  • Distúrbios alimentares;
  • Cefaleia 
  • Apreensão;
  • Distúrbios sexuais;
  • Agressividade;
  • Tensão muscular;
  • Pensamento catastrófico;
  • Preocupação excessiva com o futuro;
  • Pânico e reações de austeridade frente ao trabalho.

Saiba mais: O caso Simone Biles: a importância do cuidado à saúde mental

O afastamento do trabalho por transtornos de ansiedade vem progredindo a cada ano. Por isso, governos, empresas e a população precisam colocar o mais rápido possível o tema em discussão. Não é bom para a economia do país, para a saúde das pessoas e para a saúde das empresas que os trabalhadores estejam doentes. É preciso que em um conjunto de ações sejam realizadas e que essa, seja uma preocupação de todos. As empresas são peça fundamental nessa questão, uma vez que podem evoluir enquanto instituição, construindo um ambiente corporativo mais saudável e feliz, longe da ansiedade e depressão. Essa construção além de ser humanitária, promove a diminuição do turnover e do absenteísmo, além de gerar mais produtividade nas empresas. É importante dizer que uma empresa onde as pessoas são cuidadas e possuem segurança e bem estar, elas querem permanecer, e ainda, promover seu crescimento. Por isso, essas questões devem ser analisadas com maior cuidado por todos nós. 

Autor:

Referências bibliográficas:

Compartilhar
Publicado por
Rafael Polakiewicz

Posts recentes

Mediastinite fibrosante: o que precisamos saber

A mediastinite fibrosante (MF) é uma doença rara, caracterizada pela proliferação de fibrose localmente invasiva…

8 horas atrás

Check-up Semanal: oseltamivir na prática clínica, infecção urinária na gestação e mais!

No check-up semanal de hoje, confira: oseltamivir na prática clínica, infecção urinária na gestação e…

9 horas atrás

Como aplicar uma evidência na prática: decisão médica compartilhada

A nova edição da Revista PEBMED abordará Medicina Baseada em Evidências. Aqui, comentamos sobre o uso…

10 horas atrás

Critérios para insuficiência hepática aguda pediátrica: Orientações baseadas a partir do painel PODIUM 

A insuficiência hepática aguda é uma síndrome complexa, grave e rara em crianças e apresenta…

12 horas atrás

Existe algum grupo de maior risco entre os pacientes com score de cálcio 0 na tomografia de coronárias?

O score de cálcio 0 é associado com baixo risco de eventos cardiovasculares e pode…

13 horas atrás

Nutrição Enteral na UTI: 10 dicas para a prática clínica

A importância da nutrição no paciente grave tem sido cada vez mais reconhecida, especialmente nos…

14 horas atrás