39° Congresso Brasileiro de Pediatria: Farmacodermias

Um dos temas abordados no 39° Congresso Brasileiro de Pediatria foi farmacodermias, pelo palestrante Dr. Jandrei Rogério Markus, de Tocantins.

O Portal PEBMED é destinado para médicos e demais profissionais de saúde. Nossos conteúdos informam panoramas recentes da medicina.

Caso tenha interesse em divulgar esse conteúdo crie um perfil gratuito no AgendarConsulta.

Tempo de leitura: [rt_reading_time] minutos.

Um dos temas abordados no 39° Congresso Brasileiro de Pediatria foi farmacodermias, pelo palestrante Dr. Jandrei Rogério Markus, de Tocantins. Tópicos importantes destacados por Dr. Jandrei:

  • Um dos grandes problemas das farmacodermias é a falta de notificação. A notificação de farmacodermias não é obrigatória e os laboratórios, na grande maioria das vezes, não são comunicados quando há hospitalização ou reação medicamentosa em pacientes internados;
  • O diagnóstico de farmacodermias é clínico. Em geral, o diagnóstico é feito da seguinte forma: o paciente apresentou reação a um determinado medicamento e ele é suspenso. No entanto, a grande dúvida é se realmente esta reação foi devido ao medicamento ou era uma manifestação cutânea que o paciente já iria desenvolver sem utilizá-lo. O fármaco acaba sendo retirado da prescrição e o paciente é então rotulado como alérgico a esta droga, tendo implicações ao longo de toda a vida do indivíduo;
  • Crianças evoluem com muito mais farmacodermias do que adultos, além de apresentarem formas mais graves, incluindo sintomas sistêmicos. No entanto, apesar da frequência elevada em crianças, a letalidade é rara. Em geral, as farmacodermias em pediatria ocorrem por uma combinação entre o medicamento, fatores genéticos do paciente e o agente infeccioso. Essa reação não se repete em outro momento, mas o paciente pode acabar sendo rotulado como alérgico;
  • O médico deve estar sempre atento em relação à prescrição de inúmeros medicamentos simultaneamente, pois podem levar a complicações graves;
  • Rash por antibióticos ocorre em cerca de 7,3% das crianças que fazem uso desta classe medicamentosa. Um dos antibióticos mais implicados no surgimento de reações cutâneas é o cefaclor, que está em desuso em diversos países por apresentar sensibilidade um pouco alterada;
  • Como avaliar a criança com farmacodermias?

VEJA TAMBÉM: Adrenalina em alergias pediátricas: o que a nova diretriz recomenda

O primeiro passo é colher uma história atual adequada, com todos os dados possíveis da etiologia atual e da história patológica pregressa. Avaliar a presença de alterações sistêmicas, como febre, mal-estar, linfonodos e outras repercussões irão ajudar na categorização entre reações simples ou complexas. Descrever as lesões cutâneas.

O segundo passo é avaliar a exposição ao medicamento: fazer um relatório bem detalhado sobre todos os medicamentos que foram utilizados pelo paciente nas oito semanas anteriores ao surgimento das lesões: medicamentos naturais, chás, vitaminas, florais etc (a maioria das farmacodermias ocorre em 1 a 7 semanas).  Qualquer uso é válido, basta uma única dose para o desenvolvimento da farmacodermias, que pode ser na evolução de uma doença vigente.

O terceiro passo é atentar para os diagnósticos diferenciais, na tentativa de descartar a farmacodermia.

O quarto passo consiste nos exames laboratoriais: hemograma completo, função hepática e função renal. Esses exames, muitas vezes, são associados a uma biópsia. Nem sempre a biópsia pode afirmar com plenitude que uma reação cutânea foi medicamentosa e, muito menos, qual o medicamento que ocasionou esta reação. Mas, às vezes, é de bastante utilidade, mostrando que houve reação medicamentosa.

SAIBA MAIS: Anafilaxia: três aspectos fundamentais para o tratamento adequado

O quinto passo é realizar buscas na literatura – o palestrante recomenda o livro Litt’s Drug Eruption and Reaction Databas e buscas pelo Medline através do Pubmed – Quadro 1.

A confirmação da farmacodermias nunca é feita com 100% de certeza. Se houve uma relação temporal o diagnóstico é possível. Se houve uma relação temporal associada a uma reação conhecida (descrita na literatura), com melhora após a suspensão do medicamento, o diagnóstico é provável. Se todos estes fatores também estiverem associados a uma piora da sintomatologia quando o medicamento é reintroduzido, o diagnóstico é altamente provável. 

