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A real importância do mecônio na sala de parto

Tempo de leitura: 3 minutos.

Na maioria das gestações, ao nascimento, o líquido amniótico é claro e a primeira evacuação do recém-nascido só vai ocorrer nas primeiras 48 horas de vida. No entanto, em cerca de 10% das gestações ocorre a liberação de mecônio ainda intra-útero e isso pode ser um sinal de sofrimento fetal.

A liberação de mecônio pelo feto parece estar relacionada ao sofrimento fetal, que gera uma acidose e aumenta os movimentos peristálticos, culminando com sua saída. Além disso, a pós-maturidade e a própria compressão abdominal durante a passagem pelo canal de parto são fatores também relacionados à liberação meconial.

Com a presença do mecônio no líquido amniótico, ele pode ser aspirado pelo feto, principalmente quando há hipoxemia, que provoca movimentos respiratórios do tipo gasping e gera a aspiração desse conteúdo para as vias aéreas ainda intra-útero.

É importante entender que nem todo recém-nascido banhado em mecônio vai desenvolver a chamada síndrome de aspiração meconial (SAM), patologia multifatorial que causa um desconforto respiratório precoce no recém-nascido, causado pela presença do mecônio nas vias aéreas. Dos recém-nascidos com líquido amniótico meconial, apenas 1 a 2% vão desenvolver a SAM.

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Por esse motivo, e por já estar claro que a aspiração do mecônio na maioria das vezes já ocorreu intra-útero, as normas de reanimação neonatal sofreram modificações nos últimos anos e a presença do mecônio na sala de parto deixou de ser um item de grande relevância. Antigamente, entre as perguntas que se faziam na hora de decidir se o recém-nascido seria levado ou não à mesa de reanimação, estava incluída a presença do mecônio. Atualmente, as perguntas são apenas:

– Gestação a termo?
– Respirando ou chorando?
– Tônus muscular em flexão?

Logo, mesmo que o bebê esteja “banhado” em mecônio, se ele não preencher os critérios acima, será conduzido normalmente pelo pediatra, com preferência pelo clampeamento tardio de cordão e sem necessidade de manobras de reanimação a princípio.

O recém-nascido banhado em mecônio que não chorou após o nascimento, está hipotônico ou em apneia, deverá ser conduzido à mesa de reanimação e vai receber os mesmos cuidados preconizados para os casos com líquido amniótico claro.

Não existem evidências para indicar de modo rotineiro a aspiração traqueal sob visualização direta no RN não vigoroso com líquido amniótico meconial. Nos casos que não responderem aos 30 segundos iniciais da reanimação (prover calor, posicionar via aérea, aspirar boca e narina se necessário, e secar) e necessitarem seguir com a reanimação, a ventilação com pressão positiva deverá ser iniciada ainda dentro do primeiro minuto de vida. Se após 30 segundos de ventilação efetiva, o neonato não melhora e há forte suspeita de obstrução de vias aéreas, pode-se indicar a retirada do mecônio residual da hipofaringe e da traqueia sob visualização direta.

Nesses casos, se utiliza cânula traqueal acoplada a dispositivo para aspiração de mecônio conectado ao aspirador a vácuo, com uma pressão máxima de 100 mmHg, porém isso só deve ser feito por profissional experiente e apto para laringoscopia de recém-nascido. Deve-se aspirar o excesso de mecônio uma única vez.

O mecônio deixou de ser tão temido e o que realmente importa ao nascimento é a vitalidade do bebê e não o aspecto do líquido amniótico. Um recém-nascido que necessita de ajuda na sala de parto deve ser conduzido por profissional treinado, de acordo com as normas de reanimação neonatal, evitando-se assim as trágicas consequências da asfixia perinatal.

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Autora:

Referências:

  • Atenção à Saúde do Recém-Nascido; Guia para os Profissionais de Saúde, volume 3 – Ministério da Saúde 2017
    Avery´s diseases of the newborn; C.A. Gleason. Elsevier, 9ª edição
  • Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2016 da Sociedade Brasileira de Pediatria 26 de janeiro de 2016

Um comentário

  1. Muito bom!!

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