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Qual é o valor do sistema de saúde?

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O sistema de saúde, centrado até então na cura de doenças, tem passado por fortes transformações estruturais, as quais demandam atenção. O envelhecimento e a longevidade da população, aliados a hábitos mais saudáveis adotados pelas pessoas, têm reorientado o sistema de saúde para um modelo focado em mudanças e não mais em cura. Para considerar seu impacto, é preciso ter em mente os fatores que levaram a essa mudança.

É de conhecimento público que o sistema de saúde necessita de medidas urgentes para adequar-se às demandas populacionais. Falta de leitos, hospitais atrasados e corpos clínicos despreparados são algumas das consequências do lento e desestruturado funcionamento do sistema. Os problemas decorrem principalmente da desigualdade ao acesso de atendimento, à sua alta fragmentação e aos crescentes custos que inviabilizam a prestação de serviços e encarecem os valores dos atendimentos.

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Para que haja uma mudança significativa no sistema de saúde, é preciso um modelo que implemente medidas como: a reformulação do modelo de atendimento/tratamento ao paciente baseado em especialidades médicas para atendimento integrado com base numa visão holística do paciente; o realinhamento das relações do trabalho médico, com remuneração não mais baseada em volume de consultas, mas sim em uma base de valor; e a revisão completa das bases econômicas estabelecidas entre os vários elos do sistema de saúde, como os meios de pagamento e as remunerações praticadas ao longo da cadeia.

Nesse sentido, um dos principais modelos que tem buscado alterar a estrutura do sistema de saúde é o Value Based Healthcare (VBHC) . O modelo que, para gerar valor, propõe relacionar o resultado da assistência à saúde aos seus custos associados, foi apresentado inicialmente pelos professores Michael Porter (autor do livro Estratégia Competitiva) e Elizabeth Teisberg (autora do livro Repensando a Saúde), e vem sendo aprimorado e posto em prática tanto na reformulação de políticas públicas, como na mudança de procedimentos médicos.

Ao analisar o VBHC, existem quatro fatores-chave para a implementação do modelo na Gestão da
saúde:

  1. Existência de contexto, políticas e instituições favoráveis para o VBHC;
  2. Estabelecimento de metas de resultados e levantamento de custos associados à saúde;
  3. Orientação para um atendimento integrado e centrado no paciente;
  4. Adoção de um modelo de remuneração baseada em resultado e valor.

O primeiro fator-chave evidência um ambiente externo marcado por forte recessão – a maior e mais longa recessão econômica já registrada – no Brasil, local onde esse movimento iniciou, além de elevada proporção da população sem condições de arcar com os preços do atendimento privado e um sistema de saúde pública em formato “complexo-burocrático-caro-ineficiente”. Apesar de os principais exemplos de alinhamento estrutural ao VBHC virem da Europa e EUA, outros países como a Índia, a Indonésia e mesmo a Colômbia têm desenvolvido sistemas de saúde mais orientados ao VBHC mesmo com limitações orçamentárias.

O segundo fator-chave está relacionado ao problema da lenta evolução do sistema de saúde, o qual requer a existência de registros das doenças, das ações tomadas, dos custos do tratamento e dos resultados atingidos. A inclusão destes dados costuma demandar a implementação de prontuários eletrônicos, infraestrutura robusta e integrada de TI e capacidade de análise dos diversos indicadores de resultados da Saúde. Enquanto alguns países que destinam mais de 10% do PIB para saúde buscam implementar uma estratégia nacional de gestão de informações eletrônicas (por exemplo Japão e EUA), a maioria dos países gasta com a saúde em prioridades locais, como o combate a doenças específicas (HIV e tuberculose) ou a redução das taxas de mortalidade materna e infantil.

O terceiro fator-chave do VBHC trata da implementação de uma assistência de saúde integrada, na qual diversos grupos passam a trabalhar em conjunto de forma a oferecer um serviço centrado no paciente e de forma holística. Neste sentido, começou-se a observar um crescente movimento de algumas operadoras de saúde no Brasil na adoção deste tipo de abordagem junto a seus pacientes e, mais ainda, a oferecer isso como parte de sua oferta de serviço (ex.: médico da família).

O quarto e último fator-chave, não menos importante, aborda a determinação do valor para o paciente (Ex: resolutibilidade) e a vinculação do pagamento pela prestação de serviço aos níveis “resultados-performance-qualidade”. Particularmente neste fator, mesmo os países que optaram por adotar componentes de assistência médica com base em valor ainda estão em estágios iniciais. Assumindo que mudanças relevantes dependem de incentivos e estímulos devidamente alinhados com os resultados a serem atingidos, foi criado há alguns anos a iniciativa global do International Consortium for Health Outocomes Measurement (ICHOM ), focada em desenvolver conjuntos de desfechos relevantes para saúde que servirão de base para um novo modelo de remuneração.

A iniciativa da ICHOM chegou ao Brasil em 2018, a partir da fundação do Instituto Brasileiro de Valor a Saúde (IBRAVS) e que, juntamente com outras iniciativas de melhoria da saúde, pretende contribuir para esse processo de transformação. De fato, as alterações no sistema de saúde que buscam a transição do modelo Cure para o Change necessitam de atenção. Considerar as mudanças ocorridas nos últimos tempos no tema saúde é essencial para entender como o novo sistema de saúde pode melhorar a vida da população.

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