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Qual é o valor do sistema de saúde?

Tempo de leitura: 4 minutos.

O sistema de saúde, centrado até então na cura de doenças, tem passado por fortes transformações estruturais, as quais demandam atenção. O envelhecimento e a longevidade da população, aliados a hábitos mais saudáveis adotados pelas pessoas, têm reorientado o sistema de saúde para um modelo focado em mudanças e não mais em cura. Para considerar seu impacto, é preciso ter em mente os fatores que levaram a essa mudança.

É de conhecimento público que o sistema de saúde necessita de medidas urgentes para adequar-se às demandas populacionais. Falta de leitos, hospitais atrasados e corpos clínicos despreparados são algumas das consequências do lento e desestruturado funcionamento do sistema. Os problemas decorrem principalmente da desigualdade ao acesso de atendimento, à sua alta fragmentação e aos crescentes custos que inviabilizam a prestação de serviços e encarecem os valores dos atendimentos.

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Para que haja uma mudança significativa no sistema de saúde, é preciso um modelo que implemente medidas como: a reformulação do modelo de atendimento/tratamento ao paciente baseado em especialidades médicas para atendimento integrado com base numa visão holística do paciente; o realinhamento das relações do trabalho médico, com remuneração não mais baseada em volume de consultas, mas sim em uma base de valor; e a revisão completa das bases econômicas estabelecidas entre os vários elos do sistema de saúde, como os meios de pagamento e as remunerações praticadas ao longo da cadeia.

Nesse sentido, um dos principais modelos que tem buscado alterar a estrutura do sistema de saúde é o Value Based Healthcare (VBHC) . O modelo que, para gerar valor, propõe relacionar o resultado da assistência à saúde aos seus custos associados, foi apresentado inicialmente pelos professores Michael Porter (autor do livro Estratégia Competitiva) e Elizabeth Teisberg (autora do livro Repensando a Saúde), e vem sendo aprimorado e posto em prática tanto na reformulação de políticas públicas, como na mudança de procedimentos médicos.

Ao analisar o VBHC, existem quatro fatores-chave para a implementação do modelo na Gestão da
saúde:

  1. Existência de contexto, políticas e instituições favoráveis para o VBHC;
  2. Estabelecimento de metas de resultados e levantamento de custos associados à saúde;
  3. Orientação para um atendimento integrado e centrado no paciente;
  4. Adoção de um modelo de remuneração baseada em resultado e valor.

O primeiro fator-chave evidência um ambiente externo marcado por forte recessão – a maior e mais longa recessão econômica já registrada – no Brasil, local onde esse movimento iniciou, além de elevada proporção da população sem condições de arcar com os preços do atendimento privado e um sistema de saúde pública em formato “complexo-burocrático-caro-ineficiente”. Apesar de os principais exemplos de alinhamento estrutural ao VBHC virem da Europa e EUA, outros países como a Índia, a Indonésia e mesmo a Colômbia têm desenvolvido sistemas de saúde mais orientados ao VBHC mesmo com limitações orçamentárias.

O segundo fator-chave está relacionado ao problema da lenta evolução do sistema de saúde, o qual requer a existência de registros das doenças, das ações tomadas, dos custos do tratamento e dos resultados atingidos. A inclusão destes dados costuma demandar a implementação de prontuários eletrônicos, infraestrutura robusta e integrada de TI e capacidade de análise dos diversos indicadores de resultados da Saúde. Enquanto alguns países que destinam mais de 10% do PIB para saúde buscam implementar uma estratégia nacional de gestão de informações eletrônicas (por exemplo Japão e EUA), a maioria dos países gasta com a saúde em prioridades locais, como o combate a doenças específicas (HIV e tuberculose) ou a redução das taxas de mortalidade materna e infantil.

O terceiro fator-chave do VBHC trata da implementação de uma assistência de saúde integrada, na qual diversos grupos passam a trabalhar em conjunto de forma a oferecer um serviço centrado no paciente e de forma holística. Neste sentido, começou-se a observar um crescente movimento de algumas operadoras de saúde no Brasil na adoção deste tipo de abordagem junto a seus pacientes e, mais ainda, a oferecer isso como parte de sua oferta de serviço (ex.: médico da família).

O quarto e último fator-chave, não menos importante, aborda a determinação do valor para o paciente (Ex: resolutibilidade) e a vinculação do pagamento pela prestação de serviço aos níveis “resultados-performance-qualidade”. Particularmente neste fator, mesmo os países que optaram por adotar componentes de assistência médica com base em valor ainda estão em estágios iniciais. Assumindo que mudanças relevantes dependem de incentivos e estímulos devidamente alinhados com os resultados a serem atingidos, foi criado há alguns anos a iniciativa global do International Consortium for Health Outocomes Measurement (ICHOM ), focada em desenvolver conjuntos de desfechos relevantes para saúde que servirão de base para um novo modelo de remuneração.

A iniciativa da ICHOM chegou ao Brasil em 2018, a partir da fundação do Instituto Brasileiro de Valor a Saúde (IBRAVS) e que, juntamente com outras iniciativas de melhoria da saúde, pretende contribuir para esse processo de transformação. De fato, as alterações no sistema de saúde que buscam a transição do modelo Cure para o Change necessitam de atenção. Considerar as mudanças ocorridas nos últimos tempos no tema saúde é essencial para entender como o novo sistema de saúde pode melhorar a vida da população.

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Autor:

Engenheiro de Produção pela Poli-USP, Especialização em Áreas de Wealth Management pela Wharton School, Corporate Strategy pela Harvard Business School, Business Strategy pela University of Michigan, Service Marketing pela UC Berkeley, Organizational Development por IESE Business School(Spain) e Strategic Management e TQM pela AOTS (Association for Overseas Scholarship–Japan). Sócio principal da Dextron Management Consulting (boutique especializada em estratégia corporativa, finanças corporativas e governança corporativa em empresas familiares e multinacionais) desde 1992 e da DXCapital Business Advisory (assessoria focada na intermediação de operações de M&A) desde 2007. Anteriormente a Dextron, foi Sócio e Diretor de Consultorias Estratégicas Internacionais (Arthur D. Little, Ernst & Young, KepnerTregoe), de Holding de Investimentos, de Empresas Nacionais e Internacionais (ex.: Grupo Villares, ABB). Associado ao IBGC desde 2005, membro do Comitê de Estratégia desde 2011, ele já atuou e/ou atua como conselheiro de empresas nos setores de varejo, implementos agrícolas, produtos químicos, produtos de consumo, produtos e serviços em saúde, alta tecnologia e start ups. Mais recentemente, o Sr. Ienaga tem atuado como investidor e mentor de startups nas áreas de saúde, educação e agribusiness.

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