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estetoscópio em cima de uma prescrição médica

8 perguntas e respostas sobre desreguladores endócrinos e seus efeitos na homeostase tireoidiana

Tempo de leitura: 5 minutos.

1) Como definir os desreguladores endócrinos (DE)?
Um DE é qualquer substância natural ou sintética – ou mistura de substâncias exógenas – capaz de interferir em uma ou várias funções do sistema endócrino corrompendo a homeostase. Pode levar a efeitos adversos sobre a saúde não só de um organismo, como também de sua prole ou de (sub)populações

2) Como os DE atuam?
Estamos expostos a mais de 85 mil produtos químicos artificiais e, pelo menos, 1.000 deles interferem no funcionamento hormonal. Nem todos foram testados. Como as consequências podem ocorrer em concentrações variadas, não há dose segura. Além disso, cada DE pode gerar outras substâncias e metabólitos capazes de afetar o metabolismo através de diversos mecanismos ainda não totalmente elucidados, incluindo a produção, liberação, metabolismo e eliminação hormonal, além de poderem mimetizar efeitos naturais dos hormônios, envolvendo ainda mecanismos epigenéticos. Tanto o período como a duração da exposição são importantes na determinação de seus efeitos. Exposição na gestação, infância e adolescência merecem atenção especial.

3) Como se dá a exposição a essas substâncias?
A exposição pode ocorrer de diferentes maneiras, porém estima-se que mais de 90% dos DE sejam absorvidos por via digestiva. Os DE também invadem nosso organismo através da pele e da respiração, podendo ainda ser transferidos da mãe para o filho durante a gestação ou no aleitamento materno.

O contato pode se dar por produtos naturais (ex: vegetais como a soja), ou através da contaminação da água, do ar, da pele, do solo ou de alimentos a partir de compostos utilizados na agricultura (pesticidas), indústria (embalagens plásticas e revestimento de latas), garrafas plásticas, cosméticos (maquiagem, protetor solar, esmaltes), inseticidas, selantes dentários, retardantes de chama, tubulações de ar-condicionado, brinquedos e borrachas escolares, compostos farmacêuticos (pílulas anticoncepcionais), entre outros.

4) Quais as implicações da exposição aos DE na homeostase tireoidiana?
Estudos epidemiológicos demonstram uma clara associação entre a exposição a substâncias químicas e problemas da tireoide, que vêm aumentando sua incidência de forma desproporcional nas últimas décadas, inclusive em mulheres grávidas.

Isso traz grande preocupação, já que uma função tireoidiana normal é essencial para o desenvolvimento adequado do sistema nervoso central desde a vida intrauterina, assim como para o crescimento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, e para a homeostase energética e metabólica ao longo de toda a vida.

– Os efeitos podem ser diferentes dependendo da janela de exposição (infância, adolescência ou gestação).

– Os efeitos clínicos podem ocorrer anos após a exposição inicial.

– Nem todas as consequências sobre o eixo tireoidiano podem ser observadas através de alterações nos níveis sanguíneos de TSH ou dos HT (T3 ou T4).

5) Através de quais mecanismos os DE podem interferir com a integridade do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide?
A integridade do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide (HHT) pode ser corrompida pelos DE em qualquer nível, incluindo as fases de síntese, liberação, transporte, metabolismo e clearence dos hormônios tireoidianos. Isso ocorre, em parte, devido à semelhanças estruturais entre alguns DE e os hormônios tireoidianos.

EDC-2: The Endocrine Society’s Second Scientific Statement on Endocrine-Disrupting Chemicals Endocr Rev. 2015;36(6):E1-E150. doi:10.1210/er.2015-1010 – Fonte da imagem: https://academic.oup.com/edrv/article-lookup/doi/10.1210/er.2015-1010

6) Quais são os DEs mais estudados com relação a seus efeitos na função tireoidiana?
Veja em que produtos de uso diário podem ser encontrados, e implicações clínicas prováveis:

Desregulador endócrino Fonte de contaminação Efeitos clínicos
Nitrato

Perclorato

Tiocianato

Ânions encontrados na água e nos alimentos.

Fontes:

Fertilizantes, pesticidas, herbicidas,

Fogos de artifício, combustíveis de foguetes, propelentes, cigarro.

*Mulheres com deficiência de iodo, tabagistas e portadoras de doença tireoidiana subclínica ou expostas a outros agentes antitireoidianos ambientais têm maior risco.

Inibem a captação de iodo pela tireoide.

Maior ingesta de nitrato foi associada ao câncer de tireoide e hipotireoidismo.

Prejuízo da função cognitiva na prole.

Hipotireoidismo

PBDEs – Bromados  

PCBsBifenilas policlorinadas

Químicos industriais – retardantes de chama (plásticos, espumas, carpetes, estofamentos.

Detectado na água e alimentos, e no leite materno.

Líquidos de transformadores, capacitores e outros equipamentos elétricos (banidos desde 1981 no Brasil).

Detectados nos lençóis freáticos e no tecido adiposo de animais (ex: peixes) e humanos.

Inibem a ligação a proteínas carreadoras dos HT.

