Pediatria

Quais fatores no manejo de hemodiálise contínua podem alterar a sobrevivência de crianças graves com lesão renal aguda?

Tempo de leitura: 4 min.

A lesão renal aguda ocorre em mais de um quarto das crianças em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) na primeira semana de internação. Mesmo com os avanços em Terapia Intensiva Pediátrica e na terapia dialítica, a mortalidade das crianças graves em diálise contínua varia de 36 a 68,9%.

Com o objetivo de analisar as mudanças no manejo da terapia dialítica contínua ao longo do tempo e sua implicação na mortalidade, Chen e colaboradores publicaram, em maio de 2021 na revista Pediatric Critical Care Medicine, um estudo observacional retrospectivo envolvendo 289 pacientes com lesão renal aguda submetidos à hemodiálise contínua de uma UTIP terciária situada em Guangzhou na China. Neste artigo, destacaremos as principais contribuições desse estudo.

Saiba mais: O uso de diuréticos em neonatos prematuros com lesão renal aguda (LRA)

Metodologia

Foi feito um estudo observacional retrospectivo envolvendo 289 pacientes com lesão renal aguda submetidos à hemodiálise contínua de uma UTIP terciária situada em Guangzhou na China. É importante destacar que a UTIP estudada possui 35 leitos e recebe cerca de mil pacientes por ano. O período de estudo foi de janeiro de 2010 a dezembro de 2019, sendo comparados os períodos de 2010-2014 com 2015-2019. 

Foram coletados os seguintes dados: idade, sexo, peso, escore PRISM III, necessidade de ventilação mecânica invasiva, uso de aminas vasoativas, de onde veio transferido (ex. emergência, enfermaria ou outro hospital), percentual de sobrecarga hídrica ao iniciar hemodiálise, síndrome de disfunção múltipla de órgãos (SDMO),  tempo de internação na UTIP, tipo de indicação de diálise e diagnóstico primário na admissão na UTIP. O percentual de sobrecarga hídrica ao iniciar hemodiálise foi calculado usando a seguinte fórmula =  (total de fluido administrado – total de fluido eliminado)/(peso na admissão na UTIP [kg]) × 100.

Resultados

Dos 411 pacientes que foram submetidos a hemodiálise contínua nesses dez anos, foram incluídos 289 pacientes no estudo. Os pacientes eram excluídos do estudo se não encontrassem dados suficientes para análise em seu prontuário ou se abandonassem o tratamento. A idade média dos pacientes estudados foi quatro anos de idade (um a nove anos). O número de pacientes que receberam hemodiálise (HD) contínua aumentou de 66 para 223 comparando os períodos de 2010-2014 com 2015-2019. Não houve diferença significativa entre os períodos quanto a idade, sexo, peso, escore PRISM III, necessidade de ventilação mecânica invasiva, de onde veio transferido (ex. emergência, enfermaria ou outro hospital), síndrome de disfunção múltipla de órgãos (SDMO) ou tempo de internação. 

O período de 2015-2019 teve as seguintes diferenças significativas comparando com o período de 2010-2014:

  • Menor necessidade de uso de aminas vasoativas ([127/223] 57.0% vs. [48/66] 72.7%, p = 0.021);
  • Menor percentual de sobrecarga hídrica ao início da hemodiálise contínua (3.8% [1.6–7.2%] vs. 12.1% [6.6–23.3%], p < 0.001);
  • Menor proporção de pacientes com início da HD após 24 horas da admissão na UTIP ([73/223] 32.73% vs. [40/66] 60.60%, p < 0.001);
  • Menor dose de hemodiálise necessária (33.7mL/kg.h [30.6–37.2] vs.m 50.8mL/kg.h [40.7–59.5], p < 0.001);
  • Maior sobrevivência até alta da UTIP ([131/223] 58.7% vs. [24/66] 6.4%, p < 0.001);
  • Tempos maiores de cursos isolados de HD (33.9 horas [21.1–48.6 horas] vs. 13.7horas [7.5–21 horas], p < 0001), sendo que desde 2013 foi adotada a anticoagulação regional com citrato.

Nas análises de subgrupo quanto à sobrecarga hídrica e quanto ao início da HD a partir da admissão na UTIP, tanto os pacientes com sobrecarga hídrica inferior a 10% quanto os pacientes que iniciaram HD em menos de 24h da admissão da UTIP tiveram menor necessidade de aminas vasoativas e de ventilação mecânica invasiva, ao mesmo tempo que tiveram maiores taxas de sobrevivência.

Ao comparar os pacientes que usaram diferentes métodos de anticoagulação na HD, citrato versus heparina, não houve diferença significativa na necessidade de aminas vasoativas, de ventilação mecânica invasiva, presença de SDMO ou escore de PRISM III. Entretanto, houve maior taxa de sobrevivência nos pacientes que receberam citrato comparado aos que receberam heparina como anticoagulação regional na HD na análise univariada, mas o mesmo não foi observado na regressão multivariada.

A mortalidade global do estudo foi de 46,3% semelhante a outros estudos pediátricos envolvendo crianças graves em HD contínua. 

Limitações

Os pesquisadores apontaram as seguintes limitações de seu estudo: contabilizar o tempo de início da hemodiálise a partir da admissão na UTIP e não do início da lesão renal aguda, ser retrospectivo, feito em uma única UTIP e não conseguir estimar até que ponto o ganho de experiência da equipe de saúde no manejo dos pacientes influi em seus resultados. 

Leia também: Manifesto coloca em pauta a crise da diálise no SUS

Conclusões

Chen e colaboradores observaram que os pacientes com percentual de sobrecarga hídrica inferior a 10% quanto os pacientes que iniciaram HD em menos de 24h da admissão da UTIP tiveram maiores taxas de sobrevivência assim como menor necessidade de aminas vasoativas e de ventilação mecânica invasiva.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Chen Z, Wang H, Wu Z, Jin M, Chen Y, Li J, Wei Q, Tao S, Zeng Q. Continuous Renal-Replacement Therapy in Critically Ill Children: Practice Changes and Association With Outcome. Pediatr Crit Care Med. 2021 May 7. doi: 10.1097/PCC.0000000000002751. Epub ahead of print. PMID: 33965990.
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Publicado por
Renata Carneiro da Cruz

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