Saúde Pública

27 de setembro: Dia Nacional da Doação de Órgãos

Tempo de leitura: 4 min.

Embora pouco conhecido, o dia 27 de setembro é o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Instituída em 2007, a comemoração da data visa conscientizar a sociedade sobre a importância da doação de órgãos e, ao mesmo tempo, promover o debate sobre o tema.

Diante de um potencial doador, além das medidas para diagnóstico de morte encefálica e de suporte para manutenção dos múltiplos sistemas do indivíduo, é importante que a equipe assistencial avalie o risco potencial de presença de doença infecciosa. Embora nem todas as infecções contraindicam o transplante, uma análise criteriosa deve ser feita como parte dos procedimentos de avaliação do doador.

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Avaliação clínica

Inicialmente, deve-se buscar, por meio de história clínica e exame físico, descartar a possibilidade de doenças transmissíveis. Revisão de prontuário, com atenção para doença da história atual, comorbidades prévias conhecidas e comportamentos ou hábitos que possam configurar risco de doença infecciosa. O exame físico também pode oferecer pistas sobre a necessidade de solicitação de exames de rastreio, como a presença de sinais de punição por uso de drogas ilícitas.

Exames complementares

Além de exames gerais e órgãosespecíficos, segundo as Diretrizes para avaliação e validação do potencial doador de órgãos em morte encefálica, alguns exames são considerados obrigatórios na avaliação do potencial doador.

Para o diagnóstico de infecções transmissíveis por via parenteral, recomenda-se a realização das seguintes sorologias:

  • anti-HIV
  • anti-HTLV 1 e 2
  • HBsAg
  • anti-HBc
  • anti-HBs
  • anti-HCV
  • VDRL e teste treponêmico

Outras sorologias, como as para doença de Chagas e toxoplasmose, também são consideradas obrigatórias, pelo potencial de transmissão por sangue e tecidos, especialmente no transplante de órgãos-alvo dessas doenças, como o transplante cardíaco. Outras sorologias são importantes para determinar o status do doador e direcionar a avaliação de risco e guiar terapias profiláticas no receptor, como anti-CMV e anti-EBV. Conforme suspeição clínica ou localização geográfica, outras doenças devem ser pesquisadas, como malária em indivíduos de regiões endêmicas.

Recomenda-se também a realização de ao menos duas hemoculturas e de urinocultura no potencial doador. Se houver suspeita de infecção em outro local, material adequado deve ser coletado e enviado para cultura.

A presença de infecção bacteriana ativa não é contraindicação absoluta para a doação de órgãos, mas é necessário que o doador esteja em tratamento adequado e com infecção controlada no momento da captação.

Contraindicações ao transplante

A presença de algumas doenças infecciosas é considerada como contraindicação à doação de órgãos. São elas:

  • Infecção pelo HIV
  • Sorologia positiva para HTLV I e II
  • Hepatite viral aguda
  • Tuberculose em atividade
  • Malária
  • Infecções virais agudas
  • Meningoencefalites virais, criptocócicas ou de causa desconhecida
  • Doenças priônicas
  • Covid-19
  • Infecções fúngicas invasivas sistêmicas

Conforme nota técnica da Anvisa, doadores com diagnóstico confirmado de Covid-19 ou com síndrome respiratória aguda grave sem causa definida apresentam contraindicação absoluta para doação de órgãos e tecidos e não podem ser validados. Doadores com infecção há mais de 28 dias, que haviam tido regressão completa dos sintomas, e com novo teste diagnóstico negativo podem ser considerados, sendo essa condição classificada como uma contraindicação relativa.

Casos de sepse bacteriana somente configuram contraindicação à doação quando considerada não controlada clinicamente. Um potencial doador que se encontre em tratamento há pelo menos 48h e com estabilidade hemodinâmica ou com diminuição no uso de vasopressores pode ser validado. Nesses casos, o receptor deve receber tratamento antibiótico, preferencialmente guiado por identificação de espécie e por teste de suscetibilidade a antimicrobianos. Com isso, comunicação efetiva entre laboratório, equipe assistencial e equipe transplantadora é essencial para que resultados de culturas sejam conhecidos e orientem as condutas.

Sorologias positivas para sífilis não contraindicam transplante, mas o receptor deve ser tratado após o procedimento. Nos casos de evidência de doença de Chagas ou toxoplasmose, realização de profilaxia no receptor deve ser considerada.

Para os casos de infecção por HBV ou HCV, pode-se considerar a doação de alguns órgãos – notadamente rim ou fígado – para receptores infectados pelos mesmos vírus. Nesses casos, a utilização do órgão fica a critério da equipe, levando em consideração a urgência do procedimento e o risco para o receptor. Mais recentemente, o uso de antivirais de ação direta vem sendo estudado como forma de permitir a doação de órgãos de doadores HCV positivos para receptores HCV negativos.

A prática de doação de órgãos é um tema que deve ser amplamente divulgado e debatido. Pacientes devem ser orientados a discutirem o tema com seus familiares e deixarem claro sua preferência. Ao mesmo tempo, as equipes devem ser treinadas a reconhecer potenciais doadores, a realizar os procedimentos de notificação necessários e a acolher as famílias envolvidas.

Autora:

Referências bibliográficas

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Publicado por
Isabel Cristina Melo Mendes

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