As farmacodermias podem ser divididas em simples ou benignas (quando não há sintomas sistêmicos e há resolução com a suspensão do fármaco) e complexas ou severas (com alta mortalidade e requerem hospitalização). 

Dentre as farmacodermias simples, estão: 

  • Exantema: mais comum. Erupções maculopapulares;
  • Urticária: requer sensibilização anterior (mediada por IgE);
  • Pustular: pouco comum. Ocorre em pacientes que usam esteroides, anabolizantes ou medicamentos inalatórios contendo corticoides (na face). Estimulam a produção de acne, de localização e aspecto diferente da acne comum.
  • Bolhas: pouco comum no geral. Ocorre em 12% de crianças com artrite reumatoide juvenil, pelo uso de anti-inflamatórios.

Formas complexas:

  • DRESS (Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms): forma de reação cutânea relacionada à eosinofilia. Apresenta taxa de mortalidade de aproximadamente 10%, portanto há risco de vida. O hemograma é caracterizado pela presença de linfócitos atípicos e, principalmente, a eosinofilia, que é característica da síndrome. Febre, mal-estar, aumento de linfonodos (podendo ocorrer linfangite e linfadenite). Na evolução, surge o exantema, inicialmente cefálico, mas que evoluiu para difuso;
  • Diagnósticos diferenciais de DRESS: formas bolhosas – NET (Necrose Epidérmica Tóxica) e Síndrome de Stevens-Johnson (SSJ). Quanto maior a extensão acometida, maior a mortalidade. Associam-se a antiepilépticos, sulfonamidas e Micoplasma. O palestrante enfatizou que há dados na literatura que relatam que tanto a NET como a SSJ em crianças são devidos a quadros infecciosos em 50% dos casos e o tratamento, portanto, é questionável. Por exemplo, se a causa for infecciosa, o tratamento com base em corticoides (imunossupressores) pode piorar o prognóstico, podendo culminar em óbito;
  • Forma urticariforme complexa: considerada reação do tipo doença do soro. Apresenta eosinofilia, febre, mal estar, dor em orofaringe, artralgia e linfonodopatias;
  • AGEP (acute generalized exanthematous pustulosis): forma pustular generalizada. O paciente inicia um quadro de febre, evoluindo para pústulas difusas pelo corpo, não foliculares. Raro na pediatria. Relacionado a aminopenicilinas e paracetamol.

Farmacodermias em geral apresentam febre e linfonodopatias. Atentar  para estas manifestações clínicas durante a avaliação clínica.

O palestrante destacou a necessidade de se conversar com os pais de crianças em uso de antiepilépticos sobre a possibilidade de apresentarem farmacodermias graves.

Por fim, citou o recente texto do médico Aaron Carrol publicado em julho no JAMA Forum. O texto fala sobre o excesso de avisos que os pediatras recebem diariamente e da necessidade de se concentrar as informações para não dessensibilizar o médico, evitando a fadiga de alerta sobre reações adversas a medicamentos. 

 

Cadastre-se ou faça login para acessar esse e outros conteúdos na íntegra
Cadastre-se grátis Fazer login
Veja mais beneficios de ser usuário do Portal PEBMED: Veja mais beneficios de ser usuário
do Portal PEBMED:
7 dias grátis com o Whitebook Aplicativo feito para você, médico, desenhado para trazer segurança e objetividade à sua decisão clínica.
Acesso gratuito ao Nursebook Acesse informações fundamentais para o seu dia a dia como anamnese, semiologia.
Acesso gratuito Fórum Espaço destinado à troca de experiências e comentários construtivos a respeito de temas relacionados à Medicina e à Saúde.
Acesso ilimitado Tenha acesso a noticias, estudos, atualizacoes e mais conteúdos escritos e revisados por especialistas
Teste seus conhecimentos Responda nossos quizes e estude de forma simples e divertida
Conteúdos personalizados Receba por email estudos, atualizações, novas condutas e outros conteúdos segmentados por especialidades

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo

Selecione o motivo:
Errado
Incompleto
Desatualizado
Confuso
Outros

Sucesso!

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo.

Você avaliou esse artigo

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Baixe e-books, e outros materiais para aprimorar sua prática médica e gestão Baixe e-books, e outros materiais
para aprimorar sua prática
médica e gestão

Especialidades