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homem com a cabeça baixa, em depressão

A eficácia de técnicas cognitivas baseadas em Mindfulness na prevenção da recaída de depressão

Tempo de leitura: 3 minutos.

A recorrência do transtorno depressivo continua a causar prejuízos, significando um grande custo à sociedade. Nesse sentido, intervenções na prevenção da recaída são importantes. A terapia cognitiva baseada em Mindfulness (TCBM) seria uma dessas intervenções e se propõe a ensinar habilidades psicológicas cujo alvo sejam os mecanismos cognitivos implicados na recaída do transtorno depressivo.

Um estudo fez uma revisão sistemática da literatura e se propõe a discutir este tema.

Foram pesquisadas publicações relevantes entre novembro de 2010 e novembro de 2014, usando critérios como estudos randomizados, escritos em língua inglesa, aceitos e publicados em jornais científicos. Os participantes devem ter 18 anos de idade ou mais, terem sido diagnosticados com transtorno depressivo recorrente em remissão total ou parcial de acordo com um sistema formal de classificação diagnóstica.

O grupo de pacientes que sofreu intervenção com a técnica seguiu o manual de TCBM. O diagnóstico de pacientes foi feito preenchendo critérios da DSM-lV TR ou da CID-10 para novo episódio depressivo no seguimento. Foram utilizadas várias bases de dados, como EMBASE, Pubmed/Medline, PsycInfo, Web of Science, Cochrane e Scopus.

Características sociodemográficas e psiquiátricas (como a gravidade dos quadros) foram levadas em consideração. O estudo se deu ao longo de 60 semanas de seguimento. Nove (9) estudos foram incluídos na pesquisa. A média de idade foi de 47,1 anos e a maioria dos pacientes era do sexo feminino (75%).

Dentre as limitações, deve-se considerar que os vieses foram baixos, sugerindo confiança nos achados. A ausência de estudos menores pode ser uma limitação, pois poderiam mostrar um risco maior de recorrência mesmo com o tratamento com TCBM. Estudos que não foram publicados também poderiam significar limitações. “Efeitos de fidelidade” também podem influenciar no tamanho dos estudos de psicoterapia.

Deve-se considerar que os estudos avaliados foram amplamente conduzidos por aqueles que propõem a técnica. Porém, o risco de vieses nesse sentido foi analisado. Algumas limitações ocorreram por disponibilidade de dados nos estudos avaliados. Por exemplo, não se pôde obter informações sobre fatores importantes como raça/etnia ou profissão.

Os estudos também variaram conforme a coleta de dados (ex: a data do primeiro episódio depressivo em alguns estudos foi coletada por relato do paciente, enquanto em outros se usou uma entrevista standard). O número de episódios prévios também foi coletado de forma inconsistente. Efeitos adversos não foram sistematicamente coletados ou referidos. Estudos que podem ter sido publicados em outras línguas não foram utilizados. Há um risco de erro tipo 1.

Nos resultados

Dos pacientes que receberam a técnica, 38% tiveram recaída em 60 semanas contra 49% dos que não receberam a técnica.

Na discussão

Replicando trabalhos anteriores, foram achadas evidências de que a TCBM está associada com uma redução significativa no risco de recaída ou recorrência de transtorno depressivo ao longo de 60 semanas comparado aos cuidados habituais. Este risco também seria menor quando comparado à principal abordagem, a manutenção de antidepressivos. Não há diferença de efeitos de acordo com sexo, idade, educação ou estado civil. Como há pouca heterogeneidade entre os estudos, sugere-se que os efeitos da terapia sejam similares em diferentes contextos.

A análise sugere que os efeitos do tratamento sejam maiores nos pacientes com mais sintomas depressivos, sugerindo que o tratamento possa ser de maior ajuda naqueles que ainda possuem significativos sintomas depressivos. Isto é consistente com vários outros estudos recentes que sugerem que TCBM é mais efetiva para indivíduos com flutuação dos sintomas depressivos ou que possuem história de adversidade precoce.

Conclusão

Enquanto estudos anteriores demonstraram superioridade do TCBM quando comparado às técnicas convencionais, este estudo fornece importantes novas evidências de que o TCBM também é eficaz quando comparado com outros tratamentos e que seus efeitos não são restritos a grupos particulares (definidos por idade, nível educacional, estado civil, sexo).

Uma recente metanálise de eficácia de todas as intervenções psicológicas na prevenção da recorrência comparado com os cuidados habituais e antidepressivos sugere que os efeitos da TCBM são comparáveis com os da terapia cognitiva e da terapia interpessoal. Contudo, a TCBM se volta para um problema clínico particular: ensinar técnicas para permanecer bem a pacientes que se encontram em melhor estado, mas com alto risco de recaída. Há uma redução nos efeitos protetores com o tempo.

Os achados de que a técnica pode ser mais útil para pacientes com maiores níveis de sintomas depressivos corroboram para o emergente consenso de que quanto maior o risco de recaída/recorrência, maiores os benefícios da técnica. Pacientes com menores scores parecem ter tido menos benefícios, mas não estiveram em desvantagem com a técnica.

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Autora:

Referências:

  • Kuyken W; Warren FC; Taylor RS; Whalley B; Crane C; Bondolfi G; Hayes R; Huijbers M; Ma H; Schweizer S; Segal Z; Speckens A; Teasdale JD; Van Heeringen K; Williams M; Byford S; Byng, R; Dalgleish T. Efficacy of Mindfulness-Based Cognitive Therapy in Prevention of Depressive Relapse An Individual Patient Data Meta-analysis From Randomized Trials. JAMA Psychiatry. 2016;73(6):565-574. doi:10.1001/jamapsychiatry.2016.0076 Published online April 27, 2016.

Um comentário

  1. Dos pacientes que receberam a técnica, 38% tiveram recaída em 60 semanas contra 49% dos que não receberam a técnica.

    Não me parece nada promissor isso…

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