Afetam os receptores tireoidianos.

Disfunção cognitiva

TDAH

Certas formas de autismo Doenças neurodegenerativas

Ftalatos Alimentos contaminados

(confere maleabilidade a produtos plásticos)

TSH alto e T4 baixo.

Aumento de IMC e circunferência abdominal em crianças.

Fitoestrógenos

(Isoflavonas)

Produtos de soja, ervilhas, feijões, nozes, grãos.

*Maior risco nas dietas veganas ou vegetarianas

Inibem a tireoperoxidase (síntese HT).

Em áreas carentes de iodo: Bócio e hipotireoidismo em lactentes usuários de fórmulas contendo leite de soja.

*Aumento de 3 vezes no risco de desenvolver hipotireoidismo em pacientes com hipotireoidismo subclínico.

BPA – Bisfenol A Recipientes plásticos onde se armazenam líquidos e alimentos, garrafas recicláveis e superfície interna de latas (alimentos, bebidas).

Brinquedos de plástico.

Interfere no receptor dos HTs. Antagonista do T3.

Resultados variáveis.

– Hipotireoidismo

– Hipertireoidismo

– TDAH

– Obesidade e resistência à insulina (relacionadas a DM2, HAS e câncer).

Pesticidas Água e alimentos contaminados. Hipotireoidismo e positividade para anti-TPO
Herbicidas Glifosato – herbicida mais usado no mundo.

Usado em lavouras de soja transgênica.

Detectado em residências, alimentos e urina.

Interferem com o eixo tireoidiano – padrão não explicável pelos modelos habituais.

Hipotireoidismo.

Provavelmente oncogênico.

Dioxinas

Furanos

Produto secundário a processos como clareamento de papel e fabricação de herbicidas. Ativação de enzimas hepáticas que metabolizam os HT
Poluição do ar Mistura de várias partículas, incluindo metais, nitratos e materiais orgânicos Baixo peso ao nascimento
Triclosan Agente antibacteriano e antifúngico . Em produtos de higiene, plásticos e tecidos. Afeta os receptores tireoidianos
Estirenos Produção de borrachas, plásticos e resinas. Inibidores das desiodases periféricas.
TBT – Tri-butil-estanho Anti-incrustante (tintas de embarcações). Banido, mas persiste no ambiente.

Contaminação de frutos do mar.

Alterações estruturais da tireoide.

*Aumento dos níveis de T4.

Mercúrio Mineração do ouro.

Indústria química, eletroeletrônicos, lâmpadas, termômetros, produtos dentários.

Contaminação pelo consumo de frutos do mar (metilmercúrio).

Alteração de memória.

7) É possível controlar a exposição a essas substâncias?
Os DE têm distribuição universal. A maior parte das águas (superficiais ou de beber) apresenta hormônios e outros compostos com potencial de causar interferência endócrina, sendo que a maior fonte de contaminação é o esgoto doméstico.

O tratamento convencional da água não é capaz de remover a maioria dos contaminantes estudados atualmente. Algumas políticas têm sido estudadas para a proibição do uso de alguns desses elementos, porém ainda não se conhece a segurança de muitos de seus substitutos.

8) Como devemos orientar nossos pacientes para minimizar a exposição aos DE?

  • Consumir alimentos orgânicos sempre que possível;
  • Preferir alimentos da época, que costumam ter menor exposição a agrotóxicos.
  • Lavar bem e descascar frutas e vegetais;
  • Retirar a gordura visível da carne e a pele do frango antes do preparo (pesticidas podem se acumular nessas estruturas);
  • Substituir tábuas e recipientes de plásticos utilizados no preparo e armazenamento de alimentos por tábuas, recipientes e potes de vidro temperado;
  • Evitar o uso de pesticidas no ambiente doméstico, escolar e em creches;
  • Não aquecer alimentos em recipientes plásticos no micro-ondas. O calor potencializa a transferência de substâncias químicas para os alimentos;
  • Evitar a exposição de crianças pequenas a brinquedos e mordedores de plástico;
  • Mulheres que planejam engravidar devem utilizar ácido fólico;
  • A medida mais eficaz para a prevenção de problemas secundários à ação das milhares de substância químicas a que estamos expostos é consumir menos! De tudo!

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Autora:

Referências:

  • EDC-2: The Endocrine Society’s Second Scientific Statement on Endocrine-Disrupting Chemicals. Endocr Rev. 2015;36(6).
  • Janssen BG et al Fetal thyroid function, birth weight, and in utero exposure to fine particle air pollution: a birth cohort study. Environ Health Perspect. September 2016.
  • Thomas Luke Wadzinski et al. Endocrine Disruption in Human Placenta: Expression of the Dioxin-Inducible Enzyme, Cyp1a1, Is Correlated With That of Thyroid Hormone-Regulated Genes. J Clin Endocrinol Metab. 2014 Dec; 99(12): E2735–E2743.
  • Tiange Wang et al. Urinary Bisphenol A (BPA) concentration associates with obesity and insulin resistance. J Clin Endocrinol Metab. 2012; 97(2):E223-E227.

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