Cardiologia

ACC 2021: aspirina na prevenção secundária – qual a melhor dose?

Tempo de leitura: 3 min.

Embora exista um certo consenso de que menores doses de aspirina (AAS) provavelmente tem a mesma eficácia e maior segurança em relação às maiores doses, é necessário salientar que estas recomendações são baseadas em estudos observacionais e análises secundárias de estudos clínicos.

Ainda existe dúvida se doses maiores poderiam ser benéficas, sobretudo em pacientes de maior risco de eventos isquêmicos. Em 2014, por exemplo, um registro nacional norte-americano mostrava que até 60% dos pacientes admitidos em hospitais para o tratamento do infarto do miocárdio (IAM) recebiam alta com aspirina na dose de 325 mg.

O estudo ADAPTABLE (Aspirin Dosing: A Patient-Centric Trial Assessing Benefits and Long-term), apresentado no congresso do American College of Cardiology (ACC 2021) e publicado no New England Journal of Medicine, simultaneamente, tentou responder a essa pergunta.

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Aspirina na prevenção secundária

O estudo randomizou cerca de 15.000 pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, entre abril de 2016 e junho de 2019, para receberem aspirina, de modo aberto, aspirina na dose de 81 mg ou 325 mg.

Os pacientes foram recrutados a partir de uma rede eletrônica de pesquisa (PCORnet) e o follow-up foi feito através da internet (87%) ou através de um call center. O desfecho primário de eficácia foi a ocorrência de morte por qualquer causa, hospitalização por IAM ou hospitalização por acidente vascular encefálico (AVE). O desfecho primário de segurança foi a ocorrência de sangramento com necessidade de hemotransfusão.

Após um seguimento médio de 26 meses, o desfecho primário ocorreu em 7.28% no grupo 81 mg e 7.51% no grupo 325 mg (HR 1.02; IC95% 0.9-1.14). Também não houve diferença no desfecho de segurança, 0.63% contra 0.60% nas doses de 81mg e 325mg, respectivamente.

Houve, entretanto, um grande “crossover” entre os grupos, sobretudo em relação aos pacientes que foram randomizados para a dose de 325mg – mais de 40% deles passaram a utilizar a dose de 81mg. Além disso, a taxa de descontinuação da aspirina foi maior no grupo randomizado para 325mg – 11.1% contra 7.0%. Como a análise foi do tipo “intenção de tratar”, a elevada taxa de cruzamento entre os grupos pode introduzir vieses na interpretação dos resultados.

Leia também: Risco x benefício do uso de aspirina nos pacientes com FA pós-SCA ou angioplastia 

Os autores acreditam que a publicação de diretrizes recomendando menores doses de aspirina em pacientes usando inibidores P2Y12 (como a diretriz do European Society of Cardiology de 2016) e estudos demonstrando a ineficácia da aspirina na prevenção primária (como o ASPREE, ASCEND e ARRIVE) podem ter influenciado o uso de doses menores ou até mesmo a descontinuação da aspirina, já que o estudo era aberto.

É importante ressaltar que a grande maioria dos pacientes recrutados estavam inicialmente utilizando a dose de 81mg (85.3%).

Conclusões

Em conclusão, apesar de o estudo não ter demonstrado diferenças em relação às doses de 81mg e 325mg da aspirina na prevenção secundária, estes resultados devem ser interpretados com cautela, sobretudo devido às suas limitações metodológicas.

Apesar disto, os autores ressaltam o aspecto pragmático da pesquisa, sobretudo a incorporação de tecnologias como o uso de redes de saúde digitais, consentimento informado eletrônico e seguimento dos pacientes baseado principalmente na internet. Este modelo pode ser replicado, resultando em estudos mais baseados no mundo real e centrados no paciente.

Estamos acompanhando o congresso do ACC 2021. Fique ligado no Portal PEBMED!

Veja mais do evento:

Autor:

Referência bibliográfica:

  • Jones W, et al. 2021. “Comparative Effectiveness of Aspirin Dosing in Cardiovascular Disease.” The New England Journal of Medicine, no. NEJMoa2102137 (May). https://doi.org/10.1056/nejmoa2102137
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Publicado por
Wilton Francisco Gomes

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